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A Rússia e o estranho jogo da diplomacia

Intervenção aérea russa na Síria conseguiu garantir a sobrevivência do presidente Bashar al-Assad. País reafirmou-se como uma potência "global player" e não apenas regional
por Flávio Aguiar publicado 01/08/2018 13h04
Flickr/Freedom House
Síria

Com o apoio dos russos, exército sírio conseguiu o controle total de diversas regiões de seu país

Fui um dos pioneiros jogadores de mesa que propiciaram, como verdadeiras cobaias autoconsentidas, o lançamento do jogo War, da Grow, um grande sucesso no mundo desportivo entre-amigos. Aliás, Grow é um acrônimo com as iniciais dos fundadores da empresa, de quem eu e os demais jogadores éramos amigos. Passávamos horas e horas diante dos tabuleiros, jogando os dados, fazendo as invasões e as defesas, até que alguém cumprisse seu objetivo declarado nas cartas sorteadas. Por vezes os jogos duravam fins de semana inteiros, com intervalos para almoços rápidos, lautos jantares, sono reparador… Enfim, éramos jovens, jogávamos War e líamos O Capital com o mesmo afã. Dali saíram rumos divergentes: uns foram auxiliar as privatizações promovidas pelo PSDB, outros ajudaram a fundar o PT, outros se foram para outras opções. Uma das mais curiosas foi a do membro do grupo que, depois de se tornar assessor do Alberto Goldman, se aposentou e foi ser líder – cinquentão – de uma banda de jovens músicos, onde pontificava na guitarra-líder.

Antes do War, houve um jogo parecido, francês, chamado Risk. E antes do Risk, houve um outro mais complicado, chamado “Diplomacy”. Consta que ele foi inventado por um norte-americano, Allan B. Callhamer. O tabuleiro simulava o mapa da Primeira Guerra Mundial na Europa. Pelo que entendo hoje, a gente jogava sobre um tabuleiro simplificado em relação ao original. Por sorteio, cada jogador recebia a identidade de um país, a quem cabia um certo número de exércitos e de navios (a aviação não entrava no jogo). O jogo consistia em ir ocupando as casas dos outros países e impedir que as casas do seu fossem ocupadas. Isto era feito por um sistema de jogadas de ataque e defesa, onde a superioridade numérica dos atacantes ou defensores definia o resultado das jogadas. Estas eram escritas em papeis e reveladas simultaneamente ao fim de cada jogada. O mais interessante, no entanto, acontecia antes das jogadas: havia um tempo para o estabelecimento de alianças entre os jogadores. Tipo; se você vai atacar a Áustria, meu exército vizinho apoia seu ataque. Em compensação, sua armada no Mediterrâneo transporta meu outro exército que quer atacar a Tunísia no Norte da África. E por aí afora. Feitas em segredo as alianças, definiam-se as jogadas. Ninguém era obrigado a seguir o acordado, e as traições e as surpresas se sucediam. O objetivo do jogo era ir destruindo os adversários até que só restassem dois, que tudo decidiriam como num duelo ao pôr do sol, ou, na verdade, na maioria das vezes, já ao amanhecer, tamanha era a duração dos jogos.

Lembrei-me deste jogo ao contemplar a situação atual na Síria. Vamos por partes, estabelecendo a posição dos jogadores:

Estado Islâmico: Derrotado, hoje ocupa bolsões remotos. Motivo da derrota: auto-confiança exagerada, incapacidade de estabelecer alianças. Mas não desapareceu: esparramou-se, através de atos terroristas em vários continentes.

Forças rebeldes anti-Assad: derrotadas. Motivos da derrota: incapacidade de fazer sequer alianças internas entre suas forças. Além disto, confiaram demasiadamente no apoio dos EUA e de potências conexas. Foram abandonados à própria sorte, com exceção de alguns grupos menores apoiados pela Turquia. Hoje controlam apenas alguns territórios de menor importância.

Bashar al-Assad e o governo de Damasco: restabeleceu seu controle sobre mais da metade do território sírio, embora este esteja na maior parte destruído, em ruínas. Sobreviveu à guerra, graças à sua coesão interna e ao apoio do Irã e da Rússia. Sobreviverá a uma ainda virtual paz? A ver.

Curdos: dominam quase um terço da Síria, ao norte. Querem agora negociar com Damasco a constituição de uma “república federativa”, com grande autonomia para poderes locais. São a força mais progressista nesta barafunda. Tiveram apoio da Rússia e dos EUA. Enfrentam forte oposição da Turquia.

Turquia: domina um enclave em território sírio, junto a sua fronteira, para impedir o que considera uma excessiva proximidade dos curdos, tida como algo ameaçador à sua política de repressão aos movimentos internos desta etnia.

Irã: apoiou o regime de Assad e estendeu sua influencia pelo país, até a fronteira com as colinas de Golan, território sírio ocupado por Israel desde 1967.

Israel: teme mais do que tudo a influência iraniana na Síria e sua possível presença em regiões próximas de suas fronteiras. Quer promover mais animosidade dos EUA contra o Irã. Nesta altura, conta com aliados que uma década antes seriam considerados inimigos: a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU). Mas seu maior peso vem do lobby conservador judaico nos EUA em favor de Trump e dos republicanos.

Arábia Saudita e EAU: no seu afã de se contrapor ao Irã, fizeram a aposta errada: confiaram demasiadamente no poderio e no interesse dos EUA em derrubar Bashar al-Assad e hoje estão quase marginalizados em qualquer quadro que sobrevier desta estúpida guerra.

EUA: fizeram uma aposta errada, avaliando que o governo de Assad se desmancharia, como os de Ghaddafi na Líbia e de Saddam Hussein no Iraque. O maior desejo de Trump, no momento, parece ser o de sair da Síria, mas precisa negociar isto com a Rússia, em vista de garantir que esta conterá o Irã e protegerá Israel.

Rússia: estão mais ou menos a cavaleiro da situação. A intervenção de sua força aérea conseguiu garantir a sobrevivência de Assad. Não se comprometeram com pessoal em terra, salvo em um ou outro incidente, digamos, “menor”. Estão se reaproximando da Turquia, e podem negociar em vantagem com os Estados Unidos, pedindo em troca das garantias que possam oferecer quanto a Israel e a contenção do Irã algo como afrouxamento das sanções econômicas por parte dos EUA e reconhecimento da situação de fato na Crimeia e na sua fronteira com a Ucrânia, por exemplo, além de uma contenção do afã de alguns membros da OTAN junto à sua fronteira no extremo norte, países como Finlândia, Lituânia, Letônia, Estônia, ou outros mais ao sul, como Polônia et alii. Manteve sua base naval no Mediterrâneo, em território sírio. Além disto a sua presença na Síria reafirmou-a como uma potência “global player”, não apenas regional, o que pode trazer dividendos em outras regiões da geopolítica mundial, como na África, Ásia e América do Sul. Junto com Bashar al-Assad é a grande vencedora deste jogo tão complicado quanto sujo, onde vale tudo, menos lealdade.

Povo sírio: o grande perdedor de tudo. 12 milhões de refugiados, mais de 5 milhões fora do país e mais de 6 milhões dentro. Começam a retornar para o que sobrou de suas casas e terras devastadas para que Bashar al-Assad fosse deposto. Deu no que deu, e no que não deu.

