ENTREVISTA

Menina de ouro

Da quentura de Alagoas ao gelo da Suécia, Marta driblou o preconceito, o descaso e – ao pisar no estádio onde o mundo descobriu Pelé – virou rainha. Com ela, o Brasil pode conquistar em Pequim o ouro que os meninos nunca alcançaram

Rubens Cavallari/Folha Imagem
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Ela domina os fundamentos do futebol – o controle de bola, o passe, o drible, o arremate, a visão de jogo, o espírito de equipe – com a precisão de um gênio. Com a camisa 60 da equipe sueca do Umea, ou com a 10 da seleção brasileira, os estragos que provoca nos adversários podem ser vistos no estoque de vídeos do YouTube. Basta procurar por Marta Vieira da Silva. Quando chegou à Suécia em 2003, logo foi parar na final da Copa da Uefa, tão importante para o futebol feminino como a Liga dos Campeões para o masculino. Anotou dois gols e deu o passe para o terceiro nos 3 a 0 sobre o Fortuna Hjorring (Dinamarca), que lhe rendeu o primeiro título na Europa. Em pleno Estádio Rasunda, em Estocolmo, trouxe à lembrança da crônica sueca o deslumbramento com o garoto Pelé, quando conduziu o Brasil aos 5 a 2 sobre o time da casa na conquista da primeira Copa do Mundo, em 28 de junho de 1958. Tricampeã sueca pelo Umea, nesta temporada Marta terá como adversárias a atacante Cristiane e a lateral Daniela Alves, no time do Linköpings. Em 30 de março e 6 de abril, fará mais dois jogos contra o Olympique Lyon, da França. Se vencer o time das brasileiras Kátia Cilene e Simone Jatobá, disputará o tricampeonato da Copa da Uefa. O ouro olímpico, que o futebol masculino jamais conseguiu, é também o sonho de Marta, que concedeu esta entrevista por telefone no dia 15 de fevereiro. Antes de ser a melhor do mundo, a menina se habituou a enfrentar os moleques das ruas de Dois Riachos, no interior de Alagoas – onde nasceu há 22 anos. Driblou preconceitos, futricas, e a resistência da família. Foi parar no Vasco aos 14 anos. E de lá partiu sem medo para um mundo onde os únicos adversários que incomodam são o idioma e a saudade do feijão e do calor dos trópicos. Desde menina Marta provocava: “Mãe, um dia vou estar lá na televisão e a senhora vai me ver daqui”. E a mãe: “Ah, pára de ser boba”.

Como é o campeonato na Suécia? Tem muitos clubes, torcida?
São 12 equipes na primeira divisão, 12 na segunda, e assim por diante. São seis divisões. Preferem esportes no gelo, mas o futebol é bem popular, principalmente o feminino. Meu time é tricampeão nacional, e está nas semifinais da Copa da Uefa, da qual é bicampeão.

Você imagina um dia o Maracanã lotado, como no Pan, num jogo comum entre dois times brasileiros de futebol feminino?
A gente tem uma pequena esperança de que isso ocorra um dia. Mas está muito longe de acontecer. A realidade do futebol feminino Brasil, infelizmente, ainda não é a que a gente quer.

E o preconceito em relação às mulheres que jogam futebol? Vocês chegam a sofrer algum tipo de assédio?
Ainda existe, mas está diminuindo. A forma de olhar para as meninas está diferente. Além disso, aqui as pessoas são bem discretas. Olham para a parte profissional, e não para sua vida privada. É difícil comparar o que acontece aqui com o que acontece no Brasil, onde isso incomodava muito. A gente ficava chateada quando as pessoas faziam comentários chatos, mas, quando você tem um sonho, procura esquecer as coisas ruins e se concentrar nas positivas.

E você já fala bem o idioma sueco?
Um pouquinho, dá pra me virar, mas não o suficiente. Aos poucos a gente vai conseguindo, a cada dia aprende uma coisa nova.

Você estudou?
Estudei até a 5ª série, aí no Brasil. Depois vim para a Suécia. Fazer um cursinho aqui, outro ali, tudo bem, mas um colegial todo é meio complicado sem dominar o idioma.

E a família fica em Alagoas, não quis mudar para a Suécia?
Falei com minha mãe ontem, hoje, a gente se fala direto. Minha mãe já esteve aqui, em 2004, gostou, a cidade é muito calma e bem estruturada, mas sentiu muita falta de casa e só ficou 40 dias.

Antes de você jogar bola, como era a vida em Alagoas?
Meu pai se separou da minha mãe quando eu tinha 1 ano. Eu me criei com minha mãe e meus irmãos. Somos quatro. Meus irmãos trabalhavam para ajudar em casa e minha mãe sempre trabalhou. Eu ia à escola e nas horas vagas sempre jogava futebol. Meus irmãos não jogam, só arriscam. Meu pai jogou também, mas eu nunca vi.

