Máfia da Merenda

Ex-deputado desmente Capez : lobista da Coaf e tucano ‘se conhecem muito’

Ex-presidente da Assembleia paulista Leonel Júlio afirma ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) que lobista da Coaf, que é filho de Leonel, atuou em campanhas de Capez

loisio Mauricio/Fotoarena/Folhapress
capez

Capez (foto) sempre negou conhecer Marcel e disse ter uma relação superficial com Jeter Rodrigues

São Paulo – O ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo e ex-deputado Leonel Júlio declarou ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) que o atual presidente da casa, deputado Fernando Capez (PSDB), conhece, muito o lobista da Cooperativa Orgânica da Agricultura Familiar (Coaf) Marcel Ferreira Júlio, que é filho de Leonel. Capez sempre negou conhecer Marcel. O depoimento foi dado ao desembargador Sérgio Rui, que conduz as investigações sobre o esquema de pagamento de propina em contratos da merenda escolar no governo de Geraldo Alckmin (PSDB), revelados pela Operação Alba Branca.

Em seu depoimento, Leonel disse que atuou em todas as eleições disputadas por Capez e que seu filho também colaborou na campanha. “Sim. Ermelino Matarazzo, sempre muitos votos, graças a Deus, todas as vezes. E eles queriam que eu colaborasse lá e eu ia pegar papel de campanha, com meu filho, pegava por lá”, afirmou. “O meu filho tinha sim, ele ia em todas as campanhas, ele ia lá e eu poucas vezes ia pegar papel, tudo”, completou.

Quando perguntado se Marcel e Capez se conheciam, o ex-deputado responde: “Muito. Conhece, conhece. Ele também teve festa, esteve já, esteve… Conhece, lógico que conhece, muito”. Ele também garantiu que Marcel foi recebido por Capez no escritório político da Rua Tumiarú. E que o deputado ligou para a Secretaria da Educação e conversou com alguém sobre o contrato com a Coaf. “Eu acho que foi com o secretário, né, porque tinha muita força”, disse. Mas ressaltou que não poderia comprovar com quem foi a conversa.

Marcel mantém um acordo de delação premiada com a Justiça paulista. No documento, o lobista diz ter ido ao escritório político de Capez, na Rua Tumiarú, próximo à Assembleia. Ele deu detalhes do interior do local e disse ter conversado com um assessor do deputado, Luiz Carlos Gutierrez, o Licá, com quem deixou documentos e explicações sobre a situação da chamada pública vencida pela Coaf, mas que não tinha prosseguido.

lobista relatou ter ido três vezes ao escritório de Capez. E que o próprio deputado teria ligado na Secretaria da Educação e falado com o chefe de gabinete da pasta, Fernando Padula, sobre o fato de a Coaf ter vencido a chamada pública de 2013 e não ter sido chamada para assinar o contrato. Posteriormente, Marcel disse que foi procurado por Jeter Rodrigues, ex-assessor de Capez, que informou que o contrato seria maior e teriam que resolver “a questão financeira”.

Quando a Chamada Pública foi concluída, Jeter o teria procurado. “Viu lá a publicação? Tudo como combinamos. Agora precisamos falar de valores. Eu quero 2% do contrato, mais R$ 450 mil para ajudar na campanha (do deputado Capez)”, teria dito Jeter, segundo o lobista. “Jeter disse que, se não honrássemos o acordo, eles bloqueariam os pagamentos do governo estadual”, relatou Marcel. O lobista disse ter efetuado todos os pagamentos e que os respectivos recibos foram entregues por ele ao Tribunal de Justiça.

Com Jeter, a investigação encontrou movimentação suspeita de R$ 122 mil, em 2015, ano em que a propina teria sido paga. Além disso, a Justiça também encontrou outros R$ 500 mil em movimentações financeiras de origem não declarada, com José Merivaldo, outro ex-assessor de Capez.

Capez sempre disse não ser próximo de Jeter, com quem mal falava. Por ser funcionário efetivo da Assembleia Legislativa teria sido colocado no gabinete para cumprir funções burocráticas. Mas a versão de Leonel é diferente. Ele disse que Jeter atuou nas campanhas de Capez e que pode provar que a Coaf cedeu um carro a Jeter, que teria sido utilizado na campanha. “Trabalhou. Na última. A primeira eu não conhecia ele, muitos anos, ele também me conhece e depois eu o revi, de muito tempo lá, na campanha, da primeira, da Rua Tutoia (onde então ficava o escritório político do deputado)”, relatou.

“Aí que eu posso provar que, sim, teve um carro. Não que eu queira prejudicar ou falar a mais, mas teve um carro que, eu não sei agora, eu não posso provar que foi o deputado. Ficou na mão dele, porque ele que depois, eu fiquei sabendo que ele devolveu depois de muito tempo e de cobrança, que havia. (…) Um dia deixou na minha garagem, na rua, de frente da minha garagem”, relatou Leonel.

Outra informação relatada por Leonel é a participação do advogado Rogério Auad, cunhado de Capez, na coordenação da campanha do deputado. Capez sempre negou que Auad tenha sido seu coordenador de campanha. O advogado, que também é administrador do Instituto Brasileiro de Ciência Jurídica, pertencente ao deputado, teve seus sigilos bancário e fiscal quebrados pela Justiça, junto com a mulher dele, Maria Cristina Palermo, após ter sido citado em depoimento de Marcel.

Em nota, o deputado Capez disse: “Mais uma vez ficou comprovada minha inocência em todos os depoimentos, ou seja, que não houve qualquer tratativa ou pedido de qualquer valor, que seu nome foi usado indevidamente e ele não tem nada a ver com esse caso. Finalmente, na data do suposto pagamento, a campanha já havia terminado há quase um ano e os funcionários não eram mais assessores do deputado”.

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