Outros: o Hezbollah, do Líbano, sai um pouco reforçado pelo incremento da influência do Irã na região. Idem, os Houthis no Iêmen, apesar da enorme pressão militar e política dos sauditas e aliados.

Este é o tabuleiro. Façam suas apostas. A propósito: quando jogávamos Diplomacy, jamais conseguimos terminar uma partida. Qualquer coincidência é mera semelhança.

Tapetão

O Brasil e suas duas Copas: a real e a surreal

Mais um jogo desta "Taça Lawfare contra Lula", foi disputado neste 8 de julho. Foi o duelo do Direito contra o Arbítrio e, infelizmente, este último saiu ganhando por 3 x 1
por Flavio Aguiar publicado 09/07/2018 10h17
Valter Campanato/ABr - APT
lulamoro.jpg

Eu me preparava, no domingo, para escrever um artigo sobre a participação brasileira na Copa do Mundo que está sendo disputada na Rússia (a "real") quando uma outra Copa (a "surreal") invadiu meu espaço de observação e criatividade.

Trata-se da "Copa" arduamente disputada em nosso país e que chamo de "Taça Lawfare contra Lula", ou seja, a perseguição judicial, policial e midiática contra o ex-presidente.

Mais um jogo desta Copa surreal foi disputado neste 8 de julho, em torno da libertação ou não do prisioneiro político número 1 do Brasil. Foi o jogo do Direito contra o Arbítrio, e infelizmente este último saiu ganhando por 3 x 1.

O gol do Direito foi marcado por Favreto, de cabeça, logo no começo do jogo, depois de um centro de Damous. Mas a reação do time do Arbítrio não se fez por esperar. Começou com a pertinácia do zagueiro Roberval, que, dando de bico, fechou a área e não deixou ninguém passar, nem para dentro nem para fora.

Moro fez o primeiro gol do Arbítrio, em impedimento, pois estava pra lá de Marrakesh, muito adiante da linha de zagueiros, aparentando um descanso. Em seguida Gebran fez o segundo gol do Arbítrio, entrando de sola em Favreto e cometendo falta. Thompson Flores completou o placar, com gol marcado com a mão (na caneta) – 3 x 1 em favor do Arbítrio.

Enquanto isto, a Suprema Juíza olhava para os lados, ara cima, para baixo, falando de platitudes como "ordem democrática", "hierarquia", "rigor absoluto no cumprimento das normas vigentes", etc. Nem mesmo se deu o trabalho de conferir os gols na TV. Bem, não adiantaria nada, uma vez que a TV seria a da Globo.

Por ora, voltemos à Copa real. Passada a derrota do Brasil para a Bélgica, começou a sempiterna ladainha das observações de que "agora o povo brasileiro" (essa malta de babacas que adora futebol) "acordaria do estupor da Copa e começaria a ver a realidade". Nesta ladainha o sacerdote que a entoa está de fora; os babacas são sempre outros, que gostam de torcer pelo seu time com ardor. Mas enfim, a ladainha prossegue.

Pelo meu lado, de quem gosta de futebol e de ver o Brasil campeão, anotei uma observação em meu arquivo de favoritos.

A equipe organizada por Tite jogou bem; foi a melhor desde 2002, quando ganhamos a Copa pela última vez. Mas faltou algo - alguém - nela. Trata-se do líder em campo. Toda vez em que o Brasil ganhou ou jogou muito bem, havia um grande líder em campo (ou até dois). O líder não é necessariamente o goleador. Trata-se daquele que "arma" o time, que o organiza na adversidade e impõe o ritmo que leva à vitória, ou pelo menos quase.

Em 50 perdemos, mas havia Zizinho. No desastre de 54, que eu me lembre, o líder não se fez presente. Em 58 ele voltou: Didi (o da célebre caminhada solene depois do gol da Suécia que abriu o placar na final), o Valdir Pereira, o "Príncipe Etíope", o que, quando corria, segundo Nelson Rodrigues, "levava um manto de arminho invisível mas presente nos ombros". O mesmo Didi permaneceu até 62, com a ajuda de Zito.

Em 70 tivemos Gerson e o capitão Carlos Alberto. Em 82, quando não ganhamos, mas jogamos muito bem, havia Falcão no meio campo. Depois, em 94, contamos com Dunga que, com Taffarel, foi mais valioso para ganharmos a Copa do que o próprio Romário, embora as câmeras só quisessem saber deste. Em 2002 havia Cafu.

Todo grande time com grande atuação teve seu líder no passado. O Internacional dos anos 70 e Dom Elias Figueroa, na época considerado o melhor zagueiro central do mundo. Depois veio Falcão neste papel, que ele estendeu ao Roma, na Itália. O Palmeiras e o zagueirão Luís Pereira, além de Ademir da Guia. O São Paulo e Rogério Ceni. O também zagueirão Pinheiro, do Fluminense. A dupla Elton e Milton no meio do campo do Grêmio. E mais: Fritz Walter, Beckenbauer, Puskas, Di Stefano, Kopa, Yashin, o Uruguai em 50 tinha Obdulio Varela. A Argentina, mais que Maradona, teve Kempes. E assim por diante. Até o meu Inter de 2006, quando derrotou o Barcelona, teve Fernandão. Estou esquecendo meio mundo, certamente.

Pois bem, esta figura do líder entrou em declínio no futebol pós-moderno, comandado por superstars. Os times jogam para eles, não eles para seus times. Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar, são grandes jogadores, mas não são líderes. Desta vez, o Neymar começou a tentar, mas sucumbiu à tentação no jogo contra a Bélgica. Não vi, até o momento, lideranças de destaque em nenhum time desta Copa. A Alemanha de 2014 teve Kroos. Disse bem: teve. O líder foi devorado pelo apetite das câmeras, que só querem saber de goleadores, de caretas e penteados.

Bem, não sei aonde isto vai dar. Mas não estou gostando do percurso.

Voltemos à Copa surreal. Nesta, há um líder, o óbvio. Um grande líder. Mas ele está encantado, preso nas cavernas do Califado de Curitiba, mais intrincadas do que as da Tailândia, e os feiticeiros que o vigiam vão usar de todos os feitiços, despachos e faltas nos jogos para mantê-lo prisioneiro.

Vai ser preciso muita mandinga para libertá-lo.

versões

Singapura: confiar em Trump ou em Kim Jong-un?

De um lado, um norte-americano, apoiado pela mídia, apesar de evidentes sinais de instabilidade. De outro, um norte-coreano, mostrado como ditador. Um dos dois – ou ambos? – sai do encontro como "líder"
por Flávio Aguiar publicado 12/06/2018 12h05, última modificação 12/06/2018 12h14
shealah craighead / white house
Jong Trump

O líder norte-coreano Kim Jong-un e Donald Trump apertam as mãos em encontro histórico em Singapura

Em Kim, é claro. Embora a mídia mainstream do Ocidente insista em apresentar o líder da Coreia do Norte como alguém em quem não se pode confiar etc.

A ficha de Trump tampouco é limpa. Ele aparece como um líder instável, intempestivo, topetudo, mas um "self-made-man": um empresário de sucesso. Já Kim aparece como o líder de um regime obsoleto, ditatorial, destinado ao fracasso da história.

