Causa e efeito?

‘Tô nem aí’: declaração de Tarcísio estimulou mais mortes pela PM na Baixada Santista, mostra levantamento

Com 56 mortos, Operação Escudo tornou-se a mais letal da história paulista desde o Massacre do Carandiru, em 1992. E passou a ser comparada com a ação da Polícia Federal sob Lula, que recapturou fugitivos de prisão de segurança máxima sem matar ninguém

Governo de São Paulo/Divulgação
Governo de São Paulo/Divulgação
A ação da PM de Tarcísio e Derrite, porém, vem sendo amplamente contrastada com operação da PF que não disparou um tiro para recapturar fugitivos do presídio de segurança máxima de Mossoró (RN)

São Paulo – A declaração do governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de estar “nem aí” para denúncias de abusos e violações cometidos por policiais militares na Operação Escudo, na Baixada Santista, foi seguida pelo aumento do números de mortes. É o que mostra levantamento divulgado nesta sexta-feira (5) pelo jornal Folha de S.Paulo. Conforme a cronologia da ação, antes da declaração, a polícia não fazia vítimas havia 10 dias. Mas, logo após a fala, as mortes recomeçaram.

Em entrevista em 8 de março, Tarcísio minimizou todas as denúncias, mostrando apoio à operação policial. Na ocasião, o governador paulista havia sido questionado sobre uma denúncia contra sua gestão enviada ao Conselho de Direitos Humanos da ONU pela Comissão Arns e a organização Conectas. As entidades brasileiras apontaram ao mundo as “execuções sumárias, tortura e prisões forjadas” nas duas fases da Operação Escudo promovidas pelo bolsonarista.

“Sinceramente, nós temos muita tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU, pode ir na ‘Liga da Justiça’, no raio que o parta, que eu não tô nem aí (sic)”, rebateu Tarcísio. No dia seguinte, um policial militar ficou ferido com dois tiros no braço e, em seguida, a PM matou um homem durante as buscas pelo autor do disparo no Morro José Menino, em Santos. Desse dia até o fim de março, outras 18 pessoas foram assassinadas pela polícia. Entre elas, Edneia Fernandes Silva, de 31 anos.

Causa e efeito

Edneia conversava com uma amiga sentada em um banco da praça José Lamacchia, por volta das 18h de uma quarta, dia 27, quando foi baleada na cabeça pela PM. Levada a uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA), foi transferida para a Santa Casa, mas morreu no dia seguinte, deixando seis filhos.

Antes do “tô nem aí” de Tarcísio, o último caso com mortes na operação havia ocorrido em 27 de fevereiro. Cinco pessoas foram mortas pela polícia em São Vicente: dois adolescentes de 17 anos, um jovem de 18, um homem de 32 anos e outro de 24. O caso foi denunciado num relatório, feito pela Ouvidoria das Polícias e por 12 organizações da sociedade civil, após ouvirem testemunhas e familiares das vítimas que denunciaram as mortes como uma execução sumária.

“Apesar da alegação de troca de tiros, ‘nenhum policial restou lesionado’. O delegado do caso declarou que, em função da insegurança do território, não foi possível acionar a perícia”, diz o documento sobre as fragilidades das investigações na operação do governador. Uma reportagem do UOL também mostrou que as vítimas estavam desarmadas, ao contrário do que dizia a PM.

Operação mais letal da história

Em dois meses, a operação Escudo teve como saldo oficial 56 mortos pela polícia, tornando-se a ação mais violenta da história da PM paulista desde o massacre do Carandiru, em 1992. Oficialmente o governo e alguns veículos da imprensa comercial a chamam de Operação Verão. Como uma forma de desvincular da Operação Escudo, realizada entre julho e setembro de 2023, e que deixou 28 mortos em 40 dias. Mas a mais nova ação é apenas uma segunda fase da Escudo anterior, criada com a mesma motivação: uma reação à morte de um policial militar no litoral sul paulista.

A cronologia da Operação Verão mostra que a data com maior letalidade policial foi 3 de fevereiro. Exatamente o dia seguinte ao assassinato do soldado Cosmo, que integrava os quadros da Rota. Sete pessoas foram mortas pela PM em Santos, São Vicente e Guarujá. Os dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública (SSP), administrada pelo bolsonarista Guilherme Derrite, mostram que aquele foi o dia com maior número de mortes provocadas pela polícia na Baixada Santista em toda a série histórica, que teve início em janeiro de 2013.

Além disso, segundo a reportagem da Folha, apesar da contagem oficial de mortos, somando-se os casos noticiados pela imprensa, em março, há um número maior de vítimas. Foram ao menos 62 pessoas mortas em toda a região desde a morte do soldado Cosmo. Em nota ao jornal, o governo paulista alegou que “associar a fala do governador a novas mortes é estabelecer uma correlação irresponsável que tenta sustentar uma proposição de causa e efeito entre eventos distintos”.

Contrastes

A ação da PM de Tarcísio e Derrite, porém, vem sendo amplamente contrastada com uma operação paralela. Essa realizada pela Polícia Federal sob o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para recapturar dois fugitivos da penitenciária de segurança máxima de Mossoró (RN). Ontem (4), as forças de segurança conseguiram encontrar e prender os criminosos após 50 dias de perseguição. Primeira grande ação do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, o chefe da pasta creditou o triunfo à “inteligência” em uma operação que não disparou um tiro.

“Os agentes federais e os capturados saíram sem arranhão. Os primeiros continuarão a combater o crime. E os outros irão para a cadeia. A polícia também faz parte do pacto civilizatório, coisa que Tarcísio de Freitas e Guilherme Derrite, por exemplo, ainda não aprenderam. Preferem caçar votos na barbárie”, provocou o jornalista Reinaldo Azevedo em sua coluna no portalUOL. No mesmo veículo, a jornalista Thais Bilenky acrescentou que o governador é a “expressão mais visível do bolsonarismo na operação mais polêmica das polícias paulistas sob sua gestão”.

No ICL Notícias, o jornalista Chico Alves também destacou que ação do governo federal mostra a Tarcísio como prender criminosos sem “efeitos colaterais”. “Os policiais federais mostraram hoje ao governador de São Paulo que sua premissa é mentirosa. Basta ter competência técnica e um mínimo de cuidado para preservar vidas e o trabalho pode ser bem feito. Tarcísio e Derrite parecem não ter nenhum dos dois requisitos. Algo que a PF e a PRF esbanjaram em seu trabalho”. Ele também rebateu a críticas de líderes bolsonaristas, que tentam desmerecer a captura, criticando o custo de cerca de R$ 2,3 milhões.

“Fariam melhor se tentassem calcular os gastos da PM paulista com a mobilização de centenas de homens que ficaram meses na Baixada Santista em operações (Escudo e Verão) que provocaram mais de 80 mortes. Que tal?”

Redação: Clara Assunção