Ditadura

Lula conta que pedia a comandantes militares para reconhecerem erros do passado

'Eu não vejo problema em vocês admitirem isso', dizia o ex-presidente, segundo depoimento à Comissão da Verdade. 'É preciso tratar isso com carinho. Porque não estamos vivendo tempos fáceis.'

Fabrício Faria/ASCOM/CNV
Lula na CNV

“Na minha casa, paravam a perua na porta e passavam a noite. Às vezes, para encher o saco, a Marisa mandava levar café para eles”

São Paulo – Em 49 minutos de depoimento à Comissão Nacional da Verdade, gravado ontem (8), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembrou de seus tempos de sindicalista, da prisão em 1980 e de sua relação com as Forças Armadas. Ele revelou que, já na Presidência, em conversas com os comandantes militares, pedia para que eles reconhecessem erros cometidos durante a ditadura (1964-1985). “Eu dizia, em várias conversas: vocês precisam tirar das costas de vocês a responsabilidade de coisas que vocês não têm. Vocês eram meninos quando alguém mandou fazer. Se a instituição cometeu erros, não foram vocês. Quem tem culpa, na verdade, foi o comandante daquela ocasião”, disse Lula. O depoimento foi dado a Maria Rita Kehl e Paulo Sérgio Pinheiro, integrantes da CNV, no Instituto Lula, em São Paulo (assista ao vídeo editado pela CNV ao final deste texto).

O ex-presidente conta que sempre encontrou certa resistência, mesmo dizendo que não via problema no fato de eles (os atuais comandantes) admitirem erros  naquele período. “Mas eu sei que eles têm dificuldade. E é preciso tratar isso com o carinho que o tema exige. Porque nós não estamos vivendo tempos fáceis.” Lula não explica o significado da última frase, que foi justamente a que encerrou o depoimento.

Ao mesmo tempo, ele afirma que não tem queixas de suas relação com os militares durante os seus dois mandatos como presidente (2003-2010). E revelou que, quando foi eleito, pediu conselhos ao pai de Aloizio Mercadante – Oswaldo Muniz Oliveira, general reformado, foi comandante da Escola Superior da Guerra (ESG). “Ele foi muito preciso”, lembra Lula. A recomendação básica foi: não fure a fila. Ou seja, o presidente deveria observar o critério da ordem na fila na hora das promoções. “Acho que tivemos uma boa relação”, disse Lula, sobre o seu período no governo. Ele também elogiou o atual ministro da Defesa, Celso Amorim, que tem “dimensão da complexidade das Forças Armadas”.

Lula acredita que os militares se prepararam de forma organizada para devolver o poder aos civis. Fazendo o chamado processo de abertura e, inclusive, eliminando documentos considerados comprometedores. “Eu trabalho com a seguinte ideia: como tudo neste país é feito na base do acordo, quando os militares resolveram – o famoso discurso do Geisel – restabelecer a democracia, lenta e gradual, obviamente que eles começaram a preparar também, lenta e gradual, com um pouco mais de rapidez, a queima de arquivo das coisas que poderiam ser públicas ou não. Muito organizadamente. Eu acho que isso faz parte do acordo com o Tancredo Neves. Isso fez parte do processo da abertura política”, disse Lula, referindo ao presidente eleito (ainda de forma indireta) em 1985, mas que morreu sem tomar posse.

Mas muito material ainda deve estar nas mãos de particulares, avalia Lula. “Estou convencido que você pode ter material de gente que rompeu, de general que brigou, de coronel que brigou e que levou para casa, para brigas políticas, porque de vez em quando aparece um livro. Então, eu acho normal que essas pessoas da instituição, para efeito de segurança ou de briga política futura, levaram para casa o que tinham. Mas a instituição, eu acho que ela tratou de se livrar disso.”

Na entrevista, o ex-presidente manifesta curiosidade com as descobertas da comissão, que entregará amanhã (10) o seu relatório final. O professor Paulo Sérgio Pinheiro lembra que foi “fantástica” a quantidade de documentos do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) no Arquivo Nacional – em torno de 16 milhões. “Agora, muito pouco coisa da parte das instituições mesmo.”

Lula falou ainda sobre seus primeiros passos no sindicalismo e sobre a relação com Frei Chico (José Ferreira da Silva), irmão mais velho e militante do Partido Comunista. “Eu tinha uma divergência conceitual com Frei Chico. Eu não era altamente politizado, eu era um sindicalista”, lembrou, contando que seu irmão o convidava constantemente para reuniões clandestinas. Ele relatou um encontro com Emílio Bonfante, outro membro do Partidão, diante da Igreja Matriz de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. “Esse cara sentou de costas para mim, eu do outro lado, fez um monte de perguntas… Eu nem vi a cara dele.”

Segundo o ex-presidente, o advogado Almir Pazzianotto (que depois seria presidente do Tribunal Superior do Trabalho e ministro do Trabalho) ficava “alucinado” com o comportamento dos metalúrgicos, como certa vez em que ele levou o então governador Paulo Egydio ao sindicato de São Bernardo e Diadema. “Era inimaginável a quantidade de agressão, de provocação”, conta Lula.

Romeu Tuma, então diretor geral do Dops em São Paulo, também ficava indignado com os sindicalistas, dizendo que o “pessoal organizado”, ou seja, os grupos políticos de esquerda, “tem toda uma história certinha pra contar, parece estudou e decorou um ritual”, enquanto os metalúrgicos tinham um discurso homogêneo e simples. Greve, por exemplo, era por melhores condições de vida. “Se entrevistar o Lula, o Gilson (Menezes), o Severino, o Ratinho, o Expedito Soares, o Djalma Bom, a explicação nossa era uma só. Depois, quando as pessoas vão ficando mais sofisticadas, podem dizer que fazia greve por outra coisa”, brincou.

Ao mesmo tempo, os sindicalistas foram percebendo que a importância política dos movimentos que se tornaram famosos em todo o país a partir do final dos anos 1970. “O fortalecimento da luta pela democracia a gente foi aprendendo no embate”, comentou. Para Lula, de 1975 até o início dos anos 1980 houve um “período de ouro para a classe trabalhadora, que percebeu o valor que tinha”. Ele lamentou que algumas coisas ainda não tenham ocorrido, como o fim do imposto sindical.

‘Burrice’

A sua prisão em 1980, no 17º dia de greve da categoria, foi uma “burrice” dos militares, considera Lula, pois deu força ao movimento. Ele disse ter sido tratado dignamente por Tuma no período em que esteve preso. “Minha mãe estava com câncer. Eu saí algumas vezes à noite para ver a minha mãe.” Dona Lindu morreu quando Lula ainda estava na carceragem do Dops.

Ele conta que foi monitorado durante anos. Chegou a perseguir um agente, que o espionava de uma pensão diante do sindicato. Foi em um domingo, quando Lula daria uma entrevista para a extinta revista Manchete. Ao perceber o espião usando binóculos, decidiu ir atrás dele, que saiu em um Fusca e foi seguido por Lula no carro da revista, até conseguir despistar aquele que deveria ser o seu espionado.

Os agentes iam a toda parte, conta Lula. No cinema, por exemplo. No sindicato. Ou estacionavam um veículo diante de sua casa. “Às vezes, para encher o saco, a Marisa (sua companheira, Marisa Letícia) fazia café e mandava levar para eles.” No dia em que foi preso, disse que ficou com medo de morrer e ter seu corpo jogado na rodovia Anchieta. Só ficou aliviado quando ouviu no rádio a notícia de sua prisão. O amigo Frei Betto havia ligado para o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns.