Adiós, Dieguito

‘O mais humano dos deuses’, Diego Maradona sai de campo

Vinte dias depois de ser operado e 25 após completar 60 anos, o genial e genioso jogador argentino morre com parada cardiorrespiratória

Montagem RBA
Cenas de um gênio polêmico, dentro e fora de campo: a "mão de Deus" de 1986, o doping em 1994, as comparações com Pelé e a ousadia política

São Paulo – Diego Armando Maradona, o irascível e indomável jogador de 1,65 metro, famoso por suas jogadas dentro de campo e suas declarações fora, morreu por volta do meio-dia desta quarta-feira (25), apenas 25 dias depois de completar 60 anos. Uma data ainda mais lembrada pela proximidade com os 80 anos de Pelé, também em outubro, e as polêmicas sempre alimentadas pela mídia. Após passar por uma cirurgia de urgência devido a um coágulo no cérebro, no início deste mês, ele voltou para casa e sofreu uma fatal parada cardiorrespiratória. Ultimamente, treinava o modesto Gimnasia y Esgrima.

“Um dia, o inevitável aconteceu”, lamentou o jornal Clarín. Il calcio piange il più grande di tutti (“O futebol chora o maior de todos”), escreveu a Gazzetta dello Sport, da Itália, onde ele também fez história. O corpo de Maradona será velado na Casa Rosada, sede do governo argentino.

Era o Dieguito, El Pibe de Oro, o habilidoso e indomável baixinho canhoto que começou jogando no fim dos anos 1970 no Argentinos Juniors. De lá para o gigante Boca Juniors, e depois para o Barcelona e o Napoli, clubes dos principais triunfos.

Orgulho pátrio

E, claro, a seleção argentina, para a qual garantiu o título mundial em 1986. “Contra a Inglaterra, Maradona vingou com dois gols de esquerda o orgulho pátrio ferido nas Malvinas: fez um com a mão esquerda, que ele chamou de mão de Deus, e o outro com a perna esquerda, depois de ter derrubado no chão a defesa inglesa“, escreveu Eduardo Galeano no clássico livro Futebol ao Sol e à Sombra. Na final, contra a Alemanha, lembra Galeano, também foi de Maradona o passe decisivo para Burruchaga marcar: 3 a 2 para a Argentina, que se tornava bicampeã.

Duas Copas depois, em 1994, Maradona reafirmava seu protagonismo. Aos 33 anos, jogava em alto nível e fora decisivo para a Argentina nas primeiras e convincentes vitórias, contra Grécia e Nigéria. Mas foi pego no antidoping e excluído da competição. Sem ele, a seleção caiu nas oitavas de final.

Em outra obra, Fechado por Motivo de Futebol, o uruguaio Galeano definiu o argentino como “o mais humano dos deuses”, uma “síntese ambulante das fraquezas humanas, ou ao menos masculinas”. Maradona sofreu com as drogas, passou por internações, tornou-se nome de igreja na Argentina, arrastou séquitos e desafetos, juntou genialidade e irresponsabilidade.

Maradona
Em 1986, Maradona garantiu o campeonato mundial à Argentina

Na politica, não hesitou em dar apoio a quem quis. Assim, foi abraçar Fidel Castro e defender Hugo Chávez. Da mesma forma, prestou solidariedade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Diego Armando Maradona foi um gigante do futebol, da Argentina e de todo o mundo, um talento e uma personalidade única. A sua genialidade e paixão no campo, a sua intensidade na vida e seu compromisso com a soberania latino-americana marcaram nossa época”, escreveu Lula nas redes sociais.

‘Jogaremos bola juntos’

O ex-jogador Casagrande, que também sofreu com as drogas, manifestou-se de forma emocionada. “Eu fico chocado pela perda de um grande jogador, um cara que eu conheci e um dependente químico. Eu sofro muito quando morre um dependente químico. Pra mim é muito duro”, disse o comentarista.

O famoso gol de mão contra a Inglaterra inspirou o humorista Marcelo Adnet. “Que la mano de Dios te conduzca al cielo. Genial y eterno”, escreveu. “Um dia, eu espero que possamos jogar bola juntos no céu”, disse Pelé.

“Existirá alguma droga mais venenosa que o êxito? Maradona se nega a se retirar porque se nega a morrer? Não consegue olhar as partidas sem jogá-las? É impossível o regresso à multidão de onde ele veio? Não consegue aceitar que ficou para trás o tempo em que os rivais não sabiam decidir entre marcá-lo ou pedir seu autógrafo?”, perguntou-se Galeano, para no fim pedir justiça. “Não temos todos uma dívida de compreensão com este jogador rebelde, que tanto lutou pela dignidade do seu ofício e tanta beleza nos deu nos estádios?”

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