campeãs

Mulheres competem contra a invisibilidade e o domínio machista no esporte

Joanna Maranhão e Ana Moser relatam a persistência das atletas femininas por espaço, estrutura e reconhecimento. Machismo da mídia é uma das grandes barreiras

Satiro Sodré/SSPress/CBDA
Joanna Maranhão

Joanna Maranhão diz que é preciso que as próprias atletas levantem umas às outras

São Paulo – Sem o glamour e a fama reservada aos homens, mulheres esportistas, mesmo as atletas multicampeãs ainda vêem suas conquistas menos valorizadas, enfrentam a falta de estrutura para o desenvolvimento do esporte no país e lutam contra o machismo da mídia esportiva na busca por seu espaço. A nadadora Joanna Maranhão e a ex-jogadora de vôlei Ana Moser apontam a hegemonia masculina dentro da gestão e da imprensa esportivas como principais causas da pouca visibilidade dada às competições e conquistas femininas.

“É muito comum falar que a mulher é insegura, sensível e não aguenta pressão. São os preconceitos da sociedade que se refletem no esporte”, diz Ana Mozer.

Medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996 a voleibolista lembra que, mesmo alcançando mais vitórias que o masculino, quando ainda jogava, a seleção feminina não recebia tratamento respeitoso, especialmente por parte da chamada grande mídia, que aclamava a medalha de ouro conquistada pelo time masculino, nas Olimpíadas de 1992 (Barcelona). “Qualquer coisa que eles venciam era a glória. As meninas, como não tinham ouro olímpico, ouviam muitas piadas. A gente sempre tinha de se superar. Fomos prejudicadas pelo machismo e convivi com isso durante toda minha carreira”, lamenta.

Joanna aponta que, para a imprensa em geral, mas principalmente a esportiva, as conquistas das mulheres são menos importantes que a sensualização e objetificação do corpo das atletas. “Quando fui finalista olímpica aos 17 anos (nos Jogos de Atenas, em 2004), eu não era a “menina raçuda”, mas a “namoradinha do Brasil”. Na época eu achei tudo muito fofo, agora compreendo que é diferente. Antes de competir, temos que ter cuidado com a posição com que vamos alongar, porque sempre vai ter fotógrafo focando na nossa bunda e peito, como acontece com as atletas do vôlei de praia”, critica. Joaana também foi medalhista nos jogos Pan-Americanos de 2007 (Rio de Janeiro), 2011 (Guadalajara) e 2015 (Toronto).

Para superar a invisibilidade, Joanna Maranhão acredita que as próprias esportistas devem prestigiar umas às outras, formando uma rede que amplie a presença delas nos espaços que são de direito. “Particularmente, eu gosto muito mais de assistir às conquistas das mulheres e falar sobre elas.” 

O caminho da iniciação ao pódio também reserva dificuldades para as atletas. Ana Mozer conta que ainda hoje, já longe das quadras, sofre com lesões contraídas pela inadequação da preparação física recebida, basicamente desenvolvida por homens e para homens. “Só tivemos treinadores e preparadores físicos homens. Quando eu comecei, no juvenil da seleção, era uma época em que se estava começando a preparação física do feminino, mas a gente fazia a mesma preparação que o time masculino homen. Eu tenho lesões acumuladas desse tempo.”

Ormuzd Alves/Folhapressana moser.jpeg
Ana Moser, com a número 2, em ação nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996

Joanna relata ainda a diferença de tratamento quando o assunto é estrutura para o desenvolvimento das modalidades femininas dos esportes. Só em 2013, por exemplo, a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos instaurou uma equipe multidisciplinar própria, incluindo uma profissional especializada em medicina esportiva feminina.

“Enquanto os homens já estavam caminhando e conquistando medalhas, a gente ainda precisava trilhar nosso caminho. E isso passa pela medicina, por exemplo, para entender que as necessidades e treinamentos para as atletas precisam ser diferentes.”

Ambas as campeãs. Assim como Ana Mozer, Joanna acredita em um futuro mais próspero e menos machista para as mulheres brasileiras dentro das competições esportivas de alto nível, mas ressalta a necessidade de ampliar a organização e as linhas de atuação pela isonomia de tratamento entre atletas masculinos e femininos.

“A gente está criando espaço para falar sobre isso, mas tem que continuar lutando. Deixar que tudo flua de acordo com o discurso da sociedade é permitir que permaneça o discurso do patriarcado. Temos que compreender os comportamentos perpetuados impostos pela sociedade, pra gente se colocar da forma plural que somos”, diz a nadadora.

Militâncias

Para elas, o simples fato de uma mulher competir em uma modalidade esportiva já é um ato político e, por isso, é natural que se faça o contraponto à ideia comum de que não se deve misturar eventos esportivos com a política. “O esporte é um retrato da sociedade e por isso a política faz parte dele. Não precisa ser partidária, mas deve haver posicionamento político”, defende Ana Moser.,

Já Joanna, que se filiou ao Psol em 2017, diz que a tentativa de silenciar atletas é uma ação ignorante. “Eu sou um ser político e isso não afeta em nada o rendimento. O fato de eu ser conhecida nacionalmente ajuda a me posicionar pelas lutas que valem a pena.”