Violência policial

Livro conta história das milícias no país e ligações com família Bolsonaro

Jornalista Bruno Paes Manso narra a história das milícias no país, passando por um dos mais emblemáticos crimes, o assassinato da vereadora Marielle Franco

Reprodução Instagram
Bolsonaro: ligação com as milícias tem caráter ideológico, sustenta jornalista autor do livro que será lançado hoje

BrasildeFato – Em 304 páginas, o jornalista Bruno Paes Manso narra a história das milícias no Brasil – desde o surgimento, passando por um dos mais emblemáticos crimes da história brasileira, o assassinato da vereadora Marielle Franco, e revelando relações com o poder, principalmente com a família do presidente Jair Bolsonaro, que se tornou personagem do livro “A república das milícias”.

“A ligação entre Bolsonaro e as milícias é ideológica e eu não acho isso menos importante, apesar de ser insuficiente para a Justiça, isso não te faz prender alguém. Mas as minhas perguntas não são as mesmas do Ministério Público e essa representatividade ideológica dos milicianos no Parlamento é muito relevante”, aponta o jornalista, em entrevista ao Brasil de Fato.

Ainda de acordo com o jornalista, os milicianos encontraram refúgio político na direita, onde há convergência ideológica. “Eles são contra a modernidade, são contra a chegada de discussões democráticas, que envolvem gênero e cultura e são conservadores sobre o papel da mulher. Os milicianos estão vinculados aos valores do passado, dos anos 1950, eles olham para esse período com saudade.”

Assassinado por forças policiais em 19 de fevereiro deste ano, o miliciano Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope, é apontado pelo jornalista no livro como um dos maiores criminosos da história do Rio de Janeiro. Sua relação com Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) é explorada por Bruno Paes Manso, que explica a distinção com que ambos foram tratados.

“O que vemos é que o elo do Fabrício é mais com a família Bolsonaro, ele faz a ponte entre os Bolsonaro e as milícias. Já o Adriano está na linha de frente dos caras que estão no chão, ele tinha muito para falar dessa gente”, explica Paes Manso, que lançará oficialmente “A república das milícias” nesta terça-feira (20), às 18h30, em evento online, nas redes sociais da Todavia, editora responsável pela publicação.

Confira a entrevista na íntegra:

Quais as relações do presidente Bolsonaro com os milicianos?

Em primeiro lugar, a ligação entre Bolsonaro e as milícias é ideológica e eu não acho isso menos importante, apesar de ser insuficiente para a Justiça, isso não te faz prender alguém. Mas as minhas perguntas não são as mesmas do Ministério Público e essa representatividade ideológica dos milicianos no Parlamento é muito relevante.

Então, o Bolsonaro defende uma violência redentora, capaz de estabelecer a ordem, a despeito do Estado de Direito e das leis. Isso faz parte da carreira do Bolsonaro. No fundo, é o que pensam as milícias. Você tem grupos que se colocam como autores e responsáveis por estabelecer a ordem em um território, ganha muito dinheiro para sustentar essa governança territorial, independente dos crimes que esteja cometendo.

“O maior criminoso da história do Rio de Janeiro tem familiares contratados no gabinete de Flávio Bolsonaro.”

Além disso, você tem o núcleo duro dos escritórios parlamentares deles, que mantém uma conexão próxima com as milícias, principalmente porque a base eleitoral deles é de milicianos, policiais militares, civis e suas famílias, são eles que sustentam as eleições da família Bolsonaro.

A partir daí, a estreita relação de Fabrício de Queiroz com esses milicianos e a ligação com o capitão Adriano da Nóbrega, um dos maiores criminosos da história moderna do Rio de Janeiro, ligado à milícia, ao jogo do bicho e o Escritório do Crime. Nesse aspecto, é o batom na cueca, o maior criminoso da história do Rio de Janeiro tem familiares contratados no gabinete de Flávio Bolsonaro. O Bolsonaro recebia dinheiro de uma milícia específica? Não existem provas, mas isso não é importante, é muito mais grave o que já sabemos a respeito dessa relação, pois fortalece as milícias.

Miliciano tem ideologia? Tem partido? Há um campo político que os abraça com maior frequência?

Sim, eles representam a ordem e a visão de uma ordem violenta, que não acredita na política. Essas pessoas não acreditam na capacidade da política de criar contatos coletivos que as pessoas obedeçam, desacreditam das autoridades políticas da Nova República e acham que essa ordem só chega pela violência e imposição da força.

Então, há uma visão tirânica e autoritária da política. Eles são contra a modernidade, são contra a chegada de discussões democráticas, que envolvem gênero e cultura, são conservadores sobre o papel da mulher. Os milicianos estão vinculados aos valores do passado, dos anos 1950, eles olham para esse período com saudade.

Eles estão mais ligados aos conservadores no Brasil.

Sim, mas eu acho que é mais, viu, são reacionários. Os conservadores defendem um Estado de Direito, é algo mais reacionário. Estão alinhados com o Donald Trump, por exemplo, e com outros governos tirânicos, como Israel ou Hungria, até com o Estado Islâmico, que aposta na violência para restabelecer a ordem.

Apesar de sabermos quem são os principais suspeitos, o caso usado no crime, a placa, a relação dos acusados com o Escritório do Crime, ainda não sabemos quem é o mandante do assassinato da Marielle e nem as motivações. Por quê tanta demora?