Sua cidade é pequena. Como você lidava com as pessoas, como as pessoas falavam com você?
Olha, foi uma época dolorida. Desde pequena eu sempre sonhei em ser jogadora, sempre quis chegar aonde estou, sempre quis mostrar a mim mesma que eu seria importante. Nem minha família via futuro para mim. As pessoas diziam para meus irmãos ou minha mãe: “Como é que você pode deixar sua filha jogar no meio de garotos, não sabe o que acontece, o que falam para ela?” Passei dificuldade, mas sempre pensei positivo: “Isso não vai me fazer desistir”.

Você nunca pensou em fazer nada a não ser jogar futebol?

Não. Nunca passou pela minha cabeça. Eu era fissurada. Não gostava de acordar cedo, mas nos dias de treino a gente começava às 6 da manhã, porque mais tarde fazia muito calor; e até hoje faz. Treinava numa quadra de futsal que era aberta, e ainda é. A gente está até pensando em fazer um ginásio. O governador disse que quando eu voltar, em dezembro, será inaugurado um estádio que vai ter meu nome. A gente sempre acordava de manhãzinha e saía batendo na porta dos meninos – quem acordava primeiro ia acordando os outros. Eu sempre, sempre, sempre pensei nisso. Quando via jogos de futebol, eu sentava no sofá de casa e falava: “Mãe, um dia vou estar lá na televisão e a senhora vai me ver daqui”. E ela: “Ah, pára de sonhar assim, pára de ser boba”. Hoje, quando fala sobre isso, ela nem consegue terminar a frase, começa a chorar.

Você chegou a jogar em algum time de lá antes de ir para o Rio?

Comecei aos 10 anos, por aí, a jogar futsal num time de garotos. Era um time do colégio, e a gente costumava disputar jogos intercolegiais. Eu já andava com os meninos, nessa época. Depois dos meus 12 anos comecei a jogar futebol de campo no CSA, com alguns primos meus. Eu era a única mulher.

E como você foi parar no Vasco?
Na época que eu jogava futsal, tinha um rapaz do Rio de Janeiro que morava havia alguns anos perto da minha cidade. Ele tinha me visto jogar e me propôs fazer um teste no Vasco, que em 2000 era uma equipe muito boa, praticamente a base da seleção feminina, e foi aí que resolvi ir para o Rio e tentar realizar meu sonho de chegar à seleção e me tornar uma grande jogadora.

Por que o futebol feminino não deslanchou no Brasil?
Nós somos o país do futebol masculino. O feminino fica meio restrito e tem aquela coisa também do machismo, nem clubes, nem empresas mostram interesse, isso dificulta. O desempenho no Pan e no Mundial mexeu um pouco. Alguns clubes falaram em montar equipes. Mas a gente não pode ficar esperando isso acontecer. Fica difícil contar com promessas, com uma estrutura que não existe. E, como não há uma liga nacional de futebol feminino, fica difícil.

Tem de ser alguma coisa que funcione fora da CBF?
Tem de ser alguma coisa concreta, né?

Você tem contato com jogadoras no Brasil, acompanha como estão as mulheres que gostariam de viver do futebol?
Olha, é meio complicado, sabe? Algumas meninas aí no Brasil, que fazem parte da seleção, têm de estudar, trabalhar e ainda tentar treinar por conta própria, para se manter em forma. É isso o que normalmente acontece.

O jogador pensa em parar por volta dos 35 anos. E a jogadora, como é sua relação com seu tempo de atividade?
Já presenciei atletas que jogaram até os 34 anos e até hoje ainda jogam. Aqui mesmo, na Suécia, algumas fazem isso. Para as mulheres é mais difícil, normalmente elas param quando estão chegando aos 30, porque têm planos de mudar, constituir família, ter filhos.

Existe por parte de vocês e dos profissionais que as acompanham alguma preocupação com o impacto do esporte no corpo, em como continuar inteiras depois dos 30?
Há muita preparação física, muita musculação, porque mulher tem maior facilidade de se machucar do que homem, principalmente no período pré-menstrual. Precisamos ter uma preparação melhor que a dos homens, para ter um nível bom, nos proteger contra lesões e não vir a ter nenhum problema depois dos 30.

E você tem planos? A gente está precisando de fornecedor, porque os craques aqui estão acabando…
(Risos) Quando eu achar que está na hora de parar… Poucas mulheres não pensam em ter filhos. Eu gosto muito de criança, então…

E qual é sua expectativa de alcançar, nas Olimpíadas, o ouro que os homens ainda não conseguiram?
A gente vem buscando isso há muito tempo. Somos bicampeãs pan-americanas, chegamos a duas grandes finais, as Olimpíadas em 2004 e o Mundial em 2007. Agora, mais do que nunca, é hora de ficarmos em primeiro lugar, mundialmente. Mas, primeiro, precisamos conseguir a classificação para as Olimpíadas. Tem um jogo, em abril, contra uma equipe da África (a seleção de Gana), e é um jogo só. Quem ganhar vai. Então, primeiro, é preciso pensar nesse jogo, para chegar lá. Eu não tenho muitas notícias pelo fato de estar aqui, mas soube por algumas meninas da seleção que agora em março tem uma convocação e, dia 19, elas se apresentam para esse jogo classificatório.