Em resumo, os desacertos de Trump são devidos ao indivíduo; os de Kim, ao sistema.

Mas a observação abrangente e sistêmica nos leva a uma outra conclusão. Kim é mais confiável. Por quê?

Em primeiro lugar, porque sua estratégia vem dando certo. A de Trump, não.

Kim conseguiu que o encontro se realizasse, apesar da negativa de Trump, algumas semanas atrás. Ponto para ele. Kim vem se mostrando um agente diplomático eficiente: manteve contatos com Moon Jae-in, da Coreia do Sul, com Xi Jingping, da China, aguarda a visita de Vladimir Putin e de Bashar al-Assad.

Já Trump está correndo atrás do prejuízo: brigou com seus aliados europeus, com o Canadá, tornou-se um cabo eleitoral valioso, malgré lui, para Lopez Obrador, o candidato presidencial de esquerda no México. Ou seja, a biruta de Trump, instável no plano internacional, contestada no plano interno, pode mudar a qualquer momento, de acordo com os ventos que soprem, sobretudo em sua cabeça.

A de Kim não. A gente vê planejamento e sistema na sua atuação. Pode-se discordar dela, mas não negar-lhe a coerência e a consistência. De ameaça em ameaça, ele chegou lá, conseguiu a reunião que queria. Já Trump chegou lá meio de arrasto, por não ter outra saída, nem entrada.

Trump queria que a Coreia do Norte desmantelasse unilateralmente seu arsenal nuclear. Parece estar prevalecendo a tática do Kim: um desarmamento progressivo, passo a passo, com toques de reciprocidade, envolvendo as sanções econômicas. Trump anunciou que vai suspender as manobras militares com a Coreia do Sul. Evitar os "jogos de guerra". Vitória para Kim.

O que transparece de tudo é que Kim é de fato um líder – quer se concorde ou não com ele. Já Trump é a ponta do iceberg em que o Titanic do Ocidente bateu. 

Dividida

Copa do Mundo: torcer ou não torcer, eis a questão

Mais uma Copa do Mundo se aproxima, e nos céus do jornalismo e alhures já troveja a questão: torcer ou não torcer pelo esquadrão canarinho?
por Flávio Aguiar publicado 07/06/2018 10h38, última modificação 12/06/2018 12h17
Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas
Copa 2018

Desfilam os raios e coriscos de ambos os lados, prós e contras. Os prós centram-se em torno do eixo de que o futebol é um patrimônio do povo brasileiro, importado da Inglaterra mas nacionalizado como aperitivo de primeira dos churrascos e outras comemorações ou choradeiras que se seguem. Os contras, centram-se em que estamos sob um governo golpista a ser favorecido por uma vitória, que a Fifa e a CBF são acusadas de serem poços sem fundo de corrupção e por aí vai.

Vejamos um pouco de história. Em 1950, o Brasil sediou pela primeira vez a Copa do Mundo, em sua quarta edição, a primeira depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Éramos um país em ascensão. A Europa ainda estava semi-destruída.

O Brasil fora o único país do continente americano ao sul do Rio Bravo (Grande para os norte-americanos) a enviar tropas para lutar no continente europeu. O Brasil recebera – por estas artes do destino – o galardão de abrir a Assembleia Geral da ONU, tradição que se mantém até hoje. O representante brasileiro – Osvaldo Aranha, pai do imortal filé que até hoje leva seu nome no Rio de Janeiro – presidiu a sessão que aprovou a criação do Estado de Israel.

Bom, hoje isto está em discussão, mas na época foi considerado ser uma honra. O resultado final do torneio foi um dos grandes desastres futebolísticos do país, somente comparável aos 7 a 1 recentes, contra a Alemanha. Mas o nome do Brasil, que já reluzira, embora pouco, nos anos que antecederam a Segunda Guerra, foi definitivamente entronizado no futebol.

Seguiu-se o fiasco de 1954, e o ano eufórico de 1958, aquele “que não deveria terminar”, segundo Joaquim Ferreira dos Santos. Ali presenciamos – primeiro ouvindo pelo rádio, depois vendo no cinema, os que estavam no Brasil – a “caminhada do século”. Logo aos 4 minutos, depois de sete passes precisos, sem que ninguém do Brasil tocasse na bola, Niels Liedholm abriu o placar: Suécia 1 x 0.

Gilmar, o goleiro, ficou estatelado no chão. Estatelado ficou o time inteiro, e o Brasil inteiro junto. Foi então que Didi, apelidado de “O príncipe etíope”, que, segundo Nelson Rodrigues, quando corria em campo levava aos ombros um invisível mas presente manto de arminho, caminhou até o fundo do gol, apanhou a bola e a passo lento e majestoso levou-a até o meio do campo, onde a jogou ao solo e consta que teria dito: “vamos acabar com estes gringos”.

Quando contei esta anedota ao querido mestre Antonio Candido ele riu muito e lembrou que até então a tradição brasileira lembrava frases tonitruantes, como “Independência ou Morte”, “Digam ao povo que fico”, “Os que forem brasileiros que me sigam”, ou até mesmo a trágica “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e deixo a vida para entrar na história”.

Didi, na anedota ou fora dela, deu outro rumo para estes fraseados. Não foi o primeiro a ser batizado “rei” em nossa tradição, tendo sido este o também imortal Friedenreich. Mas foi rei antes de Pelé: Didi foi eleito o melhor jogador daquela Copa, e ficou consagrado no sambinha de Tulio Piva: “Do Oiapoque ao Chuí/Corre uma alegria/Como eu nunca vi:/É que o Brasil/Lá nos campos da Europa/Deu um baile/Dançou samba/E trouxe a Copa.//Zagalo tabelava com Pelé/Didi, rei com a bola no pé/Garrincha, tico-tico no fubá/E a torcida gritava:/Gol de Vavá!”

Até 1950, a cor predominante da camiseta da seleção brasileira era a branca. Em 54, o Brasil estreou a camiseta canarinho. O fracasso daquele ano quase a enterrou. Mas ela foi consagrada em 58, embora na final o Brasil usasse uma camiseta azul, já que a da Suécia também era amarela.

Bom, "o mundo girou e a Lusitana rodou" e, em 1970, pela primeira vez, nos vimos diante do dilema: torcer ou não torcer, nós, os das esquerdas, então trituradas e esmagadas. Em plena ditadura, o Brasil enfrentava os sombrios tempos do governo Médici –torturas e assassinatos correndo à solta –, junto com a euforia maluca do "Brasil ame-o ou deixe-o", vulgar imitação do "America: love it or leave it”.

Em todos os recantos do país, do fundo das prisões aos encontros sussurrados e semi-clandestinos, houve juras de que não torceríamos por aquele time que, embora preparado pelo ex-comuna João Saldanha, caíra nas mãos do anódino Zagallo, já que o governo vetara aquele no comando das “onze feras”, como ele dizia.

Quando Ladislav Petras abriu o placar para o adversário, aos 12 minutos do primeiro tempo, na estreia contra a Tcheco-eslováquia, aquela firme decisão transformou-se num furioso ranger de dentes. E quando Rivelino empatou, aos 24, ela derreteu e saiu um urro de desabafo que só foi acabar no quarto gol, por Carlos Alberto, na vitoriosa goleada final contra a Itália.

