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Filme ‘Espero tua (re)volta’ fala do Brasil que ainda pode ser

Documentário sobre ocupações das escolas em 2015 traz o ponto de vista de três estudantes que tiveram suas vidas transformadas na luta por um país possível e necessário
Publicado por Cláudia Motta, para a RBA
15:12
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Reprodução

Braços dados. Cena do filme de Eliza Capai

São Paulo – Marcela Jesus, Lucas “Koka” Penteado e Nayara Souza dão a linha no documentário Espero tua (re)volta.  Estudantes secundaristas, literalmente deram a cara a bater nas ocupações das escolas estaduais de São Paulo, em 2015.

A reorganização imposta pelo governo de Geraldo Alckmin fecharia escolas e milhares de salas de aula em todo o estado, sob a desculpa de haver 2 milhões de estudantes a menos no sistema público entre 1998 e 2015. Enquanto isso, o número de presos no sistema carcerário aumentou quatro vezes, lembra uma aluna negra em assembleia numa das “ocupas”. “Entendeu o ciclo?”, pergunta aos colegas.

Eles entenderam. Essa batalha, seja nas ruas ou na disputa do imaginário social, da opinião pública, os estudantes venceram. A aprovação do governo despencou. O secretário de Educação, Herman Voorwald, admitiu os dados “vergonhosos” do setor e pediu pra sair.

A história contada pelos três jovens, sob a competente direção de Eliza Capai, rendeu uma série de prêmios nacionais e internacionais ao doc que estreou no dia 15 em salas de cinema de alguma das principais capitais do país (confira).

Marcela é neta de doméstica. Tanto a avó como a mãe mal puderam estudar diante da perversa lógica, realidade nas periferias de todo o Brasil: o dinheiro da família era disputado pelo aluguel e a alimentação, era comer ou morar.

Confira o trailer oficial do documentário


A escolha impossível está na base dos tão justos, mas criminalizados movimentos de moradia, inspiração de muitos desses jovens. Da luta nas ocupas, Marcela ganhou além da força e crises de ansiedade causadas pelos “confrontos” com a polícia, o orgulho da negritude por anos negada.

Negritude que faz Koka e milhões de jovens conviverem diariamente com as “duras”. Em um trecho do doc, ele e dois colegas, em entrevista à cineasta, vêm um quarto amigo ser parado por policiais. Na carteira, a nota fiscal da bicicleta, papel apresentado ao PMs para garantir sua liberação. A cena, de alguns segundos, define o abismo de desigualdade que separa brancos e negros no Brasil. E a relação da polícia militarizada com seus iguais.

“O PM não lembra que a escola pública é a mesma do filho”, revolta-se Koka, ao som das bombas de efeito moral atiradas sobre crianças e jovens em protesto pelo direito de estudar. “Lá se vão mais umas 500 merendas”, ironiza sobre o alto valor dos artefatos desperdiçados diante da luta pacífica.

Nayara, da União dos Estudantes Secundaristas, representa a institucionalidade negada pelos autonomistas do movimento, que chegavam a queimar bandeiras das entidades estudantis, e também a luta feminista e LGBT+. “Esse documentário aconteceu numa época em que elegemos a primeira mulher presidenta da República, onde as principais lideranças do movimento estudantil eram mulheres”, faz questão de lembrar. 

Um tapa na cara do sistema

As imagens de Espero tua (re)volta, direto de 2015, refazem o trajeto tortuoso e retratam a sociedade brasileira, agora mergulhada no caos de 2019. Ao lado de uma feira livre, homens e mulheres apreciam seus pastéis com caldo de cana enquanto um jovem estudante é espancado pela PM. Ou quando mostra o desespero dos estudantes ao lado da moradora de rua que sangra, após ser atingida pelo cassetete de um dos policiais. Em posição de descanso, as “autoridades” ignoram o sofrimento durante a uma hora ou mais de espera pela ambulância, enquanto, com o pouco que podem e sabem, os jovens prestam os primeiros socorros.

A Maria podia ter morrido, entristece-se Marcela. Se é assim quando com tanta gente vendo, imagina de madrugada, questiona-se. E ninguém se importa.

Ao relatar a história das “ocupas”, o filme vai além do já fundamental papel de tratar da importância e do direito cada vez mais sonegado ao ensino público de qualidade. Abre um importante debate sobre inclusão social, racismo, machismo e a função do sistema político nisso tudo, com críticas de sobra aos partidos políticos e entidades representativas tanto dos trabalhadores do setor, como dos estudantes.

Para isso, volta aos protestos de 2013, lembra dos reflexos no impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016, a posse de Michel Temer e a emenda constitucional que cortou os gastos com educação e saúde, a eleição de Jair Bolsonaro.

“O jovem que ocupa, sonha com a educação pública de qualidade, com um mundo mais igualitário. E que assim que eles crescerem e chegarem no poder vai estar tudo resolvido. Mano, o bagulho é muito mais louco do que isso”, diz Koka, antes de apresentar a diversidade de um congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Petistas, comunistas, anarquistas, tucanos, autonomistas. Todos por um mesmo objetivo. Mas numa disputa de narrativa que evidencia os conflitos e a complexidade desse e de tantos outros movimentos.

No Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo, a sessão da quinta-feira (22) foi seguida de um debate com a professora e co-deputada Paula Aparecida (Psol) pela bancada ativista; Marcelo Rocha, educador no Projeto Arte e Cultura da Ação Educativa; e Guilherme Nogueira, estudante e ativista do movimento autônomo Secundaristas em Luta de São Paulo. Todos participaram das ocupas e traduziram seus olhares sobre os protestos, causas e efeitos tanto para os jovens estudantes, como para a sociedade brasileira.

Assista ao vídeo do debate

Sobre o doc

“No momento em que há uma criminalização da cultura e do setor artístico, queremos mostrar que não vamos parar de fazer filmes, ocupar mais espaços”, disse Eliza Capai, em entrevista à Piauí. A documentarista é formada em jornalismo com especialização em documentários pelo OpenDocLab do MIT (Massachusetts Institute of Technology).

De acordo com a lógica de ocupação de espaços, a Taturana Mobilização Social, que distribui o filme, libera a exibição de forma gratuita por quem quiser organizar uma sessão aberta. Em salas de São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belém e Fortaleza a entrada é livre para estudantes de escolas públicas. O filme tem 93 minutos de duração.

Além de Berlim, onde recebeu o prêmio da Anistia Internacional e o Prêmio da Paz, o doc venceu no Cine PE, com o Calunga de Ouro de melhor filme. Foi eleito o melhor documentário no Festival Internacional de Cine Político, na Argentina, na Mostra de Cinema Latino-americano da Catalunha e no Sneakers Film Festival for Children and Youth, na Polônia. Recebeu ainda o Grand Prix no Internacional Festival of Red Cross and Health Films, na Bulgária, e o Prêmio Olhar, no Festival Olhar de Cinema, em Curitiba.


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