Inimigo comum

Brasil passa de 70 mil mortos pela covid-19. OMS lamenta falta de líderes solidários

“Não podemos enfrentar essa pandemia com o mundo dividido. Por que é tão difícil para os humanos se unirem?”, disse, emocionado, o diretor da OMS

legado lima 2019
"Naturalizar adoecimentos e mortes é algo grave, desumano e antiético. Como epidemiologista, meu dever é o de antecipar o pior", disse o epidemiologista, que previu a segunda onda de contaminação de covid-19 que atualmente ocorre em Manaus

São Paulo – O Brasil encerra mais uma semana útil acima de mil mortes por dia causadas pela covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus. Além de o país não conseguir baixar o número de óbitos, o registro oficial de infectados segue em curva ascendente. Nas últimas 24 horas, foram mais 1.214 mortos e 45.048 casos oficiais.

O Brasil totaliza 70.398 vítimas e 1.800.827 contaminados, de acordo com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), em boletim divulgado nesta sexta-feira (10). Com a precariedade generalizada de estrutura, aliada a um processo de interiorização do vírus, a subnotificação é realidade e tende a se intensificar, alertam cientistas.

O Brasil é o epicentro da doença no mundo há dois meses. Sozinho, o país tem mais que o dobro de infectados e mortos de todos os países sul-americanos somados. Em números globais, o Brasil só não foi mais afetado do que os Estados Unidos.

Curvas de Estados Unidos, Brasil e Índia (em azul). Pandemia segue crescente

Entretanto, o Brasil também é um dos países do mundo que menos aplicam testes à sua população. Para epidemiologistas, o descaso com a doença no país é a causa do crescimento sem recuo dos números da pandemia. O Brasil já poderia ter saído há semanas da fase mais grave da doença. Cientistas alertam para a “naturalização da desgraça” no país.

Ao contrário, a cada dia, mais cidades e estados deixam de lado as medidas de isolamento social, que sempre foram leves. O Brasil não tomou medidas de distanciamento severas em nenhum momento, não fez rastreio de contágio do vírus e não testa seus cidadãos de forma eficiente. O estado mais afetado, São Paulo, por exemplo, praticamente não terá a medida sanitária na maioria do estado a partir de segunda-feira (13).

Humanidade falha

Entre Estados Unidos e Brasil, países mais afetados pela covid-19, existem algumas semelhanças na condução da crise. Em ambos, os presidentes, Donald Trump e Jair Bolsonaro, rejeitam a ciência e atacam medidas de prevenção básicas, tais como uso de máscaras e o isolamento social.

No Brasil, o caso ganhou tons mais dramáticos. Bolsonaro chegou a fazer piada com a doença e também promoveu aglomerações em diversos atos em sua própria defesa. O presidente ignora a ciência médica e tenta convencer a população da eficácia da cloroquina no tratamento. Assim, contraria a ciência e a Organização Mundial da Saúde (OMS), que já divulgou diversos comunicados afirmando o contrário e alertando para os efeitos colaterais do medicamento.

Em entrevista hoje, o diretor da OMS, Tedros Adhanom, lamentou a incapacidade de países, populações e indivíduos no enfrentamento ao vírus mortal. “A grande ameaça que enfrentamos agora não é o vírus em si, mas é a falta de liderança e solidariedade em níveis globais e nacionais”, disse, visivelmente emocionado.

São mais de 12 milhões de infectados no mundo. E os mortos estão na casa de 550 mil – sozinho, o Brasil, portanto, é responsável por mais de 10% das vítimas do planeta. Enquanto parte da comunidade internacional se mobiliza, especialmente na Ásia e na Europa, dois dos maiores países do mundo seguem na contramão da vida.

“Esta é uma tragédia que, na verdade, está nos fazendo sentir falta de nossos amigos. Perdendo vidas… E não podemos enfrentar essa pandemia com o mundo dividido. Por que é tão difícil para os humanos se unirem para lutar contra um inimigo comum?”, clamou Tedros.

Edição: Fábio M. Michel


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