Conclusão: o governo era terrível, mas o futebol e o coração eram maiores.

Pois o mundo continuou a girar e a Lusitana, a rodar. Novamente nos vimos diante do dilema “torcer ou não torcer” na Copa de 2014. Muita confusão. A direita espalhando a descrença no país e na organização da Copa e muita gente pelas esquerdas também, torcendo o nariz diante da conquista de ser a sede do mundial.

A Embaixada Brasileira foi apedrejada em Berlim, na calada da noite, por um bando de pseudo-esquerdinhas em “solidariedade” ao povo brasileiro (por sinal, agora estes apedrejadores estão com as pedras, assim como @s [email protected] e suas panelas no Brasil – enfiadas no meio das pernas – e isto não é, friso, não é um estímulo a apedrejamentos que, desde os tempos de Cristo, estão sumariamente condenados).

Como já era de costume desde meados de 2013, esses rugidos, rosnares ou miados de insatisfação foram capitalizados e apropriados pela direita, naquelas cenas grotescas das tribunas de ricaços insultando com palavrões a presidenta presente, abrindo o caminho para sua ilegítima e ilegal derrubada dois anos depois. E a única coisa que não funcionou na Copa foi a seleção dentro do campo.

Agora estamos de novo diante do dilema. 

De meu lado, a conclusão que tiro é clara. Não quero impô-la a ninguém mas, para mim, não torcer pelo Brasil, dentro e fora do campo, foi e é coisa da direita. 

 

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carta de berlim #14

Brasil, Itália, União Europeia: vocês querem a democracia para quê?

Conte tomou posse na última sexta (1º) como primeiro-ministro de governo anti-establishment na Itália
por Flavio Aguiar publicado 04/06/2018 09h54, última modificação 04/06/2018 13h56
CC/GOVERNO.IT
Giuseppe Conte

Conte, o novo premier da Itália: eEstá dado o labiríntico imbróglio da democracia europeia, que vai perdendo cada vez mais seu emblema 'social'

A democracia submergiu numa crise sem precedentes no Brasil, ninguém de bom senso duvida disto. Talvez possa afundar ainda mais, mas já está na UTI das profundezas. E quando digo "sem precedentes" não quero dizer que não tenhamos vivido e sobrevivido a coisas tão ou até mais graves do que as que hoje estamos vivendo. Quero dizer que nunca houve esta situação, de um golpe civil, sem participação dos militares, cuja vanguarda é composta de setores do Judiciário, arautos na mídia, setores policiais, os perdidos dentro do Palácio do Planalto e mais alguns congressistas e cujo resultado é uma das maiores badernas e anomias já instaladas no país. Os coxinhas sangram: Parente teve de sustar de momento o aumento do diesel? Pois tomem lá um aumento da gasolina! Li outro dia: "[email protected], não têm gasolina? Encham o tanque com Moet-Chandon".

Mas há outras democracias em questão. A crise italiana é evidência de uma delas. E que diz respeito não apenas à Itália, e sim a toda a União Europeia.

Na última eleição formou-se uma maioria ad hoc com o movimento "anti-establishment" M5 (de Cinco Estrelas) e a Lega (que estrategicamente tirou o "Nord" do nome). A pedido do presidente Sergio Mattarella, os dois líderes respectivos, Luigi di Maio e Matteo Salvini, encarregaram o obscuro (politicamente) Giuseppe Conte de formar um governo.

Ele o fez, e entregou a lista de ministeriáveis ao presidente. Surpreendendo a todos, este recusou o nome do proposto ministro das Finanças, Paolo Savona, de 81 anos, por ser este um conhecido eurocético, isto é, visto como inimigo tanto do euro como da União Europeia. Resultado: Conte demitiu-se antes de assumir o governo, situação também inusitada e confusa, a de um governo que caiu antes de assumir.

As reações foram as mais desencontradas possíveis. As bolsas, oscilaram, o euro caiu, alguns apoiaram Mattarella, outros criticaram. A reação mais contundente – logo contundida, pois seu autor pediu desculpas – veio do representante alemão do Comitê do Orçamento da União, Günther Oettinger, que disse ser aquilo uma lição para os italianos sobre "não votarem em populistas, seja à direita ou à esquerda".

Nota Bene: no jargão da hegemonia neoliberal da União e da mídia mainstream do continente, "populista" é tudo que se afaste dela. E o novo governo propunha, além de uma repressão sobre imigrantes, medidas heréticas, como a conjunção de uma redução drástica de impostos com um aumento nas aposentadorias, por exemplo. Houve reações àquela reação: Donald Tusk, o presidente do Conselho Europeu, pediu respeito ao eleitorado italiano. Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, também defendeu a democracia eleitoral, dizendo ser ela um valor de todo o continente.

No Parlamento Europeu as reações de dividiram: os blocos conservadores e da social-democracia/socialistas apoiaram o presidente italiano. O bloco dos Verdes criticou-o, em nome do respeito à democracia eleitoral, embora manifestasse desacordo com o programa do M5 e da Lega. Na mídia mainstream ninguém se preocupou em ouvir o bloco de esquerda, como de costume, o que também evidencia características deste menu de democracia que aqui impera.

Na quinta (31), anunciou-se que o presidente italiano daria mais tempo à coligação para formar um governo. O seu recuo pode ser interpretado como uma reação diante de um impasse que se criou. No vácuo da "demissão" de Conte, ele teria de convocar novas eleições para o segundo semestre, no "outono", como se diz aqui, ou seja, a partir do final de setembro. Até lá, assumiria (como já houve antes) um governo dos sonhos dos tecno-burocratas de todos os quadrantes: o primeiro-ministro seria um ex-dirigente do FMI, Carlo Cottarelli, que nomearia um ministério "técnico" e não "político".

Porém esse governo teria de ser aprovado no Parlamento, onde, em conjunto, M5 e Lega têm maioria. Derrotado o novo governo, também antes de assumir, o Parlamento chamaria eleições antecipadas para julho. Luzes amarelas (vermelhas, jamais) se acenderam um Bruxelas, sede executiva da União Europeia, em Estrasburgo, que divide com a capital belga ser a sede do Parlamento Europeu, e em Frankfurt-am-Main, sede do Banco Central Europeu e do Banco Central Alemão, seu vizinho: uma eleição em julho poderia aumentar o poder de fogo da coligação M5 + Lega, ao invés de diminui-lo.

Resultado geral: o presidente italiano recuou, a coligação M5/Lega fez concessões e arranjos, e vai assim o governo.

Está dado o labiríntico imbróglio da democracia europeia, que vai perdendo cada vez mais seu emblema "social". A pergunta que se impõe é: o que pesa mais nesta tentativa de "dobrar" ou "domar" o eleitorado italiano: a xenofobia prometida pelo programa do novo governo ou as heresias diante do neoliberalismo, como a promessa de uma renda mínima, além do aumento nas aposentadorias?

Há outras perguntas que se impõem. Houve casos semelhantes de "intervenções" em países do continente a partir das lideranças da União. Em 2011, Berlusconi foi praticamente "apeado" do poder por pressão da então dupla Merkel-Sarkozy. Mas Berlusconi tinha contra si seu comportamento, digamos, pouco ortodoxo em matéria de decoro do poder. Na mídia mainstream ninguém chorou.

