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Colômbia anuncia acordo inicial com as Farc para fim do conflito interno

Em discurso, Santos agradeceu Cuba, Noruega, Chile e Venezuela pelo apoio nas negociações; presidenta Dilma emite nota oficial celebrando acordo
por Vitor Sion, do Opera Mundi publicado , última modificação 04/09/2012 19h10
Em discurso, Santos agradeceu Cuba, Noruega, Chile e Venezuela pelo apoio nas negociações; presidenta Dilma emite nota oficial celebrando acordo

No pronunciamento público, Juan Manuel Santos anunciou que o acordo consiste em uma visão conjunta para o término da violência no país (Reprodução: Telesur)

São Paulo – O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, anunciou hoje (4) a assinatura de um acordo inicial com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) para o fim do conflito interno no país. A próxima etapa nas negociações ocorrerá na primeira quinzena de outubro, em Oslo, na Noruega.

“Confirmo a assinatura do Acordo Geral para o Fim do Conflito, que consiste em uma visão conjunta e uma agenda para o término da violência no nosso país. Tenho a convicção de que estamos frente a uma oportunidade real de acabar de forma definitiva com o conflito interno”, afirmou o presidente.

Sustentado em três etapas, o acordo contará com cinco pontos principais exigidos pelo governo: desenvolvimento rural; garantias para o exercício político de oposição e da participação cidadã, fim do conflito armado e do narcotráfico; e, por fim, reconhecimento dos direitos e atendimento às vítimas.

“Todos os colombianos têm direito a saber o que aconteceu e quem foram os responsáveis pelo conflito. O acordo não é a paz e não é um acordo final, mas define com precisão os términos de discussão para chegarmos à paz, além de não repetir os erros do passado”.

Santos confirmou que o diálogo começou há cerca de seis meses, em Havana, com o acompanhamento de Cuba e Noruega, que “continuarão atuando nas próximas etapas da negociação”. Antes do início do diálogo, porém, também foi realizado um “trabalho preparatório”, de um ano e meio de duração.

“Quero agradecer aos governos de Cuba e Noruega. Sem seu apoio, não chegaríamos até aqui. Também gostaria de agradecer o governo da Venezuela, por estar sempre disponível em atuar no diálogo, e o do Chile. Esses países também continuarão observando as próximas fases do processo.”

O presidente se mostrou otimista para o sucesso do diálogo e elogiou as Farc por “terem respeitado tudo o que foi acordado até aqui”, mas garantiu que continuará com todas as operações militares e que não cederá “nenhum milímetro do território nacional”. “Se as Farc continuarem com a mesma seriedade, temos boas perspectivas de êxito. Peço paciência e força ao povo colombiano, ante um eventual aumento de violência por parte das Farc, que seria respondido com toda a contundência. O governo não fará concessões de nenhum tipo na parte militar.”

De acordo com o presidente, a negociação com a guerrilha pode ser realizada agora devido às mudanças ocorridas no mundo e, em especial na Colômbia, nos últimos anos.

“Hoje podemos falar de paz porque a Colômbia cresce e se abre ao mundo. O uso da violência para conseguir avanços políticos é coisa do passado. Não só a Colômbia, mas todo o continente quer viver em paz e nos apoia nessa iniciativa, possível devido ao êxito de nossa polícia e da presença do Estado em todo o território nacional.”

“Sei o que é o conflito, pois fui ministro da Defesa em um momento crucial, vi o sacrifico dos nossos homens. A visão do meu governo é integral. Combatemos pela paz, não combatemos por combater”, afirmou Santos, que ocupou o cargo durante o governo de Álvaro Uribe, critico ferrenho das negociações com as Farc.

Santos também afirmou que as negociações terão um tempo limitado, “de meses e não anos. “Se não houver avanços, não seguiremos com o diálogo.”

Ao final de seu discurso, o mandatário admitiu que as próximas fases do diálogo serão difíceis, mas disse que, se o desfecho não for positivo, ao menos “teremos a certeza de que fizemos o que era certo”.

“Há momentos na história em que um governante deve dizer se irá para novos caminhos, para resolver os problemas da sua nação. Este é um desses momentos. Sem dúvida há riscos. Mas a história seria muito mais severa conosco se não tentássemos aproveitar esta oportunidade. Todas as consequências cairão sobre os meus ombros e em ninguém mais.”

Declaração das Farc

Poucos minutos após o fim da declaração de Santos, foi a vez do líder das Farc Rodrigo Londoño, conhecido como "Timoshenko", anunciar suas expectativas para os próximos passos da negociação. Em discurso em frente a um cartaz com uma fotografia do fundador das Farc, Manuel Marulanda, Timoshenko disse que "a saída não é a guerra".

"Voltamos à mesa de negociações convidados e protegidos por aqueles que nos perseguiram", afirmou. O líder ainda disse que as Farc "estendem as mãos abertas" em busca da reconciliação: "outra Colômbia é possível".

Ele lembrou o fracassado Acordo de Caguán, última tentativa de paz entre as Farc e Bogotá, firmado há dez anos e definitivamente enterrado com a eleição do Álvaro Uribe. "As Farc guardam a aspiração que o regime não tente repetir a mesma armadilha do passado."

"Juramos vencer e venceremos", disse o guerrilheiro ao final da transmissão, após citar os nomes de todos os altos membros das Farc mortos desde a fundação da guerrilha. 

A presidenta Dilma Rousseff afirmou em nota que o início das conversações entre o governo da Colômbia e as Farc para firmar um acordo de paz é motivo de celebração.

Leia a íntegra da nota:

"O anúncio de conversações de paz entre o Governo da Colômbia e as Farc é motivo de celebração em toda a América do Sul e no mundo. Expressei ao presidente Juan Manuel Santos, que me antecipou pessoalmente sua decisão, o apoio do governo brasileiro à iniciativa. O êxito das negociações trará grandes benefícios para o povo colombiano e consolidará a imagem de uma América do Sul que realiza hoje grandes transformações em paz. Nossas sociedades repudiam o uso da violência – venha de onde vier – para enfrentar os problemas econômicos, sociais e políticos da região. O Brasil historicamente tem defendido o diálogo e a negociação. Estou segura de que os atores envolvidos nesse processo de paz e reconciliação nacional terão a visão política e a sensibilidade social para pôr em primeiro lugar este grande país que é a Colômbia. Essa será a melhor maneira de homenagear as vítimas de tantas décadas que trouxeram dor e pesar aos colombianos. A tão almejada paz na Colômbia será uma grande contribuição desse país irmão à integração sul-americana."