Pandemônio

Nelson Teich: demissão do Ministério da Saúde menos de um mês depois de assumir

Escalado para salvar o comando de Bolsonaro em meio à pandemia do coronavírus, em poucas semanas ministro colecionou divergências com o chefe

Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Teich ficou apenas 28 dias, após assumir no lugar de Mandetta

São Paulo – Nelson Teich não é mais o ministro da Saúde. Segundo a pasta, ele pediu demissão nesta sexta-feira (15). Empossado em 17 de abril, em meio a pandemia de coronavírus, ele deixa o cargo menos de um mês depois de assumir lugar de Luiz Henrique Mandetta.

Com atuação apagada no combate à doença, a saída do ministro se deve a divergências com o presidente Jair Bolsonaro, em temas como isolamento social e a utilização da hidroxicloroquina para pacientes com a covid-19. O ministro distribuiu nota informando que teria pedido demissão. Mas nos bastidores cogita-se que o Bolsonaro possa ter tomado a iniciativa de pedir a saída. Um dos nomes cotados para assumir o comando é justamente o atual número 2 da pasta, o general de divisão Eduardo Pazuello.

De acordo com a CNN Brasil, a médica Nise Yamaguchi, imunologista, oncologista e integrante do gabinete federal de combate à crise do coronavírus, esteve no Palácio do Planalto na manhã de hoje. Dois dias atrás, em entrevista à emissora, ela defendeu o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina contra a covid-19 desde o início dos sintomas. E que “não adianta querer que cada estado resolva o problema”.

Fritura

A relação do ministro e com o presidente, desde o início marcada pela divergência entre o isolamento social – defendido por Teich – e o isolamento vertical – opção de Bolsobaro –, estremeceu nos últimos dias. Novamente, a pauta do uso da cloroquina e do fim do isolamento, obsessões de Bolsonaro, pressionou Teich na pasta, assim como pressionou Mandetta.

Em entrevista coletiva, Bolsonaro defendeu o uso da cloroquina no tratamento da covid-19. Entretanto, Teich disse que o medicamento não tem eficiência comprovada e não é recomendado pelos órgãos de saúde. Minutos depois, virou alvo de ataques de bolsonaristas nas redes sociais.

No mesmo dia, enquanto o ministro concedia uma coletiva, Bolsonaro lançou um decreto ampliando as atividades essenciais no período da pandemia e incluiu salões de beleza, barbearia e academias de ginástica. Teich foi pego de surpresa e demonstrou desconforto com a medida sem aval do Ministério da Saúde.

“Saiu hoje?”, reagiu ao ser questionado por um repórter, que queria saber se o Ministério da Saúde concordava com isso e se houve alguma orientação da pasta para a tomada dessa decisão. “Qualquer coisa que é decidida pode ser revista. Existe um diálogo que permite que a gente se posicione se for necessário”, acrescentou.

Fantoche?

O fim do isolamento social, defendido por Bolsonaro, voltou a ser pauta do governo federal. Nas últimas entrevistas, o presidente pedia o fim da quarentena e a reabertura do comércio, na contramão das ações adotadas pelo mundo. O ministro disse que, enquanto a curva de casos sobe, não é possível liberar a população a sair de casa.

Desde que assumiu o Ministério da Saúde, há 27 dias, Nelson Teich fechou apenas quatro contratos de compra de respiradores e equipamentos de proteção individual (EPIs) contra o coronavírus. No mesmo período, a gestão Mandetta gastou 10 vezes mais.

O agora ex-ministro prometeu adquirir 46 milhões de testes para o novo coronavírus. A medida foi avaliada como “quase impossível de ser cumprida”, segundo o senador Humberto Costa (PT-PE) e o ex-ministro Alexandre Padilha. Ambos consideram que a ausência de planejamento e de orçamento por parte do governo Bolsonaro tornam a promessa uma “ilusão”.

Quando assumiu a pasta, Teich foi criticado por nomear sete militares para ocupar posições estratégias na secretaria executiva, a principal do ministério, que abarca as principais decisões e contratos da pasta, substituindo especialistas e funcionários de carreira da pasta.

Além disso, nesta semana Nelson Teich nomeou mais 37 militares para cargos técnicos no Ministério da Saúde. Ele disse que os militares iriam deixar o ministério uma vez superada a crise provocada pelo coronavírus.


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