Congresso Nacional

No enfrentamento a Bolsonaro, oposição adota diálogo e mostra maturidade

Para analista do Diap, lideranças vêm abrindo mão de lutar por protagonismo e de discursos que poderiam comprometer vitórias parlamentares de interesse dos trabalhadores

Agência Câmara
Com pandemia, votações importantes, como a do auxílio emergencial, foram feitas remotamente, com vitória da bancada de oposição ao governo Bolsonaro

São Paulo – Após um ano e meio do governo de Jair Bolsonaro e com o Congresso Nacional mais conservador desde a redemocratização do país nos anos 1980, a esquerda brasileira tem desempenhado papel de resistência, mas passou a adotar uma postura mais madura para compensar uma bancada de oposição que pode chegar no máximo a 135 deputados, dependendo da votação. Em várias decisões importantes, esquerda e centro-esquerda têm privilegiado o diálogo e o pragmatismo, em vez do discurso do confronto. Com isso, por exemplo, conseguiu que a reforma da Previdência, embora aprovada, fosse menos prejudicial ao país e à sociedade como um todo do que se tivesse passado o projeto original do governo.

Em outra votação, a mais importante no contexto da pandemia de coronavírus – que já matou mais de 70 mil pessoas no país –, a ajuda emergencial de R$ 600 foi aprovada por pressão e organização da esquerda e da oposição como um todo. Inicialmente, o projeto do governo previa um benefício irrisório de R$ 200.

Segundo Antônio Augusto de Queiroz, o Toninho, analista do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a oposição tem levantado os temas de sua agenda, os quais sistematiza e propõe. No entanto, suas lideranças vêm abrindo mão de lutar por protagonismo e discursos que poderiam irritar o irascível Bolsonaro e comprometer vitórias parlamentares.

O auxílio emergencial é emblemático nesse sentido. Com relatório do deputado Marcelo Aro (PP-MG), do Centrão, o valor de R$ 600, defendido pela oposição, foi aprovado após ampla negociação envolvendo setores da centro-direita e com apoio do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Após o texto ser aprovado, a deputada e presidenta do PT, Gleisi Hoffmann (PT), consciente da vitória incontestável da oposição, ao microfone, dirigiu-se a Maia e ao relator: “Quero louvar a sua posição e a do relator, que prontamente elevaram a renda mínima que teremos na emergência”.

“Se a defesa dos 600 reais tivesse partido de um deputado do PT, do PCdoB, o governo não iria negociar. Esse aprendizado a esquerda teve. Se ela se lançasse à linha de frente, prejudicaria a população em função de um protagonismo que traria prejuízo ao país, ao contrário da ação estratégica como a que teve”, diz Toninho.

Outras frentes

Assim também aconteceu na reforma da Previdência, da qual, com ajuda do Centrão, a oposição conseguiu retirar do texto o regime de capitalização, impediu a destruição do abono salarial, a descaracterização do BPC e prejuízos aos trabalhadores rurais, entre outras “maldades” contra os trabalhadores.

Muito contrariados com Bolsonaro, que os classificava como corruptos e mentores da “velha política”, os parlamentares do Centrão partiram para o contra-ataque e apoiaram esses e outros pontos caros à oposição em várias votações, como no caso do que ficou conhecida como PEC do “Orçamento de Guerra”, que previa redução de até 50% dos salários de servidores e servidoras.

“Se a oposição não tivesse sistematizado e pressionado, não teria condições de fazer o enfrentamento e ganhar. Como organizou, facilitou a vida de quem tinha condições de fazer isso”, avalia o analista do Diap.  Já a intenção do Centrão era de se apresentar perante a opinião pública como um grupo responsável e que agia de acordo com o interesse do país, não exatamente os do governo Bolsonaro.

A oposição derrotou o governo Bolsonaro também na Medida Provisória 905, “uma reforma trabalhista muito pior do que a do Temer”, segundo o deputado Rogério Correia (PT-MG). A medida introduzia a “carteira de trabalho verde-amarela”, que caducou no Senado. Outra derrota do governo foi em relação à MP 922, que também caducou. Ela ampliava as hipóteses de contratações temporárias no serviço público e inviabilizaria os concursos públicos

Para Correia, a aproximação de Bolsonaro com o Centrão deu ao presidente mais estabilidade na Câmara, em especial  para projetos sobre economia. “Há ainda uma unidade das elites econômicas e do capital financeiro e produtivo em torno dessas medidas ultraliberais”, afirma, lembrando as reformas da previdência e trabalhista e o anúncio de que o governo quer privatizar quatro grandes estatais em breve.

Governo de incompetentes

Já na opinião do deputado Ivan Valente (Psol-SP), a adesão do Centrão e de outros setores da direita e centro-direita a Bolsonaro “não está tão clara, principalmente após o escândalo Fabrício Queiroz”.

“A posição de centro-direita e direita não é uniforme”. As votações em que as teses da oposição venceram mostraram que “a incompetência, a incapacidade gerencial e a falta de vontade de Bolsonaro e seu governo” colocaram o protagonismo para a Câmara dos Deputados e também proporcionou à oposição um protagonismo maior do que seu tamanho real na Câmara, com seus cerca de 135 deputados.

“Não temos ministro da Saúde no meio de uma pandemia, não tem ministro da Educação, o meio ambiente está sendo destruído. Isso tudo colocou os parlamentares do Centrão (antes de aderir ao governo) na defensiva e setores da oposição na ofensiva”, diz Valente. “E o país não sobreviveria sem o auxilio emergencial”, acrescenta, lembrando que a oposição vai pressionar não só por uma prorrogação como pela proposta de que o benefício seja permanente.

Como emblema do nível do governo, Valente cita a “pérola” dita nesta sexta-feira por ninguém menos que o ministro das Comunicações, Fábio Faria, genro de Silvio Santos, que afirmou, em entrevista à CNN Brasil, que a Amazônia “tem 87% de Mata Atlântica”. “É uma barbaridade a ignorância das pessoas deste governo”, observa Valente, sem conseguir conter o riso.

Para os deputados, as mobilizações sociais contra Bolsonaro serão fundamentais para enfraquecer o presidente. “Quando houver mobilização da massa maior, o isolamento de Bolsonaro vai aumentar”, diz o deputado do Psol.

“Não podemos vacilar na unidade da esquerda e dos movimentos nas ruas, principalmente no pós-pandemia, e nas urnas, nas eleições. A crise social e a miséria vão se ampliar. É o movimento social que vai ser determinante, porque o agravamento da miséria vai ser grande e a insatisfação também”, afirma o petista.

Edição: Fábio M. Michel