obsessão

Doria e Covas ignoram a ciência e determinam volta às aulas na próxima semana

Situação da pandemia no estado é considerada de alto risco para as aulas presenciais. E vacinação de professores ainda nem começou

Gilberto Marques
Doria e Covas ignoram o alto risco que a pandemia de covid-19 impõe nesse momento e determinam a volta às aulas

São Paulo – Ignorando as recomendações da ciência, o governador de São Paulo, João Doria, e o prefeito da capital, Bruno Covas, ambos do PSDB, determinaram a volta às aulas presenciais a partir da próxima semana, mesmo com todo o estado na fase vermelha da quarentena contra a covid-19. No entanto, o protocolo do Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, por exemplo, considera que a volta às aulas presenciais representa alto risco de transmissão e surtos quando o número de novos casos diários for maior que 100 por 100 mil habitantes. Em São Paulo, esse número hoje é de 505 casos por 100 mil habitantes.

O CDC também considera que, para uma volta às aulas segura, o índice de testes positivos de covid-19 não deve ser superior a 10% do total de testes realizados. Hoje, São Paulo registra 34,24% de resultados positivos em testes para covid-19. O governo Doria também anunciou a vacinação dos professores e outros trabalhadores da educação, com o objetivo de ampliar o apoio à retomada das aulas presenciais, mas, já às vésperas para a reabertura das escolas anunciada, praticamente nenhum professor foi vacinado. A expectativa é que os primeiros sejam vacinados amanhã (10), mas a imunização só ocorre efetivamente após 14 dias da segunda dose. Ou seja, a partir da metade de maio.

Alternativa errada

Na primeira tentativa de volta às aulas, em 5 de fevereiro, São Paulo estava na fase amarela e registrava 343 novos casos diários por 100 mil habitantes. As escolas podiam receber até 35% dos estudantes por turno, mas receberam apenas 600 mil dos 3,3 milhões de alunos que poderiam retomar as atividades. Mesmo assim, o governo Doria registrou 4.084 casos confirmados e 24.345 casos suspeitos de covid-19 nas escolas, com a morte de 21 pessoas. O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) contesta o número e diz que foram 67 mortes.

Apeoesp
Professores homenageiam colegas mortos após a volta às aulas em meio à pandemia de covid-19 em São Paulo

Segundo o Boletim Epidemiológico do Sistema de Informação e Monitoramento da Educação para Covid-19 (Simed), foram registrados 33 casos de covid-19 nas escolas paulistas nas três primeiras semanas de janeiro – menos de 1% do total. Na semana do planejamento da volta às aulas, de 26 a 29 de janeiro, em que os professores foram obrigados pelo governo Doria a comparecer às escolas , houve 82 casos notificados. Depois disso, os casos se multiplicaram, chegando a 1.130 confirmados, na semana de 28 de fevereiro a 6 de março. E totalizando 4.084 casos da infecção, claramente demonstrando que a volta às aulas não foi segura.

Volta às aulas com risco

Esses casos não consideram os ocorridos na volta às aulas na rede municipal da capital paulista, que registrou 854 surtos de covid-19 nas escolas. São considerados surtos os registros de dois ou mais casos de covid-19 simultâneos nas escolas. Também não estão contemplados todos os 645 municípios do estado, já que pelo menos 100 cidades não retomaram as aulas em fevereiro.

Além disso, embora haja consenso de que as escolas não são espaços de alta transmissão da covid-19 em si, a volta às aulas leva a uma maior circulação de pessoas. Seja do contingente de trabalhadores da educação, sobretudo professores – que raramente trabalham em apenas uma escola –, como dos próprios estudantes, além das pessoas envolvidas no transporte dos alunos.

Nas escolas particulares e municipais da capital, a volta às aulas pode começar já na próxima segunda-feira (12). Nas escolas estaduais, as aulas serão retomadas na quarta-feira (14). Nesse momento, as atividades presenciais não são obrigatórias aos estudantes, que devem continuar realizando as atividades online. O limite de alunos por turno segue sendo de 35%. O governo Doria diz que serão priorizados estudantes com alto déficit de aprendizagem, sem acesso ao sistema de ensino remoto, que necessitem se alimentar na escola e cujos pais trabalhem em serviços essenciais.

Desrespeitoso

A presidenta da Apeoesp, deputada estadual Professora Bebel (PT), considera que, além de expor trabalhadores e estudantes ao risco, o governo Doria desrespeita a Justiça ao determinar a volta às aulas. Em 9 de março, a juíza Simone Gomes Rodrigues Casoretti, da 9ª Vara da Fazenda Pública da capital,  decidiu que o governo Doria não pode obrigar os professores e outros trabalhadores da educação a voltar às aulas presenciais nas escolas sem o controle da pandemia.

Segundo a decisão, enquanto vigorarem as fases vermelha ou laranja da quarentena, os profissionais da educação filiados à Apeoesp e outros cinco sindicatos da categoria no estado não poderão ser convocados a atividades presenciais. “Até onde vai o desprezo deste governo pela vida? Vale tudo para atender os interesses das escolas privadas com quem ele confraterniza? Não vamos permitir a volta às aulas presenciais. A sentença é explícita e está em pleno vigor: não pode haver aulas e atividades presenciais em escolas estaduais, municipais e privadas nas fases vermelha e laranja e enquanto não houver a vacinação de todos os profissionais da educação”, destacou Bebel.

Quarentena

A partir de segunda, todo o estado de São Paulo vai avançar para a fase vermelha da quarentena, após quatro semanas na fase emergencial. A nova fase não traz flexibilizações significativas, com funcionamento apenas de serviços essenciais. Além disso, algumas estratégias da fase mais restrita serão incorporadas na nova fase, como o toque de recolher entre 20h e 5h, a suspensão de cultos religiosos e o home office para atividades administrativas. Houve uma redução nas novas internações, porém 11 regiões do estado ainda estão com mais de 90% dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

A taxa de ocupação de UTI no estado está em 88,3%. Mas, das 17 regiões do estado, 11 estão com a ocupação de UTI acima de 90%: Araçatuba (90,7%), Araraquara (93,4%), Barretos (98,3%), Bauru (92,6%), Franca (91,3%), Marília (94,4%), Presidente Prudente (98,1%), Ribeirão Preto (90,3%), São João da Boa Vista (94,2%), São José do Rio Preto (92,3%) e Sorocaba (90,3%). As demais estão acima de 84% de ocupação de UTI: Baixada Santista (87,6%), Campinas (86,6%), Grande São Paulo (87,2%), Piracicaba (89,8%), Registro (84%) e Taubaté (84,6%). Todos os índices são de fase vermelha.