Home Política Manifestação a favor do governo deve ser ‘tiro no pé’, diz professor
Boldonaro

Manifestação a favor do governo deve ser ‘tiro no pé’, diz professor

Acuado, presidente Jair Bolsonaro recorre à luta messiânica contra "forças ocultas" para tentar mobilizar suas bases. Fracasso dos protestos pró-governo o colocaria em posição como a do ex-presidente Collor à beira do impeachment
Publicado por Tiago Pereira, da RBA
09:55
Compartilhar:   
Palácio do Planalto

"Messianismo evangélico" pode ainda agravar relação de Bolsonaro com militares

São Paulo – Acuado com o escândalo de corrupção que atinge um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), sem o mínimo de articulação com os partidos no Congresso Nacional e tendo enfrentado as maiores manifestações até agora contra o seu governo – os protestos em defesa da Educação – , o presidente, Jair Bolsonaro (PSL), recorre a um roteiro batido, com final já conhecido. Ainda na sexta-feira (18), divulgou um texto que faz alusão a “forças ocultas” de um “Brasil ingovernável”, remetendo à famosa carta renúncia do ex-presidente Jânio Quadros. No final de semana, convocou seus apoiadores a saírem às ruas no próximo domingo (26) em apoio a propostas do governo, como a “reforma” da Previdência.

O risco, segundo o cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) Paulo Niccoli Ramirez, é a maioria da população se voltar contra, transformando a data em mais um protesto contra o governo. A situação remete a Fernando Collor quando, em 1992, o então presidente, também acuado por uma forte crise econômica e escândalos de corrupção, sugeriu que a população saísse às ruas com as cores da bandeira. Em vez disso, as pessoas escolheram o preto para manifestar a generalizada insatisfação.

O “tiro no pé” não é um alerta apenas do professor, entrevistado da Rádio Brasil Atual nesta segunda-feira (20). Integrantes do próprio PSL, como a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL), e grupos de extrema-direita que trabalharam pela eleição de Bolsonaro e sempre se mostraram simpáticos ao governo, como o MBL,  também criticaram a convocatória do presidente.

Outra “trapalhada” do governo, também no fim de semana, foi a hashtag #BoldonaroNossoPresidente, com o erro de grafia denotando o uso de “robôs” para fazer aparecer o termo no topo das expressões mais utilizadas no Twitter. Se não bastasse, outro filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), ao participar de um game num programa da Rede TV, pronunciou, por duas vezes, o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “dica” para uma outra participante da brincadeira associar à  palavra “livre”.

A última iniciativa de Bolsonaro, que postou vídeo de um pastor congolês que o intitula como “enviado de Deus” também não ajuda, segundo Ramirez. Ele diz que o messianismo evangélico pode estimular ainda mais atritos com os militares do governo, de tradição positivista, que preza pela rígida separação entre Igreja e Estado.

Para o professor da Fespsp, com todas essas ações que apontam para uma total falta de habilidade política, Bolsonaro perde peças a cada rodada política. O principal erro foi ter chamado os professores e estudantes de “idiotas úteis“. “Quando um governo ataca seu povo, a tendência é que seu povo ataque também”, diz o professor, que afirma que Bolsonaro, com a sua falta de habilidade política, “perde peças” a cada rodada do xadrez da política.

O presidente ainda reiterou a declaração, voltando a se referir aos manifestante, no fim de semana, como “este movimento do pessoalzinho aí que eu cortei verba”. Bolsonaro ainda foi alvo, no último domingo, de editoriais negativos dos três principais jornais impressos do país – Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo.

Segundo Ramirez, a tendência é que Bolsonaro renuncie ou busque uma guinada mais autoritária para o seu governo. Para a primeira hipótese, que em caso de renúncia ou impeachment nos dois primeiros anos de mandato, a Constituição prevê a convocação de novas eleições. Já para efetivar o plano autoritário, Bolsonaro precisaria ainda mais do apoio dos militares e setores da população, o que também não parece o caso. Voltando à metáfora do xadrez político, ele chama o presidente de um “rei messiânico” que está encurralado por boa parte da sociedade. “A questão agora é aguardar o xeque-mate.”

Ouça a entrevista na íntegra