Apesar da gravidade

Restrições do governo Doria em março foram menos rígidas do que há um ano

Rede de pesquisadores avalia que São Paulo faz ‘zigue-zague’ com as medidas de restrições, o que não interrompe expansão da covid e mantém o estado como epicentro da pandemia no país

Governo de SP/Divulgação
"Parece que a cada semana está mudando as medidas, que está melhorando muito a situação. E a gente não está vendo isso nos indicadores epidemiológicos", adverte professora da USP sobre o Plano São Paulo

São Paulo – As medidas de restrições para conter o avanço da covid-19 pelo governo Doria no estado de São Paulo, em março deste ano, tiveram um índice de rigidez “bem menor”, se comparadas às políticas de isolamento social adotadas em março de 2020. Isso a despeito do recorde no número de casos e mortes, e do colapso do sistema de saúde no segundo ano de pandemia. É o que revela o estudo da Rede de Pesquisa Solidária – Políticas Públicas e Sociedade, formada por mais de 100 pesquisadores de Humanidades, Exatas e Biológicas do Brasil e do mundo. 

Há um ano acompanhando e monitorando as políticas públicas do país adotadas para aumentar o distanciamento e diminuir as aglomerações, a rede observa que as medidas estaduais são “moderadas” e que o Plano São Paulo “não é articulado de uma forma em que estamos aumentando o nível de rigidez no pior momento da pandemia”. 

O estudo, publicado na Nota Técnica 29 da rede de pesquisadores, mede a intensidade das políticas públicas a partir de um Índice de Rigidez que varia de 0 –– nenhuma rigidez – a 100 – rigidez máxima. O que apontou que, desde novembro do ano passado, o governo de João Doria (PSDB) vem sendo responsável por um “afrouxamento inadequado”. Os dois últimos meses do ano registraram os escores mais baixos, – 18.0 –, inferior à média de rigidez ao longo de todo o ano de 2020, calculada em 34.72. 

Zigue-zague

A falta de controle se agrava, segundo os pesquisadores, com a estratégia “zigue-zague” do governo. É como a rede chama as alterações no Plano São Paulo. Nos últimos 13 meses, os critérios foram alterados 26 vezes. A gestão tucana alega que as mudanças são em decorrência da própria dinâmica da pandemia. Mas a avaliação dos especialistas é que o “zigue-zague”, as oscilações entre abertura e fechamento, persiste em 2021 e “não tem conseguido controlar a disseminação da covid-19”. 

Ao contrário, o governo Doria pode estar comprometendo a comunicação com a sociedade sobre o agravamento da pandemia. “Como pretendemos conseguir controlar a pandemia com o mesmo nível de rigidez que a gente tinha no início de março de 2020?”, contesta a coordenadora científica da Rede de Pesquisa Solidária e professora de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), Lorena Barberia, em entrevista a Glauco Faria, do Jornal Brasil Atual. 

“É importante entender isso, porque acho que algumas vezes a população é  difícil de atender às medidas, porque temos um zigue-zague”, completa. “Parece que a cada semana está mudando as medidas, que está melhorando muito a situação. E a gente não está vendo isso nos indicadores epidemiológicos. Precisamos avisar a população que não saímos do pior período da pandemia”. 

Falta de rigidez mantém SP como epicentro

A pesquisadora explica que mudanças constantes nos indicadores e na classificação de risco podem sim influenciar negativamente no comportamento da população. Todo esse cenário ainda derruba a tese de que as tímidas medidas de Doria seriam uma espécie de “lockdown”. “Não houve implantação de medidas muito rígidas”, frisa. “O que temos é um pacote de medidas parecidas com as que foram implementadas no início da pandemia”. 

Lorena conclui que essas “inconsistências” no controle mantêm São Paulo como o epicentro da doença no Brasil. E adverte que esse não pode continuar sendo o caminho da gestão estadual. Nesta terça-feira (20), o estado de São Paulo teve mais 1.122 mortes pela covid-19. Ao todo, 89.650 pessoas já perderam a vida em decorrência do novo coronavírus. 

“Nós não queremos continuar assim. Sabemos que há países com outras experiências, mesmo cidades locais brasileiras que deram certo e conseguiram reverter o quadro. Temos que investir nessas experiências, utilizar indicadores, ajudar a comunicar o comportamento e o que a sociedade pode fazer. Mas, principalmente nesse momento, são os gestores que são responsáveis pelas políticas e sua implantação”, cobra a professora da USP. 

Confira a entrevista 

Redação: Clara Assunção – Edição: Helder Lima