Em 2015, o governo do Syriza, liderado  por Alexis Tsipras, na Grécia, teve seu programa de esquerda simplesmente pulverizado pela UE, sob o comando, desta vez, da dupla Merkel-Wolfgang Schäuble, este o implacável ministro das Finanças alemão. Mas a Grécia representa um percentual muito pequeno do PIB da União e do Euro. Não houve muitas lágrimas pela artilharia anti-Syriza na mídia mainstream da Europa então.

Já a Itália é a quarta economia da Europa, a terceira da Zona do Euro e também a terceira da União no caso de se concretizar a defecção do Reino Unido, que até o momento parece inevitável, apesar dos esforços de Georges Soros no sentido de provocar um novo plebiscito a respeito.

Aliás, isto de plebiscito chama a atenção. Quando da constituição da União, planejada sob hegemonia de uma social-democracia autêntica e realizada sob uma hegemonia conservadora que engoliu os partidos social-democratas, realizaram-se plebiscitos em países recalcitrantes (como a França) até que o resultado fosse favorável à UE. Depois, adeus plebiscitos.

O exemplo mais uma vez vem da Grécia: Georgyos Papandreou, primeiro-ministro socialista do país, foi igualmente defenestrado em 2011 devido à pressão das lideranças da UE, por ter ameaçado fazer um plebiscito sobre o plano de "recuperação" econômica do país imposto pela União, pelo Banco Central Europeu e pelo FMI. Foi substituído pelo também tecno-burocrata Lucas Demetrius Papademos, ligado ao FMI, prova de que há plebiscitos que interessam e outros que não, e de que sempre haverá uma solução "técnica" à disposição da receita neoliberal.

Por outro lado, tem sido evidente a complacência, apesar das declarações tonitruantes, das lideranças da UE com governos de extrema-direita, como o de Viktor Orban da Hungria, ou o de Andrzej Duda e Mateusz Morawiecki na Polônia, além da política de avestruz diante dos desmandos de Mariano Rajoy e sua Guardia Civil na Catalunha.

Fica a pergunta sobre o cataclisma que aconteceria caso governos de esquerda assumissem o poder na Alemanha ou na França.

Conclusão: no mundo economicamente hegemônico do neoliberalismo, embora este não mais desfrute da hegemonia das ideias que teve no final do século passado, a democracia não é um valor "universal", como ele mesmo gostava de apregoar, nem mesmo permanente.

Esta nova forma de "hegemonia", diferente da do conceito clássico gramsciano – pois se impõe através da sua impulsão apenas dentro de uma série de agentes selecionados (como os golpistas brasileiros de um lado, ou dos tecno-burocratas europeus, ou ainda da "comunidade econômico-militar-midiática" dos Estados Unidos) –, se afirma a partir de sua dominação dos currículos em escolas de Economia, onde os jovens estudantes aprendem o beabá das coisas, assim como Tarzan aprendeu inglês nas cartilhas abandonadas na cabana de seu pai, para se sentir superior aos macacos que cuidaram dele depois do passamento daquele e de sua mãe, e tornar-se o seu "rei". Exemplo: todo mundo é contra, mas tomem lá um aumento no preço da gasolina, seus babacas. Parente caiu, mas quem vai assumir?

Na Espanha renasce uma esperança: Rajoy cai, Sanchez, do Psoe sobe. Conseguirá fechar um governo com o Podemos?

Em resumo, em matéria de pensamento conservador, tem-se saudades de Winston Churchill, para quem a democracia era a pior forma de governo, "com exceção de todas as demais".

sem direção

O movimento dos caminhoneiros, visto de longe

No novo estilo de golpe, os civis e seu tumulto assumem a vanguarda e o resultado é a presente confusão. Tudo parece perdido no meio do tiroteio entre várias narrativas discordantes, sem se saber pra onde o barco vai
por Flavio Aguiar publicado 25/05/2018 11h39, última modificação 25/05/2018 12h27
Rodrigues Pozzebom/ABr
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Movimento de caminhoneiros levanta reivindicações pouco claras e provoca discussões e conclusões de todos os lados

Nem sempre o que é, parece. Mas o que parece, seguramente é. Esta ditado brasileiro se aplica ao atual movimento dos caminhoneiros no Brasil. Parece originário de um sentimento de direitos. E é. Um dos líderes do movimento pedia o voto impresso ou “a intervenção militar”. O conteúdo de direita não estaria propriamente na reivindicação, mas na radicalidade da resposta caso ela seja negada.

Aqui em Berlim volta e meia cruzo com coxinhas viajantes ou não, ou ainda através de narrativas de [email protected] É sempre assim: a radicalidade das respostas e reações resulta em palavrões, agressões (felizmente até agora apenas verbais, com a execução de um caso), faces convulsionadas… Naquela exceção, o coxinha exaltado agrediu uma militante que levava nas costas uma foto do Lula com os fizeres “Lula Livre” e ainda empurrava uma cadeira de rodas com sua mãe. Deu-lhe um tapa nas costas e pôs-se a vociferar impropérios.

Nós estamos no campo derrotado; mas parece que são eles os “esmagados”. Quem sabe, por sua “derrota interior”? Muitos sabem a besteira que fizeram, mas não podem reconhecer.

No metrô, outro dia, uma coxinha se exaltou e gritou que “era contra o povo”. 

Conversando sobre o caso dos caminhoneiros com uma amiga de visita a Berlim, outra faceta deste complicado jogo veio à tona. Ela comentou: “esta greve é um plano deles para fechar a eleição em outubro”. Retruquei: “Eles? Há eles, eles, eles e mais eles, ad infinitum”. Não há uma narrativa unitária do golpe.

Este é um problema para eles. No golpe tradicional, de antigamente, os civis insuflavam os militares ate que estes se dispusessem a por os tanques nas ruas. Saindo a corporação fardada na frente, atrás iam os civis - muitas vezes “liberais” - se acotovelando para disputar as benesses do golpe.

Neste novo estilo de golpe, articulado a partir do favorecimento de Bush filho diante de Al Gore, em 2000, na Suprema Corte dos EUA, não há esta “disciplina”. Os civis e seu tumulto assumem a vanguarda do golpe. E o resultado é a presente confusão. Há uma composição de setores que quer ditar a narrativa principal do golpe: parte do alto escalão do Judiciário, da PF, da mídia corporativa e de alguns generais de pijama. Mas não estamos mais em 1964, quando os jornalões podiam, por exemplo, ocultar da população que a sua maioria apoiava as reformas de base de Goulart.

Não pensem que sou saudoso em relação aos golpes militares.

Mas o atual me parce perdido no meio do tiroteio entre várias narrativas discordantes, cada uma atirando prum  lado, sem saber pra onde o barco vai...