Hoje, o comando das investigações, que é formado por muitas mulheres, tem avançado, mas elas entraram do meio da investigação para frente e estão tentando tirar o atraso. Mas o grande desafio desse crime é que ele foi praticado por policiais, que conhecem os meandros das investigações e trabalham com contrainformação, que acaba desviando a informação para outro lado.

Mas, no livro, eu falo que ao contrário do que foi dito, quando a Marielle é morta, existiam dez anos de crimes muito parecidos que vinham sendo encobertos pelas autoridades que já indicavam uma série de suspeitos óbvios, entre eles o Ronnie Lessa, autor do crime.

O grande desafio desse crime é que ele foi praticado por policiais.

O procedimento era parecido, as armas usadas eram as mesmas, até o tipo de disparo era parecido e outras pessoas morreram da mesma forma. Então, o que vem à tona com a morte da Marielle é que existe uma uma década de omissão na investigação dos matadores do Rio de Janeiro.

Você acredita na tese de que o avanço da Marielle em redutos eleitorais dos milicianos, no caso Rio das Pedras, onde o deputado Chiquinho Brazão (Avante-RJ) atua, pode ter estimulado o crime?

O trágico dessa história é que tem algumas hipóteses colocadas pela polícia e você acredita em várias, porque a capacidade dessas pessoas de matarem faz com que você não duvide das possibilidades. No caso do Chiquinho Brazão e do Domingos Brazão, você tem uma tentativa de incriminá-los, que é um episódio em que o vereador Marcelo Sciciliano grava uma conversa dele com o presidente de uma associação de Rio das Pedras, falando sobre o crime e dando nomes.

Para um documentário sobre a Marielle, o Domingos Brazão dá uma entrevista dizendo algo que faz muito sentido, dizendo que são pessoas que estão no crime tem muito tempo, não vão falar no celular sabendo que podem ser gravados e depois entregar o celular para a polícia. Tem sentido. Agora, tem a hipótese do Chiquinho e Domingos Brazão, que disputam votos com o Sciciliano. Essa é uma possibilidade. Outra hipótese, é que a morte teria sido uma forma do Domingos Brazão se vingar do Marcelo Freixo.

Qual o potencial de abalo das estruturas das milícias se o Adriano da Nóbrega abre a boca? Você acha que sua morte foi uma execução?

O Adriano não necessariamente rompeu com a milícia. Em janeiro de 2019, é decretada a prisão do Adriano, pois ele seria o chefe de um esquema em Muzema e Rio das Pedras, e ele foge. Depois, ficamos sabendo que o próprio Fabrício Queiroz mantém contato com ele e o ajuda durante a fuga. Porém, ao mesmo tempo, ele se torna um pária, mesmo com o respaldo do Queiroz. O advogado do Adriano lê o processo e acha que há falhas que permitiriam um habeas corpus.

Então, uma semana antes da morte do Adriano, seu advogado liga e pede para que ele se entregue. Aí, o Adriano nega e diz que será morto. Bom, são 15 anos de história no crime, ele sabia muito, tinha relação com o jogo do bicho, o Escritório do Crime, a família Bolsonaro e o Queiroz. O próprio assassinato da Marielle, o que ele poderia falar? Enfim, é uma figura central do crime no Rio de Janeiro.

O Adriano recebeu um tratamento bem diferente do que foi dado ao Queiroz dentro da milícia?

Fazendo um exercício mental, o que vemos é que o elo do Fabrício é mais com a família Bolsonaro, ele faz a ponte entre os Bolsonaro e as milícias. Já o Adriano está na linha de frente dos caras que estão no chão, ele tinha muito para falar dessa gente. O Queiroz apenas pairava sobre esse grupo que atua mais no chão.

Alguns especialistas em segurança pública falam na extensão da estrutura miliciana para outros estados. No Ceará, por exemplo. Há milícias organizadas no interior do país para proteger o agronegócio?

Quanto menos controle os governos têm sobre a polícia, mais possibilidade existe de que esse grupo use suas armas para defender seus interesses e negócios, que são, invariavelmente, criminosos. Isso é a história do que aconteceu em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Quanto mais tolerantes os governos são com a violência policial, maior é a chance desse governo ver as forças policiais agirem contra o Estado de Direito, porque eles passam a ganhar dinheiro, armar seus parceiros e passam a bater de frente com o governo.

Vimos isso acontecer no Pará, com um grupo muito forte de policiais ganhando dinheiro com atividades criminosas. Acima de tudo, foi criado um modelo de milícia. Segurança privada, por exemplo, que vende segurança para condomínio, até que ponto o uso da extorsão é feito, no sentido de que se você não pagar, o crime vai invadir seu condomínio? Isso está acontecendo diariamente.

No caso do Rio de Janeiro, há uma especificidade, que é o domínio de territórios, que permite que esses policiais dominem determinados serviços como o gás, ou mesmo o tráfico de drogas. Essa particularidade não é tão visível em outros locais. Então, a polícia deixa de ser uma instituição de controle do crime, passa a ser protagonista o crime, isso é um risco real e urgente. Vemos as polícias batendo recordes de mortes nos últimos anos, é o maior sintoma de que os governos estão perdendo o controle sobre os policiais.


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