Genocídio

‘Polícia mata grávidas, crianças e os mais velhos são mortos pela covid. Eliminam a população negra’

Um mês após chacina no Jacarezinho e no dia seguinte à execução de Kathlen e seu bebê, adolescente é baleado no Rio. Casos expõem genocídio e negação da maternidade a mulheres negras

Renato Moura/Voz das Comunidades
"Não tem como acreditar na polícia que todo dia mata. Essa polícia traz as mesmas falas e desculpas todos os dias", contesta ativista

São Paulo – A violência policial fez mais uma vítima na noite desta quarta-feira (9) no Rio de Janeiro. Um adolescente de 16 anos foi baleado quando voltava do mercado no morro São João, em Engenho Novo, bairro vizinho ao Complexo do Lins, na zona norte da capital fluminense, onde, um dia antes, a designer de interiores Kathlen de Oliveira Romeu, de 24 anos, e seu bebê, que gestava há 14 semanas, foram mortos durante uma ação de policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da região. 

De acordo com informações do UOL, o jovem foi atingido no pescoço e encaminhado ao Hospital Salgado Filho, no Méier. A Secretaria Municipal de Saúde confirmou que ele passou por cirurgia e seu estado de saúde é estável. A ação também foi conduzida por PMs da UPP de São João que, em nota à reportagem, alegaram que os agentes “foram alvos de disparos de arma de fogo por criminosos”, o que teria provocado o tiroteio na região que atingiu o adolescente. 

O argumento é o mesmo usado para justificar a atuação dos militares que terminou com a execução da jovem negra no Lins. Kathlen, que havia deixado a comunidade há dois meses para morar com a mãe em outro local por conta da violência diária e se preparava para mudar com o namorado para um apartamento comprado por ela, havia ido visitar a avó na terça, quando, por volta das 14h, as duas deixaram a residência em direção a casa de uma tia da designer. Segundo disse a avó, Sayonara Fátima, ao portal G1, naquele momento não havia nada que indicasse que haveria um confronto letal entre policiais e criminosos. 

‘Confronto’ é justificativa para a violência

“Quando passamos, a rua estava tranquila. Foi tudo muito de repente, a minha neta caiu. Quando olhei era polícia de tudo o que é lado”, relatou. De acordo com laudo do Instituto Médico Legal (IML), o projétil da arma de fogo atingiu o braço de Kathlen e atravessou o tórax. A bala não ficou alojada no corpo, o que causou hemorragia interna e por consequência a morte da designer e seu bebê. Ela foi enterrada ontem no cemitério do Catumbi, no centro da cidade. 

O porta-voz da PM do Rio, o major Ivan Blaz, declarou à imprensa que a corporação, no momento do disparos, “não estava em operação”. Repetindo o argumento de que os agentes “foram atacados por traficantes” e reagiram.

A jornalista Marilu Cabañas conversou na edição desta quinta (10) do Jornal Brasil Atual com a ativista Monica Cunha, fundadora do Movimento Moleque, frente que atua em defesa dos direitos humanos, sobre a sequência de violência que tem acometido as comunidades do Rio. A ativista condenou as ações policiais. Segundo ela, tornou-se “roteiro” da corporação a tese de confronto para justificar as mortes. A manobra, explica, visa dar legalidade ao padrão de letalidade da polícia que, desde o ano passado, foi limitada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de realizar operações nas favelas e periferias fluminenses durante o estado de pandemia. 

‘Eles chegam atirando’

Moradores do São João e do Lins, que protestaram após a atuação da PM nas duas regiões, também contestam a versão de confronto da polícia. À Ponte Jornalismo, testemunhas que viram o momento em que Kathlen foi atingida apontaram que não havia criminosos e que os “policiais desceram a rua dando tiros, não apreenderam nada, foi tudo mentira”. Monica Cunha avalia que, pelo histórico, “não tem como acreditar na polícia que todo dia mata. Essa polícia traz as mesmas falas e desculpas todos os dias”, contestou. 

“Estão sem controle, freio, medo e totalmente sem respeito. Está uma terra de faroeste total, só quem é a mira desse faroeste somos nós, negros. É  sempre a mesma cor e quase que a mesma idade. Eles matam grávida, criança, adolescente, jovens. E os mais velhos são mortos pela pandemia de covid-19. Quer dizer, de qualquer forma eles eliminam a população negra”. O genocídio, ressaltado pela execução de Kathlen, grávida, ainda expõe, segundo a ativista, “como a maternidade da mulher negra é negada de todas as formas”.

Levantamento da plataforma Fogo Cruzado mostrou que, como a designer, desde 2017 outras 15 gestantes foram vitimadas pela violência armada. Ao todo, oito perderam a vida e nove bebês não resistiram. 

Segurança para quem?

“Nós, mães, sabemos a felicidade de ter um filho formado (na faculdade). Ela (Kathlen) tinha passado por essa fase, trabalhava, estava construindo uma família. (…) Ela estava como ‘manda o figurino’, ou como essa sociedade hipócrita gosta de falar ‘uma menina do bem’. O problema é que ela e sua família trazem na pele a cor negra, ela era um ser humano negro e por isso não podia ser essa família do bem. A tal família ‘doriana’ das fotos, porque o sujeito negro já é alvo, suspeito. Essa maternidade negada para nós mulheres negras ainda dentro do ventre, é negada quando criança, estão aí as Agathas, Marcos Vinicius, Kauans, e adolescentes”, cita Monica, em referência a outras vítimas da violência policial. 

A Polícia Civil informou que a Delegacia de Homicídios abriu uma investigação para apurar a morte de Kathlen. Mas a ativista reforça que é preciso discutir politicamente a segurança pública que, destaca, “não existe para pobre, preto e favelado”. “Temos um mês da chacina no Jacarezinho. Domingo fez 30 dias. Veio essa menina e, no enterro dela, o adolescente. A gente acorda já pensando “qual será o negro e a favela de hoje?”, lamenta Monica Cunha.

Confira a entrevista

Redação: Clara Assunção