Literatura

Marx, o homem, o mito, o revolucionário, foi também poeta, romântico, apaixonado

Flávio Aguiar acaba de verter para o português versos escritos por Karl Marx em sua juventude
por Redação publicado 12/05/2018 11h53, última modificação 12/05/2018 12h13
O Jovem Karl Marx/Cena
O Jovem Karl Marx/Cena

Cena de 'O Jovem Karl Marx' (2017), longa biográfico que traz um pouco da personalidade do pensador

“Os poemas de Marx são de um lirismo exaltado, idealista, mas eles têm, a gente vê neles um desejo de liberdade erótica muito grande”, diz o estudioso de literatura Flávio Aguiar em entrevista ao canal digital Tutaméia neste cinco de maio de 2018, quando se completam duzentos anos do nascimento do autor de O Capital.

Com uma vida inteira dedicada ao estudo da teoria literária, o professor, jornalista, documentarista e multipremiado escritor gaúcho acaba de verter para o português versos escritos por Marx em sua juventude –os textos saem na revista Margem Esquerda, da editora Boitempo, e no Tutaméia, com a devida autorização dos envolvidos.

Descobriu o que considera “um novo Marx”, que esteve ao longo dos anos escondido, relegado ao segundo plano. A obra poética e literária de Marx, que escreveu também pelo menos um romance e uma peça de teatro, mostram, no dizer de Aguiar, “um lado muito pouco conhecido da obra dele, tanto que as poesias só se tornaram conhecidas a partir da década de 1930, no século 20. Ficaram numa espécie de limbo”.

A maior parte da produção poética de Marx acontece na sua juventude, quando tem em torno de vinte anos. E dão pistas para compreender sua obra futura, na opinião de Flávio Aguiar: “Penso que o Marx literato pode nos ajudar a entender o Marx analista, o Marx político, o Marx revolucionário”.

Mesmo nos textos teóricos, diz Flávio Aguiar, Marx “nunca abandonou a inspiração literária. Era um estilista, escrevia com ardor, com estilo. Ele é muito veemente no que ele escreve”.

Leia também Enquanto houver capitalismo, Marx continuará atual, diz professora

E continua: “Penso que Marx é um escritor onde se nota uma forte ressonância bíblica. O Marx analista, o Marx escritor do período adulto, o jornalista, o polemista, o autor de livros, ele carrega consigo cinco grandes fontes de inspiração. Três delas, na minha visão, são bíblicas, e duas delas vêm da tradição clássica, dentro do clima romântico”.

Com a ajuda do professor gaúcho, que hoje mora em Berlim –de onde nos concedeu entrevista via internet–, mergulhemos nos caminhos da poesia de Marx.

Fizemos isso devidamente paramentados, Flávio com a camiseta de seu time do coração, o Internacional de Porto Alegre, e Rodolfo vestindo o manto tricolor do Grêmio. Criou-se, na entrevista, um GRENAL marxista, sui-generis, em que todos atacam na mesma direção.

Leia e assista à reportagem completa aqui no Tutaméia.

 

“O CANTO REBELDE DA NOIVA”

Tomaram-me o céu clemente

E assim me vi assaltada,

Minh’alma, que em Deus fora crente,

Descobriu-se no Inferno enterrada.

 

E eu devo em grilhões me quedar

Atada ao homem malsão.

Um bom Deus não virá me salvar

Do mergulho na escravidão.

(…)

Orgulhosos, os montes reclinam

E o céu com seu ouro se ri;

Pois de olhar os homens declinam

Em seu brilho vaidoso de si.

 

O tempo segue brotando suas flores

Pois nada de mais se passou;

A morte engolfou com ardores

O coração que p’ra sempre calou.

fascismo

A direita brasileira e o complexo de 'onimpotência'

Tiros contra acampamento de Lula mostra sinais de impotência dentro de um debate perdido
por Flavio Aguiar publicado 02/05/2018 09h53, última modificação 02/05/2018 12h24
VITOR TEIXEIRA
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Cidadão, típico coxinha, perdeu a noção de limite

No 1º de maio em Berlim houve manifestação pró-Lula-livre. Dentro da tradicional manifestação da central alemã, Deutschen Gewerkschaftsbundes, a DGB. Foi um sucesso. Muita curiosidade dentro do tema. Pessoas recolhendo a carta, por nós distribuída, da seção do IG Metall (Sindicato dos Metalúrgicos), de Wolfsburg, sede da Volkswagen, em solidariedade ao nosso ex-presidente. Barulho, gritaria: "Lula livre! Fora Temer! Marielle - presente! Anderson - presente!" e outras mais.

Uma amiga minha estava voltando para casa, levando a mãe, que também comparecera, uma senhora idosa, em cadeira de rodas, quando um incidente aconteceu.

Elas estavam na Potsdammer Platz, esperando o sinal para atravessar a rua. De repente minha amiga sentiu uma pancada nas costas, ali onde ela portava um cartaz com a foto de Lula e a inscrição "Lula livre". Ela pensou que fora um esbarrão. Voltou-se e deparou com um cidadão irado, com uma mulher ao lado, perguntando se ela sabia de quem se tratava. Pensando que ela fosse alemã, ou estrangeira de outra nacionalidade, ele falou em inglês.

Ela, que tem cidadania alemã, se identificou como brasileira, pois nasceu em nossa pátria, e também tem o passaporte. A fúria do cidadão cresceu. Disse um monte de impropérios para ela, que respondeu calmamente que ele podia colocar seus argumentos, e ela poria os dela. O cidadão ficou mais furioso ainda, e disse que por causa do Lula ele "deixara o Brasil". Ela repetiu a generosa oferta do diálogo, mas que caiu em ouvidos moucos. Nesta altura, a senhora dele começou a puxa-lo para trás, até que ambos se foram, e minha amiga, mais sua mãe cadeirante, puderam continuar seu caminho para casa.

O incidente me despertou uma série de reflexões, que já compartilhei com minha amiga e agora compartilho com @s [email protected]:

O cidadão, típico coxinha, perdeu a noção de limite. Você pode odiar o Lula, mas não agredir fisicamente alguém por causa disto.

Mais: ele agrediu, pelas costas, com um tapa, uma mulher, que levava uma senhora idosa cadeirante. Covardia. Misoginia. Direita brasileira…

Ele confundiu minha amiga com uma cidadã alemã. Agrediu-a assim mesmo.

Outra perda da noção de limite. Fosse minha amiga esquentada, ela teria chamado a polícia, e ele seria detido: agredindo mulher, com tapa, no meio da rua, ela começando a atravessa-la, e levando uma senhora idosa cadeirante. Vários agravos. Um processo complicado, no mínimo.

O episódio é muito significativo. O cidadão se acha sem argumentos, é óbvio. Sinal de impotência. Só lhe resta o argumento do tapa. Esteja onde estiver. Contra quem for. Sinal de onipotência. Resultado: o complexo de "onimpotência" que atualmente assola a direita brasileira. Este é um conceito de minha lavra, com pedido de perdão a Freud, Jung, Reich, Karen Horney, Lacan etc.

Querem outro sinal?

Assisti o vt do cara assassino disparando contra o acampamento pró-Lula em Curitiba. O que vejo? O cara se aproxima do acampamento. A seguir ele aparece. Recuando. Disparando, E dispara a correr, fugindo. A imagem é clara: ele dispara, mas foge, "onimpotência". Único argumento: a bala.

