Home Política Se mudar embaixada para Jerusalém, Bolsonaro pode causar um distúrbio global
Armagedon diplomático

Se mudar embaixada para Jerusalém, Bolsonaro pode causar um distúrbio global

Presidente do Instituto de Cultura Árabe, Mohamed Habib alerta que as consequências do alinhamento Bolsonaro-Trump em relação ao tema vão muito além de uma simples mudança de endereço
Publicado por Redação RBA
16:40
Compartilhar:   
Berthold Werner/Wikipedia Commons
Embaixada do Brasil em Jerusalém causará distúrbio global

Instalar embaixada na “Cidade Santa” para árabes, judeus e cristãos é reconhecê-la politicamente como capital – e território – de Israel

São Paulo – A polêmica mudança da embaixada brasileira em Israel, passando da capital Tel Aviv para Jerusalém, foi o tema do encontro do presidente em exercício, general Hamilton Mourão (PRTB), com o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahin Alzeben e comitiva, na segunda-feira (28). À imprensa, Mourão afirmou que a resposta dada foi que o “Estado brasileiro não está, por enquanto, pensando em nenhuma mudança de embaixada”. Em sua visita em dezembro, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou ter ouvido do presidente Jair Bolsonaro (PSL) que “a transferência não é uma questão de se, mas de quando”. 

Em artigo publicado esta semana no site no Instituto da Cultura Árabe (Icarabe), o professor aposentado da Unicamp e presidente da entidade, Mohamed Habib faz um alerta: “mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém e o significado da iniciativa do presidente Bolsonaro é no mínimo perigoso e pode levar a um distúrbio global, num mundo que já está no limiar do caos”.

Egípcio naturalizado brasileiro, Habib foi diretor eleito do Instituto de Biologia da Unicamp por duas vezes (de 1990 a 1994 e 2002 a 2005) e coordenador de Relações Internacionais da mesma universidade de 1998 a 2002, onde foi também pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários. 

Ele chama atenção para a estratégia sionista por meio da atuação do primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Ao obter apoio da bancada parlamentar da extrema direita cristã, nos Estados Unidos, segundo Habib, o chanceler “mantêm doações financeiras anuais, além de alcançar outros objetivos, como por exemplo, a transferência da embaixada norte-americana de Tel Aviv para Jerusalém. A mesma tática está sendo aplicada no Brasil, através da bancada neopentecostal, a qual mantém relação simbiótica com Israel. Nos dois casos, o interesse político é o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel”.

Conforme explica, a extrema direita dos Estados Unidos e parte dos segmentos evangélicos brasileiros compartilham a mesma concepção religiosa. Ambos os grupos religiosos acreditam em profecias apocalípticas, nas quais Jerusalém deve ser habitada só por judeus, como pré-requisito para o retorno de Jesus para restabelecer o cristianismo e iniciar o Armagedom, que a Bíblia descreve como a batalha final de Deus contra a sociedade humana iníqua, em que numerosos exércitos de todas as nações da Terra encontrar-se-ão numa condição ou situação, em oposição a Deus e seu Reino por Jesus Cristo no simbólico Monte Megido.

Já Israel não acredita na volta de Jesus. “Mas a expulsão dos não judeus de Jerusalém é o sonho dos seus governantes, para transformar a cidade em sua capital, passo importante para a conquista de todo o território palestino. Sem falar do projeto ‘O Grande Israel’, o qual se estenderia do rio Nilo, no Egito, ao rio Eufrates, no Iraque. Assim fica fácil entender a base de sustentação da parceria de uma visão religiosa, de um lado, e de um interesse geopolítico, de outro”, explica Habib.

“Portanto, o significado da iniciativa do presidente Bolsonaro é, no mínimo, perigoso e pode levar a um distúrbio global, num mundo que já está no limiar do caos.”

