'Heróis anônimos'

Brasileiros, deputado-pescador e torcida de futebol ajudam a reerguer Valparaíso

Como formiguinhas, em meio aos destroços deixados por um impressionante incêndio, eles tentam reanimar a cidade chilena

Victor Farinelli/opera mundi
valparaíso

Mutirão de ajuda para animais afetados pelo incêndio que afetou a cidade chilena de Valparaíso

Valparaíso – Marisol Jara chora enquanto cuida de um filhote de gato que acaba de segurar nas mãos. Ao lado, em uma caixa de sapatos, está um cachorrinho que ela tentou reanimar, sem sucesso. Como a veterinária, um grupo de especialistas e professores atende pessoas que trazem seus animais de estimação, na Praça Itália, em Valparaíso.

Em uma esquina do local, uma caravana de jovens trazendo colchões para as vítimas do incêndio, que arrasou vários morros e favelas da cidade no último fim de semana, decide parar e formar uma pilha para contar os colchões e separar melhor os de crianças e adultos, enquanto garçonetes dos restaurantes próximos levam marmitas à sede dos bombeiros, que está do outro lado da avenida.

Na esquina oposta, um grupo de estudantes de jornalismo organiza um centro de informações para buscar pessoas perdidas. “Meu namorado acaba de encontrar uma senhora idosa que dormiu na praça, e sua família se perdeu dela quando foi ao albergue”, conta Marisol Jara, durante uma pausa para descansar.

Uma amiga traz notícias de um caminhão com mantimentos que chegou ao Liceu Técnico de Valparaíso, o albergue improvisado próximo dali (onde estão aproximadamente duas mil pessoas), e elas se abraçam com força. Antes de terminar o cigarro e voltar a atender os animais feridos, Marisol filosofa: “os chilenos são solidários na tragédia, podemos passar todos os dias ao lado de uma família que vive na rua e fingirmos que não é nosso problema, mas quando uma tragédia dessas acontece as pessoas despertam”.

Valparaíso despertou especialmente solidária na segunda-feira (14). As ruas cheias como nunca, apesar do cheiro das cinzas que se sente por toda a cidade, é comum encontrar pessoas levando sacolas cheias de roupas, mantimentos, galões d´água e até mesmo pás. Algumas iam aos albergues, ou às praças da cidade transformadas em acampamento. Outras iam para os morros, ajudar na retirada dos escombros.

Na Praça O´Higgins, ao lado do Congresso Nacional, outro grupo de estudantes utiliza um microfone para passar informação para as pessoas sobre gente desaparecida e tentar colocar ordem na improvisada ajuda. “Pessoal, o albergue da Escola Grécia diz que já tem roupa de adulto suficiente, pedem que tragam produtos de higiene pessoal, que é muito pouco o que chegou até agora”, apela um dos jovens.

Do outro lado da rua, em frente ao Teatro Municipal, uma cooperativa de micro ônibus disponibilizou os veículos para levar as pessoas gratuitamente às zonas afetadas. Os veículos saem lotados, e com vários jovens cantando “Valparaíso Puerto Principal”, uma famosa canção que homenageia a cidade, nesses dias transformada em hino.

Ajuda brasileira

Entre os poucos que vivem em Valparaíso, nenhum deles se viu diretamente afetado pela tragédia, exceto a família da professora brasileira Lucinha Siqueira, que vive no Morro Merced, a poucos metros do Morro La Cruz, um do mais arrasados pelas chamas. A noite de sábado foi especialmente tensa para ela, os filhos e os sobrinhos, que tentaram de todas as formas bloquear o avanço das chamas, que chegaram a menos de 200 metros da casa.

“Tínhamos que estar permanentemente molhando a casa, porque estamos no meio do morro, e as chamas vinham descendo, as faíscas choviam sobre o telhado, no quintal e na calçada”. Lucinha conta que enquanto seus filhos e sobrinhos trabalhavam do lado de fora contra as chamas que chegavam, ela preparava mochilas para todos, com roupas e pertences importantes.

No domingo à tarde, as chamas já haviam sido empurradas pelo vento para outros morros. Lucinha e a família estavam em segurança, mas não aproveitaram para descansar. Seus filhos foram a outros morros ajudar na contenção das chamas. Lucinha tem um estoque de galões de água em casa, e a cada três horas passeia pelos morros com dois deles, oferecendo às pessoas que estão trabalhando nos escombros.

Ela caminha morro acima junto com um rio de jovens que leva todo tipo de ajuda. Alguns moradores ainda estão vivendo entre os escombros, nas casas que foram parcialmente destruídas. Parada no acostamento, para dar passagem a um carro-pipa – que com dificuldade tenta passar pelas estreitas ruas – Lucinha aponta para o Morro La Cruz, um dos mais afetados. “Aquilo tudo era uma invasão, um terreno privado que foi ocupado, e por isso nunca houve preocupação em dar melhor condição de vida, as pessoas não tinham água nem saneamento. É como no Brasil: a tragédia sempre pega os mais pobres”, diz a professora.

