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Chuva adia busca por desaparecido da ditadura em cemitério na zona leste de SP

por João Peres, da RBA publicado 21/02/2011 17h57, última modificação 22/02/2011 10h10

São Paulo – Foi adiada para esta terça-feira (22) a volta a campo das equipes que buscam desaparecidos da ditadura militar no Cemitério de Vila Formosa, na zona leste de São Paulo. Os trabalhos marcados para a tarde desta segunda-feira (21) foram impedidos pela tempestade que caiu no início da tarde.

Com isso, a Polícia Federal aproveitou para apresentar os avanços obtidos nas análises de mapas nos últimos meses. Uma reunião acompanhada pela imprensa contou com a participação do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo e do Sindicato dos Químicos, motivadores da ação que levou à mobilização dos agentes do Estado pela busca de Virgílio Gomes da Silva, o comandante Jonas, morto pela repressão em 1969, dias após comandar a organização política do sequestro do então embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick.

Em novembro passado, os integrantes do Instituto Nacional de Criminalística (INC) da polícia optaram por postergar as atividades enquanto não se aprofundasse o estudo de localização da provável sepultura de Virgílio – antes disso, haviam sido localizados um ossário comum e o corpo que pode ser de outro militante da Ação Libertadora Nacional (ALN). 

Em uma sala de poucos metros e muitas goteiras, no prédio da administração do maior cemitério da América Latina, 17 pessoas acompanharam as explicações da Polícia Federal, entre elas a esposa de comandante Jonas, Ilda Gomes da Silva.

Marcelo Blum, do INC, explicou que a análise de mapas de 1968 possibilitou indicar o provável ponto de sepultamento. Nesta terça, ele espera utilizar sistemas eletrônicos de localização para definir a área que deve ser escavada. Para reduzir a margem de erro, devem ser feitas buscas também nas sepulturas vizinhas à que pode ser de Virgílio. Os policiais querem retirar todas as ossadas encontradas, mas submeterão a análise apenas aquelas que possam se encaixar no perfil físico. 

“É importante dizer que a mudança de estratégia foi adequada para reduzir o número de possibilidades. Não teria como trabalhar em nove frentes. Assim, menor é o nosso dilema na hora de fazer o exame de DNA”, destacou Jefferson Evangelista, chefe da área de Serviço Forense da PF.

O Grupo Tortura Nunca Mais elogiou os avanços obtidos ao longo dos últimos meses e manifestou concordar com a avaliação de que o adiamento se mostrou uma mudança adequada. O problema no caso de Vila Formosa é a falta de registros sobre os enterros e a completa desconfiguração do cemitério promovida pelos militares no começo da década de 1970. 

“Devemos dizer que isso que foi feito é o esforço de encontrar alguma lógica para esta busca, mas continua sendo como procurar uma agulha no palheiro”, destacou Marlon Weichert, procurador da República em São Paulo. “O que se pode ter é a garantia de que estamos fazendo o máximo esforço para que as possibilidades de identificação sejam esgotadas.”

Ainda que a análise de mapas se mostre acertada, será preciso contar com alguns outros fatores para obter êxito na identificação do corpo de Virgílio. Há uma possibilidade de que a ossada tenha sido removida, já que o cemitério conta com poucos registros e uma alta rotatividade no uso das sepulturas, com diversas exumações feitas ao longo das mais de quatro décadas de espera.

Caso ainda esteja no local, é preciso ver se está embalada em sacos plásticos, o que aumenta a chance de conservação adequada e resultados mais confiáveis da leitura do material genético. O ponto promissor no episódio de comandante Jonas é que a família tem elementos que podem auxiliar o trabalho dos peritos, como informações sobre fraturas sofridas antes da tortura e relatos sobre a arcada dentária.