Não pensem que estou dizendo que esta canalha (incluindo o coxinha de Berlim) é fraca. Pelo contrário. O sentimento de "onimpotência" a torna mais perigosa. Felizmente a única "arma"  que o irado brasileiro em Berlim levava era sua esposa, que acabou entrando pra turma do deixa disso e empurrando-o pra longe. Imagine se ele tivesse uma 9mm.

A síndrome dos golpistas, todos eles, do mais reles deputado da vergonha de abril de 2016, até o presidente (?) escorraçado das ruas de S. Paulo ao visitar os escombros do incêndio no Largo Paissandú, passando pelos procuradores e juízes de Curitiba, da PGR, do Congresso Nacional, da PF, é que eles não têm mais volta. Se a roda da fortuna gira, e eles se veem desapegados do poder, estão perdidos. Ou seja: vão se tornar mais agressivos, mais destrambelhados, mais sem sem noção de limites.

Como o cidadão que agride duas senhoras, uma delas cadeirante, num sinal de tráfego de Berlim.

Bom, ele falou uma única coisa sensata. Seja lá por que motivo for, saiu do Brasil. Espero que definitivamente.

pedra no sapato

Vamos aprender com o Velho, antes de decidir sobre as eleições

Em 1945, Getúlio Vargas, após o golpe da direita, evitou apoiar algum candidato até poucos dias antes da eleição. Lula não precisa ter pressa para escolher seu "sucessor" na eleição de outubro
por Flávio Aguiar publicado 26/04/2018 14h31, última modificação 26/04/2018 19h14
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE S. PAULO
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General Eurico Dutra (à direita), apoiado pelo presidente Getúlio Vargas, venceu as eleições de 1945

"Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra", Carlos Drummond de Andrade.

Quem é o Velho? Vargas, ora. Os tempos eram outros: 1945. Getúlio tinha 63 anos e já era "o Velho". Mais velho ainda seria em 1950, reconduzido ao poder central, aos 68 anos.

Em 1945, ele tinha sido apeado do poder. Por um golpe de direita, diga-se de passagem, que engambelou algumas das esquerdas de então com promessas de redemocratização quando, na verdade, já tratava de alinhar o Brasil aos lados Estados Unidos na nascente Guerra Fria, pós-Segunda Guerra.

Vargas seguiu para um "exílio interno", em suas estâncias de São Borja. Naquele final de 45, seguiu-o um cortejo de políticos de todas as facções do PSD e do PTB, recém criados, além de outros, com perguntas sobre o que fazer, todos em viagens de aviões, fretados ou não.

Mas também o seguiu o olhar atento das mídias jornalísticas, então centradas no Rio de Janeiro e um pouco em São Paulo, com perguntas e respostas sobre o que "desfazer". Traduzindo: tudo o que Vargas dizia ou desdizia, era imediatamente comentado, desdito, desmentido, triturado, sob o olhar daquela mídia mainstream que não era muito diferente da de hoje.

Falava-se no ditador Vargas; mas o Vargas detestado era o das leis trabalhistas, o ídolo dos trabalhadores, o rei da CLT. Havia campanhas nesta mídia para que Vargas fosse exilado, fosse expulso do país, para que fosse silenciado. Porque ele continuava sendo a principal referência política no Brasil.

No pós-Estado Novo, marcaram-se as eleições presidenciais e parlamentares para o começo de dezembro: para o dia 2 de dezembro, para ser mais preciso, pouco mais de um mês depois do golpe militar que depusera Getúlio, em 29 de outubro. Embora as eleições parlamentares e para os governos estaduais só se completassem em janeiro do ano seguinte.

Para a Presidência, definiram-se quatro candidatos:

Pela UDN, que então ainda congregava alguns deslumbrados das esquerdas, o flamboyant Brigadeiro Eduardo Gomes, da Aeronáutica, bonitão, solteirão, atraente. Deu origem a um dos slogans mais divertidos da política brasileira: "Vote no Brigadeiro, que é bonito e é solteiro". As "brigadeiras" fabricavam o famoso docinho de chocolate, que ficou com o seu nome (exceto no Rio Grande do Sul, onde se chama "negrinho"), e o vendiam para coletar fundos para a campanha. Era disparado o favorito e o preferido da mídia.

Pelo PSD, o obtuso general Eurico Gaspar Dutra, que contribuíra para a queda de Vargas, mas que tergiversava, prometendo, entre outras coisas, manter as conquistas do trabalhismo, coisa que na verdade não fez depois de eleito: durante seu governo, a legislação não foi desfeita, é verdade, mas não houve um único reajuste do salário mínimo, coisa que levou a uma série de revoltas e quebra-quebras em várias cidades do Brasil, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O PCB lançou o engenheiro Yedo Fiúza que acabou em terceiro, com 500 mil e tantos votos. E houve também o obscuro Rubem Telles, que ganhou apenas em Rio Branco (hoje Roraima) e terminou com pouco mais de 10 mil votos.

A pergunta que não queria calar era: o que fará Getúlio? Apoiará um nome do PTB (que acabou não tendo candidato)? Dutra, visto por muitos petebistas como "o traidor"? Pregará o voto nulo? Nada fará nem dirá?

E a Esfinge de São Borja permanecia em silêncio. Raposa velha estava ali.

Mas a cada hipótese que era lançada em seu nome, a mídia carioca e paulista caía em cima, revirando-a, triturando-a, denunciando-a, na tentativa de neutraliza-la e espatifar a imagem do ex-presidente.

Getúlio só quebrou o silêncio a poucos dias da eleição, apoiando Dutra num manifesto escrito de divulgação nacional. E decidiu-a. A maré virou, o General teve três milhões e duzentos mil votos e o Brigadeiro, pouco mais de dois milhões.

Um dado interessante: antecipando o comportamento da Globo na eleição de Brizola, em 1982, para o governo do estado do Rio de Janeiro, a mídia carioca, logo depois da votação de 1945, tentou, durante dias, manter a imagem (fake news, diríamos hoje) que o Brigadeiro estava ganhando, embora na contagem oficial ele já estivesse perdendo.

Claro está que as condições eleitorais de 1945 e as de hoje são muito diferentes. Basta dizer que Getúlio foi candidato ao Senado e como deputado federal tanto pelo PSD quanto pelo PTB e em diferentes estados.

Mas há uma lição em comum. Hoje, neste Brasil de tantas incertezas e da certeza golpista, muitos querem que o presidente Lula, hoje "exilado" não em alguma estância fronteiriça, nem mesmo no triplex que não é nem nunca foi seu, mas num cárcere em condições ignominiosas, não podendo receber visitas nem de seu médico, defina logo o seu "sucessor" na eleição de outubro, que nem sabemos se ocorrerá.

Ora, assim como em 1945, a mídia mainstream e sorrateira permanece à espera do menor de seus movimentos, para cair-lhe em cima na tentativa de destroça-lo. Se Lula fizesse tal definição agora, por exemplo, além de outras consequências políticas, esta mídia, a Lava Jato, os procuradores do Principado de Curitiba, a Polícia Federal etc. cairiam em cima dele durante meses para destroçar a sua imagem, a sua vida etc.

Portanto, quando mais não seja por outras razões, cai bem que Lula, assim como a Esfinge de São Borja, permaneça quieto a este respeito por enquanto, e  continue sendo a pulga na camisola, a pedra no sapato, a batata quente nas mãos, a pedra no meio do caminho de seus carrascos.