Também por isso, existem poucos hidrantes na região. Em seu trajeto pelo Morro La Cruz, Lucinha não encontra nenhum. No Morro Merced, havia um próximo ao pé da montanha, e outro perto da Praça del Recuerdo, um local especial da cidade onde foram enterradas algumas vítimas da ditadura de Pinochet – hoje totalmente destruída pelo incêndio.

No caminho, é intenso o burburinho sobre a origem do fogo. Algumas pessoas aceitam a versão da polícia, de que foi algo acidental. Outras falam em um incêndio para expulsar os invasores dos terrenos privados. Lucinha vive em Valparaíso há 22 anos, e já viu mais de quatro incêndios na cidade, todos menores que o atual, e diz que à exceção de um provocado por uma explosão de gás, em 2007, na parte plana da cidade, os outros todos aconteceram em setores ocupados por invasões.

Outra brasileira que participa ativamente da ajuda aos danificados é a enfermeira Eliane Ribeiro. Ela trabalha no Hospital Municipal de Valparaíso, e agora faz parte de uma missão organizada para ir aos morros afetados, para atender as pessoas que se recusam a abandonar suas casas. “Algumas  têm medo de que o que não foi queimado, seja roubado. Não sei se isso é melhor, porque o hospital já está em colapso, mas dividir o pessoal tendo tanta gente pra atender lá também é complicado”, conta ela.

Perto de onde parte a van que leva a equipe de enfermagem de Eliane, o G.R.E.S. Valparaíso, uma escola de samba organizada por chilenos amantes da cultura brasileira, reúne alimentos e produtos de limpeza, como tantas outras organizações civis que estão ajudando.

Na Praça Itália, próximo ao grupo onde Marisol Jara e seus colegas atendem animais feridos, dois brasileiros deixam mantimentos que compraram em um supermercado próximo. Eles são Simone e Fernando, um casal em lua-de-mel, que havia planejado passar o fim de semana na cidade.

“Passamos o sábado em Viña del Mar (cidade vizinha), e lá pelo final da tarde vimos umas nuvens de fumaça. Pensamos que era um incêndio, mas não imaginávamos algo tão trágico”, conta Fernando. “Claro que é triste ver o que aconteceu, mas também é bom saber que toda a cidade está mobilizada”, complementa Simone.

Santiago Wanderers

Em meio aos trabalhos de ajuda aos bairros afetados, moradores locais descobriram que o deputado Ivan Fuentes estava entre os bombeiros, ajudando no resgate. Até o ano passado, Fuentes era pescador na Patagônia e líder do Movimento Regional “Tu Problema es Mi Problema”. Chegou silenciosamente na manhã de domingo, e só no fim da tarde foi reconhecido.

O deputado lembrou uma tragédia pessoal para explicar sua atitude. “Em 2006, perdi minha casa num incêndio, e sei que não é só a coisa material que dói. Eu perdi as fotos dos meus filhos quando eram bebês…Vim para ajudar as pessoas que estão passando pela mesma situação”, disse.

A cooperação aparentemente não tem hierarquia nem papéis de gênero. Todos participam do trabalho pesado, homens e mulheres, civis e militares, policiais, oficiais da Marinha (a Baía de Valparaíso é a sede principal da Marinha Chilena), voluntários de Cruz Vermelha e até mesmo os membros da torcida organizada do Santiago Wanderers, o clube de futebol da cidade.

O Santiago Wanderers é o clube mais antigo do Chile. Foi fundado em 1892, e tem esse nome porque, na época, a cidade era parte da Província de Santiago. A torcida do Wanderers é conhecida como uma das mais fanáticas do país e, desde domingo, a camiseta do clube se tornou uma espécie de símbolo do orgulho da cidade.

Andando pelos centros de ajuda na parte plana, ou nos morros onde está o trabalho com os escombros, em todos os lugares estão as camisetas verdes clube. Em um acampamento da Praça O´Higgins está a família Moya, junto com cerca de 50 outras famílias. Em frente à barraca foi fincado um mastro, onde flamula uma bandeira do Santiago Wanderers. O estivador Marcelo Moya divide a barraca com sua esposa, filhos e um cunhado, todos vestidos com a camisa do clube, e se emociona ao ser perguntado sobre a razão disso.

“O Wanderers é Valparaíso, ele representa a gente. Escreve aí pro seu jornal: Valparaíso vai se levantar, porque as pessoas daqui não abandonam a cidade. A gente vai lutar por essa cidade”, afirma, batendo no peito com força e segurando o distintivo. Talvez sinta que esse é o campeonato mais importante da sua história.