E quando é que você volta a jogar no Brasil?

Eu tenho um sonho de encerrar minha carreira aí, no futebol brasileiro, só que com a estrutura do futebol feminino daí…

Ser a melhor do mundo é um peso ou um grande prazer?
Sempre sonhei em chegar aqui, ser a melhor do mundo, não é um peso. Não entro em campo pensando se sou a melhor do mundo, porque na verdade eu jogo coletivamente, não faço nada sozinha.

Você tem contato com Ronaldo? Conversa com ele sobre as razões de tantas lesões?

O agente dele é meu agente também, então falamos muito. O porquê de tantas lesões não tem resposta. É a sétima vez que o Ronaldo se machuca. O que nos resta é ficar na torcida para que ele se recupere, porque é um grande jogador e uma pessoa excepcional.

Quando você entra em campo tem a preocupação de se preservar, fugir da pancada? Existe esse medo?
Não tenho esse pânico, não. São coisas que acontecem em detalhes que você nunca imagina. Com a Elaine, que joga aqui comigo, aconteceu assim, em questão de segundos, um lance muito rápido. Eu estava ao lado dela e nem imaginava que ela pudesse ter rompido os ligamentos disso e daquilo. Foi uma coisa muito boba, e ela vai ficar seis meses parada. São coisas que acontecem, a gente não tem controle sobre elas. Quando têm de acontecer, acontecem.

A seleção feminina não poderia fazer jogos-treino contra a seleção masculina? Ou pegaria mal humilhar os rapazes?
Não tem como, até porque a condição física é bem diferente, é muito arriscado, então a gente não conseguiria. Mas as meninas aí no Brasil costumam jogar contra as equipes masculinas, do Fluminense, do Friburguense, do Flamengo, equipes sub-15, sub-17, algo assim. Eu já joguei várias vezes.

E a vontade de reforçar o ataque do Corinthians?
(Risos) Eu gostaria muito, até porque sou corintiana de coração, mas mesmo a gente tendo toda essa agilidade, essa habilidade, fica um pouco atrás na parte física. E o homem não vai querer perder para uma mulher, não vai querer tomar um drible de uma mulher, então essas coisas pesam bastante pro nosso lado.

E este apelido, Pelé de Saias?
(Risos) No meu primeiro ano aqui na Suécia, fui jogar no estádio onde ocorreu a final da Copa de 1958, quando o Brasil ganhou – e quando surgiu o Pelé. Vim jogar as semifinais da Copa da Uefa, e a gente conseguiu passar à final, que foi lá estádio. Ganhamos, eu fiz dois gols e dei o passe para o terceiro. Então começaram a me comparar com o que viram na Copa de 1958. Hoje as pessoas já estão acostumadas com minha presença, me conhecem e me cumprimentam como se eu fosse uma pessoa normal: “Oi, Marta, tudo bem? Quando é que vai ter jogo?” Está bem tranqüilo. Quando a gente vai para as outras cidades o assédio é maior, muita gente pedindo autógrafo. Os jogos terminam e você fica lá, para dar autógrafo, uma, duas horas…

Crescida no calor de Alagoas e do Rio de Janeiro, o que você faz, quando não está trabalhando, para driblar o frio?
Às vezes vou para casa de algum amigo, ver um filme. Ou fico na internet, converso com meus amigos, ligo pra casa, enfim, não tem muita coisa pra fazer nessa época, até porque tem treino todos os dias. Se você quer fazer uma outra atividade, não vai conseguir treinar no dia seguinte. E exatamente nesta época, duas vezes por semana, às terças e quartas, a gente treina em dois períodos, e sábado também. Então, você chega em casa, só dá tempo de almoçar, descansar um pouco e já sair para o treino da tarde. É puxado. Sobra a noite para descansar mais, conversar com amigos na internet. Eu costumo jogar muito PlayStation, tenho algumas séries brasileiras para ver, uns filmes brasileiros que já vi umas três, quatro vezes. Eu gosto bastante d’O Auto da Compadecida e ganhei uma minissérie que já tem alguns anos, a Hilda Furacão. Às vezes amigos trazem alguns filmes com legenda em português, e a gente vai se virando de alguma forma.

Do que você mais sente falta do Brasil?

Da comida, né? Mas, como eu como de tudo, pra mim está tranqüilo com relação à comida. A gente sente falta de comer feijão, a comida bem típica mesmo do Brasil. E do calor. Aqui comemos muita pasta, macarrão, massa, batata, ovo, salada. De vez em quando tem uma feijoadazinha aqui. A Elaine, quando está disposta, liga no fim de semana: “Vem pra cá, vamos fazer uma feijoada”. A gente se reúne e come um feijãozinho. É aí que matamos a saudade.