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Combate à covid-19: conheça as propostas dos candidatos à prefeitura de São Paulo

O ano de 2020 foi marcado pela pandemia . Às vésperas das eleições, os candidatos à prefeitura de São Paulo divergem – e muito – sobre o tema. Entenda

Tânia Rêgo/Agência Brasil
Diante de todos os problemas provocados pela covid-19, que também envolvem uma crise econômica sem precedentes, o que dizem e propõem os candidatos à prefeitura de São Paulo sobre o tema?

São Paulo – O Brasil é o segundo país com mais mortos pela covid-19 no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Já são oficialmente 163.368 mortos e 5.747.660 infectados nesta que é a pior crise sanitária no país em mais de 100 anos. A cidade de São Paulo é a mais afetada, com 13.765 mortos e 376.281 casos, de acordo com balanço da prefeitura de hoje (12). Os números da capital superam nações inteiras como Canadá, Equador, Israel e Portugal, entre outros.

Este cenário sombrio ainda não representa a realidade, já que o Brasil testa pouco para a covid-19. Apenas 21,9 milhões de brasileiros já realizaram algum tipo de exame para o novo coronavírus, pouco mais de 10% da população. Europa e Estados Unidos apresentam taxas ao redor de 40%. Testagem em massa seria essencial para controle da pandemia, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.

Diante de todos os problemas provocados pela covid-19, que também envolvem uma grave crise econômica, o que dizem e propõem os candidatos à prefeitura de São Paulo sobre o tema?

No discurso

A reportagem da RBA, em mais uma matéria especial sobre as propostas dos candidatos, selecionou os cinco mais bem colocados na última pesquisa Ibope. Eles foram questionados sobre que providências pretendem tomar, se eleitos, para combater a disseminação da covid-19, além de reduzir seus impactos sobre a economia da cidade. São eles: Bruno Covas (PSDB), Guilherme Boulos (Psol), Celso Russomano (Republicano), Márcio França (PSB) e Jilmar Tatto (PT).

Jilmar Tatto

O petista sempre assumiu uma postura rígida e responsável em relação à covid-19. Tatto se solidariza com as vítimas da covid-19 e chegou a gravar uma mensagem para as famílias dos mais de 160 mil mortos no país. O candidato defende ampla testagem como estratégia para controlar a pandemia.

Tatto não poupa críticas à atual administração, de Bruno Covas, e aponta caminhos que teria tomado. “Deveria fazer a testagem em toda população, a começar pelas crianças e idosos da cidade de São Paulo. Não está fazendo. Deveria estar reformando as escolas, para preparar, inclusive, a volta às aulas, provavelmente no ano que vem”, disse em sabatina da Folha de S.Paulo no dia 30 de outubro.

Na ocasião, o político acusou a administração Covas de “omissão, insensibilidade e crueldade. Porque a prefeitura, neste momento, tem R$ 19,6 bilhões em caixa (…) É uma insensibilidade muito grande por parte do prefeito. Ele não está nem aí, ele está tratando a pandemia de forma burocrática, de forma insensível, sendo que a prefeitura tem dinheiro em caixa, e poderia estar fazendo uma grande frente de guerra de combate à pandemia”.

Sobre vacinas, Tatto defende a obrigatoriedade. “Não há sentido em polemizar com um assunto tão sério e colocar em risco nosso povo”, disse ao Metrópoles. Ele argumenta que sua visão está alinhada com as “maiores autoridades sanitárias, que são uníssonas em defender a obrigatoriedade de vacinas para preservação de vidas”.

Bruno Covas

O atual prefeito e candidato à reeleição sustenta um discurso de “responsabilidade” diante da covid-19. O tucano, em suas falas, sempre afirma ser guiado pela ciência, tanto em questões de isolamento social como relacionadas às vacinas, por exemplo. “Essa é uma questão (das vacinas) para ser definida pela área da ciência. Temos um sistema nacional de vigilância sanitária que há anos opera no país, que é inclusive, referência para outros países mundo afora”, disse, em sabatina da Folha de S.Paulo no dia 5 de novembro.

Entretanto, algumas ações do prefeito durante a pandemia são questionáveis, o que o faz alvo frequente de ataques dos adversários. Uma delas foi o “mega rodízio” de veículos, adotado no início da pandemia com intenção de aumentar o isolamento social. Em uma semana a medida foi suspensa. As críticas foram no sentido de que, ao impedir mais pessoas de usarem seus carros, isso sobrecarregaria o transporte público, o que aumentaria o contágio da covid-19.

