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Caixa 2 ainda é problema grave no financiamento de campanha, diz Ethos

Para instituto de responsabilidade social, empresas que financiam candidatos têm "poder enorme" sobre os políticos, mas deveriam levar em conta compromissos sociais. "A questão do caixa dois é gravíssima", diz Oded Grajew
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 23/07/2010 17h08, última modificação 23/07/2010 17h19
Para instituto de responsabilidade social, empresas que financiam candidatos têm "poder enorme" sobre os políticos, mas deveriam levar em conta compromissos sociais. "A questão do caixa dois é gravíssima", diz Oded Grajew

São Paulo – Nas eleições de 2006 e 2008, o setor privado gastou R$ 4,6 bilhões em financiamento de campanhas, segundo o Instituto Ethos. Ao mesmo tempo, o fundo partidário corresponde a 4% desse montante. A organização destaca a pouca preocupação das empresas no sentido de cobrar critérios éticos dos candidatos que apoiam, o que fazem com que o exercício da democracia ganhe aspectos semelhantes a um negócio. As conclusões são parte de um estudo sobre a responsabilidade social das empresas nas eleições, lançado nesta sexta-feira (23) em São Paulo. O material foi feito em parceria com a Transparency International.

"Quem paga as campanhas têm um poder enorme sobre os politicos. Esse é o nó do quadro político brasileiro", afirma o presidente do instituto, Oded Grajew. "Hoje, ninguém se elege presidente ou governador sem um pesado financiamento privado", acrescenta. A avaliação é de que, além de caro, o financiamento privado é desigual. Assim, um candidato "viável" tem mais da metade de sua campanha bancada pelas empresas privadas. "Mais do que isso, o candidato depende muito de poucas empresas", observa o professor Bruno Speck, da Unicamp, autor do estudo.

Além da falta de critérios nos compromissos dos candidatos e dos altos gastos, o presidente do Ethos lembra que a questão do caixa dois continua predominante na política brasileira. "Não existem levantamentos, mas se você falar com um político em off ele vai dizer que vai de 60% a 70% (do total gasto na campanha)", afirma Oded Grajew. "A questão do caixa dois é gravíssima", acrescenta.

Negócio

O vice-presidente-executivo do instituto, Paulo Itacarambi, comparou a prática eleitoral no Brasil a um negócio. "A eleição é um evento de mercado, como a Fórmula 1. O receio é que seja apenas isso e não um momento da democracia no Brasil", avalia.

Se for visto como um negócio, esse "mercado" está em expansão. Apenas as duas últimas eleições custaram aproximadamente R$ 4,6 bilhões, resultado de 2,6 milhões de doações individuais.

Das 1.022 maiores empresas brasileiras, mais da metade (536, ou 52,4%) não contribuiu. Já o perfil entre as 486 empresas doadoras é bastante distinto. As dez maiores contribuíram com valores entre R$ 6 milhões e R$ 23 milhões cada, enquanto as 100 que gastaram valores menores contribuíram com até R$ 20 mil. Um quarto das empresas foi responsável por 87% do total. Ao mesmo tempo, o Fundo Partidário corresponde a parcela minoritária, em torno de R$ 200 milhões por ano.

O Instituto Ethos enfatiza que a decisão da empresa de participar do processo eleitoral via financiamento não pode ser feita com o objetivo de obter vantagens para a própria empresa ou para a sua área de atuação. "Nada escapa à questão da responsabilidade social. Financiamento é uma parte disso", diz Grajew. Ele cita como exemplo o pacto existente em relação ao trabalho escravo, pelo qual várias empresas se comprometem a não trabalhar com fornecedores que adotam essa prática.

O professor Bruno Speck sugere a fixação de um teto para o financiamento privado. "Essa medida aparentemente modesta seria revolucionária", acredita. "Muitas empresas querem mudar. Hoje já existe uma massa crítica. A população deveria perguntar qual é o critério da empresa (para apoiar uma candidatura). Se as empresas tiverem outro compartamento, haverá mudança", acrescenta Paulo Itacarambi.