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Indícios apontam para queima de arquivo em morte de miliciano

Professor da UFRRJ, José Cláudio Souza Alves diz que ex-capitão poderia ter sido facilmente capturado. “A quem interessa?”

Divulgação
Informações relevantes ainda podem ser colhidas a partir dos "rastros" deixados pelo miliciano

São Paulo – O sociólogo e estudioso das milícias José Cláudio Souza Alves afirma que as condições em que ocorreram a morte do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega são “preocupantes” e “estranhas”. Segundo ele, depois de um ano de investigações, o desfecho da operação não configura um trabalho de “inteligência”, mas de “estupidez” e “ignorância”. Ou então o objetivo, em vez da sua captura, era de fato a sua eliminação.

” Há muitos indícios de queima de arquivo. Tem coisas inexplicáveis. Ele não estava numa área complexa, numa favela, num bunker com homens fortemente armados. Ele estava numa casa relativamente isolada, numa área rural no interior da Bahia. Se quer capturar, faz-se o cerco, anuncia-se o cerco e espera, dissuadindo qualquer tipo de reação”, afirmou à jornalista Marilu Cabañas, para o Jornal Brasil Atual, nesta quarta-feira (12).

Além das suspeitas de envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco, e das íntimas relações com a família Bolsonaro – a mãe e a esposa do miliciano foram nomeadas assessoras no gabinete do então deputado estadual do Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro – Adriano também mantinha ligações com a venda irregular de imóveis na zona oeste do Rio.

Para o sociólogo, que também é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e autor do livro Dos Barões ao Extermínio – Uma História da Violência na Baixada Fluminense (APPH, 2003), a morte do miliciano foi “cronometrada” para não atrapalhar as eleições municipais deste ano.

Morto fala

Apesar das circunstâncias que apontam para a “queima de arquivo”, Souza Alves afirma que o morto deixou rastros importantes que devem ser “lidos” pelos peritos.

” Por exemplo, há treze celulares que foram encontrados. Vai depender agora de quem vai ‘ler’ esse morto e traduzir as coisas que estão na ação desse morto. A questão é se há interesse. A polícia, de fato, vai fazer esse trabalho? Ou mais uma vez haverá forças de poder real que interferem e alteram a leitura das ações, palavras e tudo aquilo que ele deixou para trás? A quem interessa realizar esse trabalho bem feito e a quem interessa intervir e atrapalhar, impedindo que tenhamos acesso a essas informações? É essa disputa que está se dando agora.”