Bruno defende sua decisão. “Durante a semana do rodízio, esse índice [de isolamento] não só deixou de cair, como voltou a crescer, o que foi fundamental, porque duas semanas depois começamos a reduzir a quantidade de óbitos na cidade de São Paulo. Mostrando o acerto da decisão. Não houve qualquer piora nos índices, muito pelo contrário”, disse. Entretanto, em sua propaganda eleitoral veiculada em rádio e TV, o tucano frisa, sem citar este fato específico, que “fomos pegos de surpresa, não existem manuais de como agir em uma situação como essa”.

Guilherme Boulos

O candidato pelo Psol também critica a gestão Covas e defende ações multilaterais para garantir segurança sanitária. Entre elas, medidas econômicas. “Bruno Covas dizia ‘fique em casa’, mas não garantiu renda dos trabalhadores informais, não ajudou pequenos comerciantes e diminuiu linhas de metrô e ônibus aumentando a aglomeração. Não é um acaso que São Paulo é a terceira cidade do mundo com mais mortes por coronavírus”, afirmou, por meio de redes sociais.

Boulos defende a retomada de comércio e aulas apenas quando todos os parâmetros de segurança forem alcançados. O candidato também critica a pressão de setores econômicos para reaberturas de escolas, por exemplo. “Sou professor e sou pai. Defendo que o retorno às aulas deva acontecer quando houver segurança para isso”, disse, em sabatina da Folha de S.Paulo no dia 4 de novembro.

Em relação a uma segunda onda de casos e mortos, o candidato prefere não apontar diretamente para o lockdown, mas sim para medidas de rastreio de contágios. Algo feito com sucesso por países como Uruguai e Coreia do Sul. “Tem que se fazer o que não se fez: testagem em massa, usar os agentes de saúde da família, identificar quais são os focos de contágio e fazer isolamento utilizando equipamentos públicos. As escolas estão fechadas há sete meses, 1,4 mil equipamento públicos não foram usados em nenhum momento”, disse ao G1.

Sobre vacinas, Boulos defende a utilização de agentes comunitários para conscientizar e vacinar os paulistanos. O candidato ainda critica e lamenta que a questão tenha sido politizada no país. “Vou ouvir infectologistas, médicos e comprar (as vacinas recomendadas). Aliás, o prefeito que não fizer o mesmo estará prevaricando”, disse, em compromisso de campanha realizado no início do mês, no bairro de Sapopemba, zona leste da cidade.

Celso Russomano

Russomano é o representante do bolsonarismo e do negacionismo em São Paulo. O candidato que mais cai nas pesquisas, além de coadunar com as posições de desdém com a vida dos brasileiros, já cometeu gafes em falas sobre o tema. Entre elas, quando atribuiu uma suposta maior imunidade de moradores de rua à covid-19 ao fato de essa população ter menos acesso a medidas de higiene pessoal. “(Adoecem menos) porque convivem o tempo todo nas ruas, não têm como tomar banho etc.”, afirmou.

Em outra gafe, Russomano mostrou que não possui conhecimentos básicos sobre doenças. O candidato apoiado por Bolsonaro recomendou que vacinas fossem testadas em pessoas já doentes, além de crianças e idosos. “A vacina está sendo testada em adultos sãos, nenhum com covid. Não está sendo testada em crianças, não está sendo testada nos idosos e não está sendo testada nos doentes. São as etapas obrigatórias que uma vacina deve passar. Isso não está acontecendo”, disse, em sabatina da Associação Paulista de Imprensa.

Márcio França

O candidato do PSB critica a condução do governo Covas em relação à covid-19. França se posiciona como um “anti Doria” na corrida eleitoral, e lamenta São Paulo ser líder em casos e mortos na pandemia. ” Isso é falta de pulso, falta de prefeito. A população precisa de um líder”, disse em convenção do PDT realizada em setembro.

França ainda disse “não descartar” a possibilidade de lockdown caso o cenário da pandemia se agrave durante seu mandato. Sobre a obrigatoriedade da vacinação, o candidato se esquiva e diz que é cedo para falar sobre o assunto. “O que as pessoas querem hoje é previsão. É vergonhoso anunciar vacina que não existe. Até hoje tem gente que não sabe o que pode abrir ou não (de estabelecimentos comerciais), de tanta confusão”, afirmou em sabatina do El País, realizada no dia 14 de outubro.

Já em sabatina do Metrópoles, França subiu um pouco o tom. Disse que a vacinação será “obrigatória a todas as pessoas de bom senso”, mas que “temos que lembrar que, mais uma vez, a previsão sobre a disponibilidade da vacina foi adiada. É difícil contar com os ovos antes da galinha”.

No programa de governo

A maioria dos candidatos cita a pandemia de covid-19 em seus programas de governo, entregues às autoridades da Justiça Eleitoral. O novo coronavírus pauta propostas diversas em relação à retomada da economia, segurança sanitária, aumento na oferta de transporte público, entre outros. A RBA selecionou algumas propostas dos cinco candidatos que lideram a corrida na capital.

