Contra as regras

‘Eu admiro acima de tudo no Maradona a loucura dele’, diz Zé Celso Martinez Corrêa

“Qualquer pessoa que saia da regra é muito atacada. Eu sei o que é isso porque eu também sou um bode expiatório. Ele foi um bode de muita coisa”, afirma dramaturgo

Montagem RBA
"Maradona tinha a arte no futebol e na vida. É um artista. Vai na inversão dos valores", afirma Zé Celso (ao centro, no alto)

São Paulo – “Se eu fosse Maradona/ Viveria como ele (…) Se eu fosse Maradona/Nunca me equivocaria.” Os trechos da canção “La Vida Tómbola”, do músico francês Manu Chao, fazem pensar que a vida de El Pibe pode ser comparada a vários gêneros de arte. Drama, tragédia, ópera. Ele também encarna o espírito de uma nação emocionalmente intensa, dramática, politizada, que não pode viver sem mitos: Carlos Gardel, Juan Domingo Perón, Evita.

Mas Diego, Dieguito, morto nesta quarta-feira (25), para os argentinos o maior craque que já existiu, transitou também pela política: encontrou-se com Fidel Castro e Hugo Chavez, defendeu Dilma Rousseff, solidarizou-se a Luiz Inácio Lula da Silva.

No Twitter, a ex-presidente argentina e atual vice, Cristina Kirchner, escreveu: “Mucha tristeza… Mucha. Se fue un grande. Hasta siempre Diego, te queremos mucho. Enorme abrazo a sus familiares y seres queridos”. Para o cientista político Vitor Marchetti, “Maradona é gigante porque sempre soube o que era representar uma nação e um povo”, segundo disse no Facebook. A morte do astro causou impacto em todo o mundo. O velório do já lendário jogador será realizado na Casa Rosada, a sede do governo.

Há quem acredite que não existem coincidências. Seja como for, Diego Maradona morreu no mesmo 25 de novembro que o líder cubano Fidel Castro, há quatro anos.

Comparar o futebol com a arte, um grande jogador ao artista e um golaço com uma pintura é um dos maiores clichês que envolvem o futebol. Maradona tinha “a arte no futebol e na vida”, na opinião do dramaturgo José Celso Martinez Corrêa. Mas, para ele, o craque foi mais do que isso. “Eu admiro acima de tudo no Maradona a loucura dele, e a coragem dele, a coragem dessa loucura, num meio careta como é o futebol”, diz, em entrevista à RBA.

Por seu comportamento, El Diez – que elevou o então modesto Napoli ao patamar de um dos maiores times do mundo (de 1987 a 1990) e conduziu, praticamente sozinho, a Argentina ao glorioso título mundial de 1986, com la mano de Dios – foi um prato cheio para o moralismo da imprensa e da sociedade. Certamente por isso não refreou seu temperamento explosivo e reagiu com tiros de espingarda de ar comprimido a jornalistas que o assediavam, às vésperas da Copa do Mundo de 1994.

“Qualquer pessoa que saia da regra é muito atacada. Eu sei o que é isso porque eu também sou um bode expiatório. Ele foi um bode de muita coisa, né? Mas o bode é a grandeza dele”, diz Zé Celso.

Leia a entrevista.

O que você tem a dizer de Maradona?

Maradona é um gênio. Foi um jogador de futebol, mas não só isso. Ele foi um sujeito que aproveitou a vida. Que gozou bastante, que viveu bastante, que bebia, teve acesso a tudo o que é possível e que dá prazer na vida. É a morte de uma pessoa muito alegre, muito forte, muito louca. Eu admiro acima de tudo no Maradona a loucura dele, e a coragem dele, a coragem dessa loucura, num meio careta como é o futebol. Ele foi audacioso demais na vida. Viveu a vida com muita intensidade. Morreu com 60 anos. Acho que é até bom isso, sei lá.

Por que bom?

Porque é o que é! (risos). Estou com 83 anos. É mais difícil, viver a velhice. Muito mais difícil.

A sociedade e a mídia falavam de Maradona com muito moralismo, mas agora que morreu…

Claro! Sempre. Qualquer pessoa que saia da regra é muito atacada. Eu sei o que é isso porque eu também sou um bode expiatório. Ele foi um bode de muita coisa, né? Mas o bode é a grandeza dele. Aliás, eu não conheço nenhum jogador… Neymar faz coisas, é meio louco, cai no chão, tem muita namorada. Mas é um sujeito igual a todos. Não tem nada de esquisito. Já Maradona é louco, um cara muito mais criador.

O brasileiro Pelé disse que não votou em Bolsonaro porque estava fora do Brasil. Já Maradona, um argentino, apoiou Dilma Rousseff, posou com Fidel Castro

Ele é libertário. Poucos são tão libertários como ele. Na Argentina ele é um fenômeno. Viveu a vida muito bem. Sofreu, claro. Mas viveu loucamente.

Ele poderia ser identificado como um artista, no sentido metafórico?

Eu acho. Ele tinha a arte no futebol e na vida. É um artista. Vai na inversão dos valores. Estou escrevendo (sobre esse tema em) uma peça. Um rei da Síria que se torna rei em Roma, mas ele é completamente anarquista. Eu gosto da posição do Maradona.

Maradona é anarquista?

Ele é mais do isso, ele é anárquico. Eu detesto “ista”. Comunista, anarquista, socialista, capitalista. Eu gosto de capital, de comum. Negócio de “ista” não tá com nada. 

Assista a vídeo com Manu Chao interpretando La Vida Tómbola na presença de Maradona: