eleições 2020

Fake news e pânico moral nas eleições precisam ser combatidos continuamente

Desinformação, fake news e pânico moral conservador inundam as eleições e minam a democracia. A desconstrução dessas máquinas leva tempo e trabalho

Reprodução/Via JusBrasil
Justiça Eleitoral investiu em campanha contra desinformação, mas é lenta ao investigar e punir as mentiras que desvirtuam os resultados eleitorais e comprometem a democracia

São Paulo – Desinformação, difamação e fake news são problemas estruturais durante o processo eleitoral. As práticas afastam o eleitorado do debate necessário sobre os problemas da sociedade e minam o progresso democrático. Durante as eleições municipais de 2020, muitas candidaturas se queixaram dessas, inclusive na Justiça. É o caso de São Gonçalo (RJ). O segundo maior colégio eleitoral do Rio de Janeiro viveu um segundo turno inundado pela interferência de, sobretudo, desinformação. A RBA conversou sobre essas ocorrências com o candidato derrotado no pleito da cidade, Dimas Gadelha (PT) e com o professor Rodrigo Ratier, do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, mestre e doutor na área de mídia e educação.

Nas eleições municipais, palco de espertalhões, a mentira atropelou a verdade

Gadelha ingressou na Justiça com diferentes ações para tentar frear a divulgação intensa de conteúdos falsos e difamatórios sobre sua campanha. Mesmo liderando as pesquisas de intenções de voto e sendo o mais votado no primeiro turno, venceu com 31,4% ante 22,8% do adversário, o petista acabou derrotado pelo opositor bolsonarista Capitão Nelson (Avante).

Para o Gadelha, a campanha de desinformação foi determinante na mudança do quadro. “Impactou sem dúvida nenhuma no resultado. Tivemos uma grande ação da base do Bolsonaro invocando o antipetismo e mentiras”, disse. Diante de uma população de maioria evangélica, os ataques e mentiras sobre questões moralistas falaram mais alto do que as propostas para a cidade.

Desinformação e fake news

Entre as acusações contra o candidato, apelos sobre temas já tradicionais da extrema direita brasileira. “Foram coisas absurdas. Falaram em ideologia de gênero, falaram que teria um terceiro banheiro nas escolas (unissex). O pastor Silas Malafaia também foi para as redes sociais dizer que eu ia defender ideologia de gênero, promover isso nas escolas. Uma coisa de louco. Funcionou”, afirma Dimas.

Além da desinformação em plataformas on-line, a campanha na cidade fluminense também ganhou corpo físico, com mentiras sendo ditas em carros de som e até mesmo folhetins e jornais locais. “Teve folhetos, jornais impressos, além dos carros de som. Entramos na Justiça contra algumas dessas mentiras e ganhamos algumas. Outras não foram julgadas. Mas estamos aguardando. Sabemos que é difícil alterar resultado de eleições”, disse Dimas.

Pânico moral

Rodrigo Ratier explica que essas questões não são fake news, mas sim campanha de desinformação e preconceito. Para o especialista, as eleições de 2020, aparentemente, não tiveram influência sistêmica de máquinas de criação de notícias falsas. Mas os apelos à difamação e às mentiras foram mantidos. “Houve sim o pânico moral em questão de princípios e costumes.”

“De forma geral, as fake news como onda não se materializaram como em 2018. Houve sim o pânico moral em questão de princípios e costumes (…) Até por tratarmos de eleições municipais. Em âmbito federal, ai sim, temos uma máquina de fake news que é a bolsonarista, mais fortemente ligada. Nas eleições municipais ela fica difusa, muitas eleições acontecendo”, disse Ratier.

O pesquisador lembra que os preconceitos e ataques sobre questões morais não são recentes na história das eleições no Brasil. “As campanhas sofreram com preconceitos mesmo. Lembro que em 2010 a Dilma teve que dar declarações contra o aborto porque o José Serra estava insinuando que ela legalizaria o aborto, esse tipo de coisa.” Na ocasião, Dilma afirmara ser pessoalmente contra, mas que o tema deveria ser tratado como assunto de saúde pública, e não como valor moral a ser tratado em época de eleição.

Compromisso

O caso de São Gonçalo também encontrou paralelos, com particularidades em cada situação, em Porto Alegre e Recife. Nas capitais, as candidatas progressistas, Manuela D’Ávila (PCdoB) e Marília Arraes (PT), também foram alvo de campanhas de difamação concentradas em questões que tocam os conservadores como aborto e temáticas relacionadas à sexualidade.

“Teve um uso dos gêneros da desinformação à serviço de candidaturas esparsas (…) Lembro do folheto com várias coisas sobre a Marília Arraes no Recife, aquilo é desinformação. As pautas de costume têm sido mobilizadas. O objetivo sempre é criar algum pânico moral que leve as pessoas a criar uma repulsa através da ideia de que vão corromper valores, crianças, ameaçar propriedade, enfim”, explicou Ratier.

Diante da desinformação a serviço das pautas ultraconservadoras, Dimas chegou a assinar uma carta compromisso com a Igreja Cristã. No texto, ratificou posição contrária ao aborto e à “ideologia de gênero”. A postura defensiva foi a mesma encampada pela Dilma em 2010 e até mesmo por Lula em 2002 no aceno ao setor econômico com a “Carta ao Povo Brasileiro”, em que se comprometia a manter contratos nacionais e internacionais.

“Lula mesmo sofreu tanto preconceito. Diziam que 800 mil empresários iam sair do país. Isso remete a táticas antigas na política com essa nova roupagem da desinformação”, lembra Ratier, referindo-se a uma ameaça do empresário Mario Amato, então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) às vésperas da eleição presidencial de 1989.

Já diretamente sobre a questão de São Gonçalo, o especialista criticou a assinatura do compromisso que, em si, já continham desinformação. “O candidato do PT se posicionou com uma carta contra ideologia de gênero, o que me parece até impróprio, já que não existe ideologia de gênero.”

Defensiva

Contudo, o pesquisador lembra que “essa é uma alcunha formada pela direita. O que temos é teoria e discussão sobre gênero e sexualidade. Isso vem sendo demonizado pela extrema direita”, e apontou que achou “impróprio negar o compromisso histórico das candidaturas progressistas”.

Entretanto, ao considerar o contexto, a postura defensiva acaba sendo inevitável – constrangendo e irritando o eleitorado progressista. Especialmente em um contexto de corrida eleitoral curta, em um segundo turno de eleição municipal. Mas Ratier pondera: “Sobre estar sempre na defensiva, não consigo ver alternativas a não ser responder a partir do momento em que a notícia falsa ganha tração”. Segundo ele, um candidato isolado que queira combater fake news no segundo turno vai sempre estar em posição de desconforto. “É uma batalha um pouco perdida, porque o boato se propaga muito rápido.”

Então, soluções e remédios devem ser tratados com um prazo maior por forças democráticas. “É um cálculo, não adianta o candidato querer se livrar desses problemas em momentos eleitorais. Se trata de uma questão social, multilateral. Não dá pra apagar incêndio com conta-gotas. O que está à mão no momento é tentar desmentir, provar quem financia, mostrar ações orquestradas”, disse.

Bala de prata

“Não existe bala de prata. No longo prazo, trabalhar com educação midiática. Hoje, é uma necessidade de diversas instituições, trazer a comunicação para o centro da mesa. Como ler um conteúdo de forma crítica, como se relacionar com as redes sociais. É um trabalho de longo prazo e contínuo (…) Isso veio para ficar. É um combinado de ações de educação, ações do Estado, como as investigações sobre quem financia fake news, a importância das plataformas de tecnologia para coibir esse tipo de desinformação. Precisamos avançar”, observa o professor de Jornalismo.

Dimas Gadelha concorda com o trabalho de longo prazo apontado por Ratier e traça esse combate como meta futura. “Precisamos manter a população mais informada. Acho que o grande trabalho é falar sobre fake news, informar a população. Essa prática de mentiras é antiga, aconteceu já em outras eleições por panfletos, jornais. Vamos ficar atentos ao atual governo. Temos de acompanhar reformas que propomos. Acompanhar, discutir a cidade e trabalhar contra as fake news.”