Jilmar Tatto

O petista é o candidato que mais fala sobre a covid-19 em seu programa de governo. “Covid-19” aparece 25 vezes no texto, incluindo capítulos exclusivos sobre o tema. Destaca-se uma lista, chamada “13 Compromissos do Partido dos Trabalhadores para o Enfrentamento da Covid-19 na Cidade de São Paulo”, com medidas e ações.

O programa de Tatto faz um histórico da pandemia na cidade e passa por temas relevantes como saneamento, transporte público e economia. “Quando o mundo recebeu os primeiros impactos da pandemia decorrente do novo coronavírus – consequência de desequilíbrio ambiental –, a economia brasileira já estava em situação lastimável. Como se isso não bastasse, o governo federal confundiu a percepção da população quanto à gravidade da pandemia, contribuindo para aumentar o número de mortos e doentes.”

Entre as propostas presentes estão: “Renda Básica Cidadã (…) É proposta do PT realizar, de forma imediata, a complementação dos benefícios do Programa Bolsa Família para R$ 100 por pessoa das famílias beneficiárias, além de instituir a Renda Básica de Cidadania, pagando benefício em moeda própria do município; Massificação dos testes; Plano emergencial para levar os serviços médicos e sanitários a todos; Negociar a suspensão de ordens de despejo e remoção; Implementar iniciativas voltadas às bicicletas; Implantar wi-fi livre, de banda larga, em toda a cidade, ampliando e viabilizando o acesso de educadores e educandos; Oferecer alternativas seguras para o cuidado dos filhos menores de mães e pais obrigados a trabalhar durante a pandemia”.

Bruno Covas

O tucano cita a covid-19 quatro vezes em seu programa de governo. Ele reafirma que, em 2020, “enfrentamos um desafio de proporções que ninguém no mundo conseguiria prever e, mesmo assim, podemos dizer que conseguimos realizar o que a política tem de mais valioso: melhorar a vida das pessoas”.

Ele segue ressaltando ações da prefeitura, como a construção de dois hospitais de campanha em menos de duas semanas. “Quando o vírus ainda não tinha chegado ao Brasil, a rede municipal de saúde e assistência já estava se preparando para enfrentar a pandemia. Nosso preceito foi aproveitar o conhecimento produzido pela ciência até então e, as experiências aplicadas pelos países que estavam à nossa frente na escalada da covid-19.”

Na área de propostas, o tucano fala pouco. Ele cita a pandemia apenas uma vez ao falar sobre a ampliação de áreas verdes na capital. “Aceleradas com a pandemia da covid-19, as mudanças na forma de viver e de conviver reforçam a constatação de que a economia circular figurará, cada vez mais, como oportunidade econômica. A ordem é buscar frear a degradação dos recursos naturais e remunerar de forma mais justa os diferentes atores das cadeias de produção.”

Guilherme Boulos

O candidato do Psol fala 12 vezes sobre a covid-19 em seu programa de governo. A primeira citação versa sobre a questão dos imigrantes. “Incluir os migrantes nos planos municipais emergenciais de enfrentamento às consequências socioeconômicas da pandemia de covid-19.”

Ao propor o combate às desigualdades intensificadas pela pandemia, o programa de Boulos segue para propostas do âmbito educacional. Existe um capítulo dedicado à covid-19 e as escolas. Entre as diretrizes estão: “Permitir o retorno às aulas presenciais somente quando for seguro; Ampliar o número de profissionais para atendimento adequado dos estudantes no retorno às aulas; Adequar as escolas para o cumprimento dos protocolos de segurança sanitária; Garantir equipamentos eletrônicos e internet para todos os estudantes durante o período de pandemia”.

Em outro ponto, Boulos destaca a necessidade de melhorias na questão da mobilidade urbana, para se adequar à realidade imposta pela doença. “É dever da Prefeitura garantir o direito de mobilidade – acessível, confortável, higiênico e com o mínimo tempo gasto no deslocamento – aos cidadãos.”

Celso Russomano

Alinhado com o negacionismo bolsonarista que envolve a candidatura de Russomano, ele não fala sobre a covid-19 em seu programa de governo.

Márcio França

O candidato do PSB fala brevemente sobre o novo coronavírus em seu programa de governo. O tema está presente no capítulo que versa sobre estruturas e equipamentos de saúde na capital.

“Reformar todos os hospitais com necessidades estruturais, bem como concluir as obras do sistema de saúde pública que estão paradas. Sabe-se que a Capital Paulista possui enorme déficit em leitos de hospitais e, recentemente, com a pandemia causada pelo coronavírus tal deficiência se mostrou mais latente. O atual Governo Municipal investiu milhões na construção de hospitais de campanha sendo que estes recursos poderiam ter sido utilizados na recuperação de hospitais já construídos e que poderiam servir, de forma permanente, ao atendimento da população.”