balanço e conflito

Mandetta reforça postura técnica do Ministério da Saúde em oposição a Bolsonaro

O ministro da Saúde adotou tom conciliador com pronunciamento desastroso de Bolsonaro sobre coronavírus, mas reforçou postura técnica; Número de mortos sobe para 57 e casos para 2.433

Erasmo Salomão/MS
Mandetta sobre novo coronavírus: "A quarentena, usamos quando temos alto contágio. É o caso dessa doença, Quando não temos sistema imunológico. É o caso dessa doença"

São Paulo – O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, evitou o choque político com o presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista coletiva concedida hoje (25), foi técnico, e não político. Isso porque Mandetta não comentou a contradição entre o pronunciamento de Bolsonaro e a linha de ação orientada pela pasta da Saúde. Mas não anunciou mudanças substanciais na conduta. Enfim, não confrontou o chefe nem capitulou.

O ministro reafirmou a seriedade da pandemia da covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus e divulgou novo balanço do vírus no país.

São 2.433 casos confirmados, com 57 mortes no total. A letalidade está em 2,4%. Hoje, faz um mês da confirmação do primeiro caso no Brasil. A expectativa é de que, nas próximas semanas, os números sigam em crescimento exponencial. Por esta razão, a orientação segue de cautela máxima com a pandemia que pode colapsar o sistema de saúde no final de abril, de acordo com o próprio ministério.

“A quarentena, usamos quando temos alto contágio. É o caso dessa doença, Quando não temos sistema imunológico. É o caso dessa doença. Aonde possamos ter muita letalidade ou uso intenso do sistema de saúde. É o caso dessa doença”, disse Mandetta. O discurso vai totalmente de encontro ao pronunciamento de ontem, em rede nacional, do presidente de extrema-direita. Bolsonaro ironizou a doença, chamou de “gripinha” e “resfriadinho”, e orientou ao fim das medidas de isolamento social.

Permanência no cargo

Mandetta vem ganhando maiores atenções pelo tratamento mais coerente da pandemia. Bolsonaro, em contrapartida, apostou tudo no conflito. Ao invés de conduzir a unidade, arrumou intensa discussão com governadores. Bolsonaro segue falando para seus seguidores mais radicais, em detrimento das vidas dos brasileiros. Após essa oposição de posturas, começou-se a ventilar a possibilidade de Mandetta de deixar o cargo.

O ministro reagiu sobre seu possível afastamento ao defender, novamente, a postura técnica. “Eu saio daqui na hora que acharem que eu não devo trabalhar, ou se eu tiver doente, ou quando eu achar que esse período de turbulência passar. Neste momento vou trabalhar ao máximo. A equipe está focada. Vamos trabalhar com critério técnico.”

Conciliação

Ao comentar diretamente o posicionamento de Bolsonaro – que foi oposto a todas orientações de órgãos de saúde e também contra a totalidade dos líderes do resto do mundo –, Mandetta adotou tom conciliatório. Falou sobre a necessidade da manutenção de setores produtivos relacionados à saúde e disse que o ministério estuda o que é sugerido pelo presidente, sem abandonar o critério técnico.

“Saímos para um efeito cascata de lockdowns em todo o território nacional, como se estivéssemos todos em franca epidemia. Isso causa transtornos para o próprio sistema de saúde. Não vamos mudar um milímetro do nosso foco na vida. Vamos focar na vida durante todo esse tempo. Não vamos perder esse foco. Estamos conscientes. Quando vemos que determinadas medidas colocam em risco, também, a distribuição de insumos. Essas situações têm que estar bem pactuadas”, disse.

Ao invés de seguir Bolsonaro e pedir o fim dos cuidados com o novo coronavírus para proteger setores da economia, Mandetta pediu cautela e consciência para outros setores essenciais. Mas começou a relativizar a conduta de isolamento social. “Vai se trabalhando de maneira coletiva, onde se coloca prazos determinados. Quarentena deve ter prazo determinado para não virar uma parede na vida das pessoas. Questões econômicas são importantíssimas (…) Tenho visto médicos fechando consultórios. Outras doenças acontecem. As pessoas precisam ser atendidas. As pessoas têm tratamentos.”

Ação conjunta

Outra vez destoando do discurso de conflito de Bolsonaro, Mandetta pediu ações coordenadas entre os estados. “A quarentena é amarga e dura. Vai ter hora que precisaremos de usar. Temos desde redução de mobilidade, que podemos fazer antes do lockdown (fechamento de cidades), como estão falando. Antes de adotar o fecha tudo, existe a possibilidade de trabalhar por bairro, fazer redução de mobilidade urbana em determinados aparelhos. Uma série de medidas até chegar em um patamar (…) Vemos que determinadas medidas colocam em risco, também, a distribuição de insumos. Essas situações têm de estar bem pactuadas”, disse.


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