Pandemia

Brasil corre risco de ficar sem equipes de saúde, alerta especialista

Em meio ao afrouxamento do distanciamento social, país registra aumento no número de casos e de mortes; Profissionais de saúde são 20% dos infectados

Prefeitura de Jundiaí
Profissionais de enfermagem são os mais expostos ao risco de contrair covid-19, mas seguem sem EPI e treinamento adequados

São Paulo – Se o isolamento social não for adotado conforme preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conter o novo coronavírus, o Brasil corre o risco de uma escalada no contágio e no número de mortes, com grande impacto também sobre as equipes de saúde. Enquanto nos demais países é de 10% a taxa de contaminação entre médicos, enfermeiros, técnicos, administrativos e demais profissionais que estão na linha de frente nos hospitais, no Brasil é o dobro. E esse índice pode seguir aumentando caso não sejam tomadas as providências necessárias. O alerta foi feito na tarde de ontem (16) pelo representante do Ministério da Saúde no Conselho Nacional de Saúde (CNS), Neilton Araújo de Oliveira.

De acordo com o Observatório da Covid-19 da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, o Brasil tem 30.891 casos confirmados da doença e 1.952 mortes. Os dados, baseados em informes das secretarias estaduais e municipais de saúde, são subnotificados. Não há levantamento oficial do número de profissionais da saúde afastados em todo o país por estarem com covid-19 ou apresentarem sintomas suspeitos. Só no estado de São Paulo, onde é maior o número de infectados e mortos, são quase 5 mil desses trabalhadores afastados.

A preocupação de Araújo, que é docente no mestrado profissional em Ciências da Saúde na Universidade Federal do Tocantins (UFTO), é com posicionamentos que venham divergir daqueles defendidos pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, demitido ontem (16) pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “A equipe do ministro (Nelson Teich) parece unida em respeitar os dados científicos. Defendemos que venha com o compromisso nesse sentido.”

E preocupa-se também com “previsibilidades” em relação à covid-19. Ou seja, especulações em torno do futuro da doença que possa colocar em risco cuidados no presente, quando a grave crise sequer foi debelada.

Nesta terça-feira (14), a revista Science publicou um estudo de pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, que sugere a necessidade de medidas de distanciamento social, de maneira intermitente, até o ano de 2022. Para os cientistas, somente este atual período de isolamento não será suficiente para manter a pandemia sob controle.

Em entrevista à RBA, Araújo foi veemente na defesa do fortalecimento do isolamento social já, como medida fundamental para evitar o colapso do sistema de saúde no Brasil, que não está preparado para atender à demanda que vai surgir no pico do contágio. De resto, tudo que possa levantar dúvidas sobre a efetividade do isolamento para conter a doença sob controle deve ser visto com cuidado.

“Qualquer previsibilidade agora é chute. O vírus está chegando à população mais pobre agora. O isolamento total nessa fase aguda é o melhor a fazer. De quem se infectar, 80% não vai apresentar sintomas. E se apresentar, serão leves. Metade dos 20% vai precisar de internação em UTI equipada com respiradores por pelo menos duas semanas. Além dessa demanda, o Brasil tem as demais, que normalmente já exigiam do sistema de saúde. E como vai ser? A China conseguiu montar mil leitos em dez dias. E contava com a direção do governo nesse sentido e dos comitês de bairro, com ampla participação, que controlavam o isolamento, o que não acontece aqui”, disse

Criticando a trajetória de Jair Bolsonaro na defesa de políticas que aumentam os riscos à vida, que culminou com a negação da gravidade da covid-19, o especialista cobrou liderança, responsabilidade, grandeza e união. A pandemia, que é uma questão humanitária e não simplesmente econômica, é prioridade neste momento.

“Não podemos aceitar que uma pessoa se contamine porque não tem assistência. São os trabalhadores que produzem a riqueza que nunca foi taxada nesse país. Até agora, não foi colocado dinheiro novo nas ações emergenciais, apenas recursos dos próprios trabalhadores. Em todos os países com melhor comportamento diante da pandemia houve uma aliança entre a sociedade, governo, empresários, políticos e todos assumiram a sua parte. É hora de exercer a humanidade, a solidariedade entre os povos. Essa epidemia precisa ser usada como lição. Os políticos todos têm de entender que foram eleitos para servir a sociedade e têm de servir.”

Medidas dificultadas

A presidenta do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), a sanitarista Lúcia Souto, também cobrou esforços para a ampliação do isolamento social e da oferta de leitos para doentes de covid-19 em estado grave, especialmente UTIs equipadas com respiradores. “As pessoas que serão internadas vão precisar pelo menos de insumos. Em São Paulo e Rio de Janeiro mais de 70% dos leitos estão estão ocupados. Estamos pisando no fio da navalha”, disse.

Lúcia destacou que o índice de mortalidade no Brasil só será baixo se o sistema de saúde conseguir oferecer atendimento no momento necessário. Além disso, é preciso proteger os profissionais de saúde, que estão depauperados, a maioria sem os equipamentos de proteção individual necessários. “Quando se fala de UTI não é só a cama, é tudo: os equipamentos, os profissionais.”

A sanitarista também critica a postura de Jair Bolsonaro, que se limita a minimizar a pandemia quando deveria tomar providências. E cita os protótipos de equipamentos que estão sendo desenvolvidos pelas universidades sem que o governo os mande fabricar. Para ela, toda essa situação grave se completa com a “desigualdade abissal” nas periferias.

Sem água, ficam refém de um falso dilema entre morrer de fome ou de covid-19 porque as medidas estão sendo dificultadas por bobagens, quando há tecnologia suficiente para que as pessoas recebam a ajuda emergencial de R$ 600, o que pode impedir a pessoa de aderir ao isolamento”, disse.

O fato traz imensa preocupação, segundo ela. “Diante de uma crise sem precedentes e um presidente que aposta no caos, a palavra chave é união para salvar a vida das pessoas e para pacificar o país, ter unidade, paz, tranquilidade, acreditar na ciência e revigorar o SUS. Nesse momento, o SUS precisa de um aporte imediato de R$ 42,5 bilhões, devido a perdas pela Emenda Constitucional (EC) 95, que tem de ser revogada.”