Jerusalém é a cidade mais sagrada para o mundo monoteísta, principalmente para o judaísmo, cristianismo e islamismo. Em 1948, Israel ocupou, de maneira ilegal, o lado oeste desta cidade e, em 1967, fez o mesmo com o restante da cidade. Um acordo foi então firmado em termos de administração entre Israel e os palestinos, no qual Israel cuidaria da parte oeste e os palestinos, da parte oriental, enquanto as Nações Unidas (ONU) tentariam colocar em prática a sua resolução 181 de 1948, segundo a qual a cidade é de interesse de todos os povos monoteístas e por isso tem de ser administrada por um conselho internacional sob a sua coordenação.

Na avaliação de Habib, nem os países centrais e nem o Estado de Israel estiveram interessados em resolver o conflito entre os dois povos. Até porque a permanência do conflito é interessante do ponto de vista econômico. “Pelo menos durante as primeiras cinco décadas, as doações e ajudas financeiras eram vitais para o desenvolvimento daquele país recém-nascido. Convencer o mundo de que Israel corria o risco de ser atacado pelos países árabes vizinhos é um grande pretexto para manter a ajuda financeira e as doações”.

Entre os possíveis impactos negativos de uma possível mudança da embaixada por Bolsonaro, ele destaca o enfraquecimento das relações do Brasil com o mundo árabe, marcadas historicamente pela harmonia e respeito entre os dois lados – o que confirma e consolida a existência da base que sustenta a diversidade étnica nacional brasileira, acredita. “A grande diversidade racial, religiosa e cultural, representada pelos povos que compõem este país continental chamado Brasil é uma das suas maiores riquezas. Os árabes, os verdadeiros semitas, sejam árabes cristãos, muçulmanos, e mesmo árabes judeus, fazem parte de toda a história brasileira.”

No campo diplomático, a atitude do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de transferir a embaixada para Jerusalém, retira de seu país o status de mediador no conflito entre palestinos e israelenses. E o Brasil, que passava a ser visto como a melhor opção para ocupar este espaço de mediação da paz, tende a seguir o mesmo caminho de Trump.

Além disso, o Brasil perde o apoio de todos os países islâmicos, árabes ou não, em assuntos de seu interesse brasileiro, como em votações na ONU, na Organização Mundial do Comércio (OMC) e em outros organismos internacionais. “Tornar o Brasil um apêndice da ideologia dos Estados Unidos e de Israel, além de não ganharmos absolutamente nada, perderemos os aliados dos países em desenvolvimento, em que a maioria é islâmica.”

No âmbito econômico, Habib lembra que o países muçulmanos representam o maior mercado brasileiro para carne bovina, frango, açúcar e milho – que será afetado. Conforme dados do Ministério da Indústria e Comércio Exterior, em 2018 as atividades comerciais entre o Brasil e os países islâmicos alcançaram o valor de US$ 22,9 bilhões. A balança é favorável ao Brasil em US$ 8,8 bilhões. Os países islâmicos recebem cerca de 70% de todas as exportações brasileiras de açúcar, 46% do milho em grãos, 37% da carne de frango e 27% da carne bovina.

O presidente do Icarabe destaca também que, até 1991, o Brasil exportava em grande volume serviços e tecnologias para Oriente Médio na área de construção civil, por meio da Mendes Junior e outras, e máquinas e equipamentos pesados. “Com a invasão norte-americana ao Iraque e a queda do regime líbio, causando a deterioração econômica de ambos os países, o Brasil perdeu este mercado. Um dos grandes prejuízos foi, inclusive, a falência de grandes indústrias bélicas brasileiras, como a Engesa, em 1993. Fundada em 1958, empregava mais de cinco mil profissionais e vendia seus produtos para mais de 18 países. Perdemos um grande mercado, levamos prejuízos enormes, fechamos indústrias pesadas e não recebemos absolutamente nada por sermos aliados dos Estados Unidos“.

“Aprender com a história e com as experiências do passado, na busca de caminhos mais seguros para o crescimento do nosso país, é obrigação de todos nós. Não podemos mais errar. Erguer um país é um processo árduo e lento; destruí-lo é fácil e rápido. Assim, cautela e precaução são fundamentais na gestão de qualquer país e em sua interação com os demais.”