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No Brasil de Bolsonaro, o ‘cidadão de bem’ pode tudo, até praticar atos de corrupção

Antropóloga e pesquisadora do avanço do conservadorismo no país participa do programa "Entre Vistas" e esmiuça os perfis dos segmentos que apoiam o governo
Publicado por Helder Lima, da RBA
18:14
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reprodução tvt

Para Isabela, ideia de cidadão de bem significa pensar uma configuração de família que é majoritariamente branca, de classe média, e que exclui determinados arranjos, como a família chefiada por mulher

São Paulo – O ‘cidadão de bem’ é uma das referências do discurso do presidente Jair Bolsonaro desde a campanha nas eleições do ano passado. “A vida do cidadão de bem não tem preço. Aqueles que estão à margem da lei, paciência”, disse em maio deste ano, em visita a Curitiba, ao defender a flexibilização do porte de armas. Ou então: “É um projeto para fazer com que, ao defender sua propriedade privada ou sua vida, o cidadão de bem entre no excludente de ilicitude, ou seja, ele responde [um processo], mas não tem punição. É a forma que temos para quem do outro lado, que não teme em desrespeitar a lei, temam vocês, temam o cidadão de bem, e não o contrário”, disse também a ruralistas, em abril, defendendo que eles não fossem punidos por atuar com armas em suas propriedades.

Mas, afinal, o que é o cidadão de bem?

“A ideia de cidadão de bem significa pensar uma configuração de família que é majoritariamente branca, de classe média, e que exclui determinados arranjos. O modelo é muito restrito e inclui elementos que são racistas; o cidadão de bem tem um recorte muito específico, um recorte de classe”, afirma a pesquisadora Isabela Kalil, doutora em Antropologia Social e coordenadora do Núcleo de Etnografia Urbana da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), em conversa com o jornalista Juca Kfouri, no Entre Vistas, da TVT, que vai ao ar nesta quinta-feira (5), a partir de 22h (inscreva-se no canal).

Confira o Entre Vistas a partir das 22h desta quinta

Isabela pesquisa há seis anos os perfis dos segmentos conservadores no país, e seu grupo já desenvolveu 16 perfis dos eleitores de Bolsonaro. Um décimo sétimo perfil está sendo apurado, justamente para mostrar quem são os eleitores de Bolsonaro arrependidos – uma ironia que Isabela admite com o número ‘17’, que identificou o candidato do PSL na campanha eleitoral.

Perguntada pelo jornalista se nesses grupos bolsonaristas despontam as pessoas bem situadas social e financeiramente que praticam todo tipo de corrupção, mas fazem discurso contra essa prática, Isabela diz que a lógica maniqueísta, que separa o ‘bem’ e o ‘mal’, baseia-se em uma narrativa indulgente com o cidadão de bem, a tal ponto que ele sim pode ter o direito de praticar esses atos.

“Existem pessoas que são corruptas, mas quem não está envolvido na corrupção é o cidadão de bem. O cidadão de bem pode estar envolvido em pequenas ou grandes corrupções, mas ele é um cidadão de bem – a noção de cidadão de bem mobiliza uma determinada narrativa de que há uma maneira correta de ser, como pessoa e como família. O que é esse cidadão de bem? Ele vai ter a família correta – é um modelo muito restrito de família. Qualquer coisa que fuja a esse modelo, como famílias chefiadas por mães, isso não é uma família de bem”, afirma a pesquisadora.

O programa na TVT nesta quinta conta com as participações de Ivani Oliveira, mestre em psicologia social, integrante da organização negra Quilombagem, e também de Rita Berlofa, diretora do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região. Rita é também presidente da UNI Finanças, que representa mais de 3 milhões de trabalhadores de 237 sindicatos do setor financeiro no mundo.

No início do programa, o jornalista destaca que o trabalho da pesquisadora mostra o que é o mundo do bolsonarismo e pergunta: “O que estava consagrado até a sua pesquisa é que as pessoas votaram no Bolsonaro porque interessava derrotar o PT. Foi só isso?”

“Essa é uma variável importante, mas não é a única explicação. Quando a gente concentra todas as explicações no antipetismo a gente perde o movimento crescente de autoritarismo – que sempre teve na sociedade brasileira, mas que ganhou voz, corpo, na figura do Bolsonaro”, afirma.

“Eu tenho defendido a ideia de que o bolsonarismo é maior do que o próprio Bolsonaro, porque tem vários movimentos de rua, ainda que sejam minoritários, que estavam à espera de uma liderança. Existiu um terreno fértil para que chegasse uma liderança e ocupasse esse lugar. E quem ocupou foi o Bolsonaro. E eu não tenho a impressão de que esse movimento vai acabar com a saída do Bolsonaro do poder.”

“Havia um contingente respeitável de brasileiros adeptos do autoritarismo que saiu do armário”, pergunta Kfouri. “Eu acho que sim. Não é apenas sair do armário. Exemplo: uma pessoa razoável que não tendia a ter um discurso tão violento, quando ela começa a ouvir isso, e começa a alargar a possibilidade de aceitação da violência e isso passa a ser aceitável… Então, mesmo para as pessoas que consideravam inaceitáveis determinados discursos públicos, esses discursos vão se banalizando e o nosso limiar de violência, de aceitação, vai aumentando.”