Covid-19

Autoridades de saúde dos EUA alertam sobre riscos da cloroquina e drogas associadas

Estudo recente apontou mais mortes entre os pacientes tratados com hidroxicloroquina do que os que receberam tratamento padrão

Montagem/Alan Santos/PR
Os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro não cursaram medicina, mas são os grandes defensores do tratamento à base do medicamento

São Paulo – Defendida pelos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, o tratamento de doentes de covid-19 com uma combinação de cloroquina ou sua versão atenuada, a hidroxicloroquina, com o antibiótico azitromicina deve ser abandonada pelos médicos. A orientação é de um painel de especialistas no tema dos Institutos Nacionais de Saúde (da sigla NIH, em inglês), dos Estados Unidos.

A cloroquina é uma droga já conhecida e largamente usada no tratamento de malária, lúpus e artrite reumatóide.

Nesta terça-feira (21), o grupo divulgou novas diretrizes segundo as quais esses dois medicamentos e quaisquer outros usados em combinação devem ser usados apenas como parte de um teste clínico. As diretrizes são destinadas à orientação de médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde que atuam no tratamento de pessoas com covid-19.

Mesmo sem estudos conclusivos ou recomendações médicas, ambos os presidentes saíram fazendo propaganda do remédio em seus países. Bolsonaro chegou a anunciar a compra do medicamento para utilização no sistema de saúde brasileiro. No início do mês, o jornal New York Times divulgou que Trump tem participação financeira na Sanofi, maior fabricante mundial da cloroquina.

Mais mortes

A decisão dos especialistas do painel do NIH tem respaldo na falta de estudos conclusivos sobre os benefícios. No entanto, enquanto as diretrizes eram publicadas, um estudo envolvendo diversas universidades dos Estados Unidos trouxe dados alarmantes: Foram constatadas mais mortes entre os pacientes que receberam a cloroquina do que entre os submetidos ao tratamento padrão para a doença.

Para chegar a esses resultados, os pesquisadores chefiados pela equipe da Universidade da Virginia analisaram registros médicos de 368 veteranos do hospitalizados devido a infecção confirmada por coronavírus nos centros médicos da Administração de Saúde dos Veteranos que morreram ou que tiveram alta até 11 de abril.

Dos que receberam hidroxicloroquina mais os cuidados habituais, Cerca de 28% morreram. Já aqueles que foram tratados com o protocolo padrão, sem o uso da cloroquina, a mortalidade foi de 11%. Do grupo tratado com cloroquina em combinação com o antibiótico azitromicina, 22% morreram.

Os médicos observaram que a diferença entre esse grupo e o dos que receberam apenas os cuidados habituais não foi considerada grande o bastante para descartar outros fatores que poderiam ter influenciado a sobrevida. Além disso, o uso da hidroxicloroquina não fez diferença na necessidade de um respirador.

Embora não tenham acompanhado os efeitos colaterais, os médicos que participaram da pesquisa supõem que as mortes tenham ocorrido também de maneira súbita, já que a hidroxicloroquina tem efeitos colaterais potencialmente graves, incluindo a alteração dos batimentos cardíacos.

Benefícios sob suspeita

No último dia 17, a operadora de planos de saúde voltada ao público idoso Prevent Senior divulgou pesquisa com supostos bons resultados da hidroxicloroquina. Segundo divulgado, o tratamento em estágio precoce da covid-19 com o medicamento, associado ao isolamento social dos beneficiários, levou à queda de 80% no movimento nas unidades de pronto-socorro – quando somente 60% dos leitos da operadora destinados ao tratamento da doença estavam ocupados. Outro dado positivo era o de que 380 pacientes com coronavírus tiveram alta dos hospitais da rede e que o número de mortes caiu 60%.

A pesquisa, porém, tem indício de fraudes, segundo o Conselho Nacional de Saúde, que deve encaminhar documentação ao Ministério Público. A suposta pesquisa da Prevent Senior foi feita com cerca de 600 pacientes com suspeita de covid-19. Do total, 412 foram tratados com hidroxicloroquina associada à azitromicina. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, especialistas ouvidos afirmaram não ser possível concluir se os medicamentos tinham efeito contra o novo coronavírus devido a falhas metodológicas.

Assista:

Neste vídeo, a presidenta do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak, alerta para os efeitos colaterais dos medicamentos chamados hidroxicloroquina e cloroquina

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