 

Carta aberta ao presidente Lula

Esta cela a que o condenaram injustamente não é uma solitária, é uma “solidária”, tamanha a solidariedade mundial com você. Valeu, Presidente. A liberdade o aguarda, e o esquecimento aguarda seus algozes
por Flávio Aguiar publicado 22/04/2018 14h36, última modificação 23/04/2018 08h49
Divulgação/SMABC
Lula greve 1980 ditadura

'Nossa relação vem de 1980, ano de uma das greves que marcaram o início do fim da ditadura inaugurada em 1964, quando você era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos'

Caro Presidente Lula,

Em primeiro lugar, permita-me tratá-lo assim. Isto não significa desrespeito à companheira Dilma, última presidenta legítima do Brasil. É um vezo meu. Por exemplo: nunca deixei de chamar o companheiro Leonel Brizola de “governador”. E não era porque ele fora governador do Rio de Janeiro. Era porque ele fora e é o imortal Governador da Legalidade, de 1961, uma das poucas ocasiões em que um golpe de estado posto em marcha teve de recuar e perdeu, embora a saída tenha sido, naquela ocasião, o empate técnico do Parlamentarismo.

A vontade de lhe dirigir esta carta aberta me veio de uma pluralidade de motivos. O primeiro foi a desfaçatez do déspota de plantão, que foi à TV comparar-se com José Joaquim da Silva Xavier. Ora, além de desrespeito ao nosso primeiro mártir da Independência, isto é um desrespeito a você, porque todo mundo sabe que você é o nosso Tiradentes do século XXI.

Outro motivo foi a decisão desta juíza de primeira instância de Curitiba, proibindo a visita de Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz, e de Leonardo Boff, um dos mais importantes teólogos do Cristianismo de todos os tempos. São pessoas – todos vocês três – que têm a idade de ser seu pai, ou avô. Tudo o que tenho a dizer sobre ela é que um dia, se Deus e o Diabo permitirem, ela há de envelhecer. E aí, quem sabe, se dará conta da atrocidade que praticou. Bem, se não se der, seria porque se empedrou por dentro, condenada a um destino semelhante ao do gigante Adamastor, de Camões, o Mostrengo, de Fernando Pessoa.

Outro motivo foi a impropriedade, que li, de idiotas defensores dos privilégios (que confundem com direitos) dos latifundiários do extremo sul do país, de meu estado natal, o Rio Grande do Sul, invocando a legenda farroupilha para agredir a você e os participantes da sua caravana pela cidadania. Tenho a certeza de que muitos dos legendários republicanos de 1835 -1845, se vivos fossem, estariam solidários com você nesta cela de Curitiba. Para não cometer injustiças pelo esquecimento, vou me referir a três deles. 

O primeiro é o menos conhecido: o Coronel Teixeira Nunes, que armou, treinou e mais que comandou, liderou as Brigadas dos Corpos de Cavalaria dos Lanceiros Negros, ex-escravos que combatiam com os Farrapos e eram o terror dos Imperiais. Eles hoje dão nome a um dos principais movimentos de Sem-Teto na capital dos gaúchos, Porto Alegre. Odiado, Teixeira Nunes foi implacavelmente perseguido e degolado pelos Imperiais num momento em que já se negociava a paz que, de fato, foi assinada algumas semanas depois de sua morte, em Ponche Verde.

Os outros dois quase dispensam apresentação: são Anita e Giuseppe Garibaldi, a “heroína e o herói de dois mundos”, combatentes libertários, testemunhas vivas até hoje da liberdade das paixões e da paixão pela liberdade. Não tenho a menor dúvida de que, vivos fossem, estariam tentando também visitá-lo, com Pérez Esquivel e Leonardo Boff.

Nossa relação, caro Presidente, vem de longe. Tenho guardado um pequeno documento que a atesta. Trata-se de um papelzinho, quase um 3 x 4, que você assinou num longínquo dia de 1980, quando era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, naquele tempo, dito de São Bernardo, hoje do ABC. Foi o ano de uma das greves que marcaram o começo do fim da ditadura inaugurada em 1964. Eu morava então no Canadá, e organizara uma coleta de fundos, que rendeu cerca de 200 dólares canadenses, naquela época uma pequena fortuna, que lhe foram entregues pelo presidente da Associação dos Docentes da USP, a Adusp, no campus do Butantã, auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, idealizada pelo imortal Artigas. Eu pedi ao presidente da Adusp que solicitasse um recibo, para apresentar aos contribuintes canadenses. E você o escreveu e assinou: “Luís Inácio da Silva”. Você ainda não era o Lula, e era chamado pelos companheiros sindicalistas mais próximos de “Baiano”.

Bom, tivemos um mentor comum: o padre Valter Seidl, que foi meu professor no Colégio Anchieta, de Porto Alegre, e depois foi pároco da Igreja do Carmo, em Santo André, a cuja paróquia à qual o Sindicato, de que você era o presidente, pertencia. Você dizia que, se fosse eleito Presidente, o levaria para ser o capelão do Palácio do Planalto. Infelizmente ele nos deixou lá por 1996, se não me engano.

Agora estamos nesta situação: você detido nos 15 metros quadrados de uma cela em Curitiba e eu a um oceano e muitos quilômetros depois, em outro hemisfério, mas com meu coração cativo aí com o seu. Assim como – sei – há milhões de corações detidos com você, nesta cela a que o condenaram injustamente. Ela não é uma solitária, é uma “solidária”, tamanha é a solidariedade mundial com você. Imagino que os seus algozes – os Lava Jato, os Power Points, os juízes do Supremo que rasgam a Constituição, os coveiros da democracia na mídia – além da obtusidade do seu pensamento, devem sofrer com o verme da inveja que rói as suas entranhas.

Como disse o Pérez Esquivel, você liderou um movimento ascensional de dezenas de milhões de pessoas e famílias que saíram da miséria e da pobreza em direção a uma vida melhor. Além disto mostrou ao mundo e a nós mesmos o potencial de um país como o Brasil enquanto líder de uma promoção da paz no mundo. Você fez por merecer o prêmio a que agora é candidato. Não sabemos se você vai recebê-lo. O colegiado que o concede é uma incógnita. Além disto o Brasil oficial é especialista em sabotar seus candidatos ao Nobel. Isto aconteceu com Carlos Chagas, na Medicina, sabotado pela inveja de colegas que lhe negavam o mérito da caracterização da doença que hoje herdou o seu nome. Também aconteceu com D. Helder Câmara, quanto ao Nobel da Paz, em 1971. O governo ditatorial de então fez de tudo para sabotar sua candidatura. O Nobel daquele ano foi para Willy Brandt. Não que este não o merecesse. Mas consta, extra-oficialmente, que o resultado na Comissão que concede o prêmio foi 3 x 2 entre ele e D. Helder. Não duvido que o atual governo Silvério dos Reis fizesse a mesma sabotagem em relação a você.

Enfim, caro Presidente, para encerrar, lhe envio esta criação alusiva ao 21 de abril que eu e mais dois artistas plásticos elaboramos.

Valeu, Presidente. A Liberdade o aguarda, assim como o esquecimento aguarda seus algozes.

Lula livre bandeira