Home Cultura Eduardo Gudin e Zeca Baleiro, as composições que vêm de um sonho e até de um dedo cortado
Segredos da canção

Eduardo Gudin e Zeca Baleiro, as composições que vêm de um sonho e até de um dedo cortado

Compositores e cantores se encontram para trocar ideias sobre parcerias, músicas e letras
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
12:18
Compartilhar:   
Reprodução Facebook

Zeca Baleiro e Eduardo Gudin conversam e contam histórias sobre música: 'O Brasil não tem paralelo no mundo'

São Paulo – “Você precisa sonhar mais”, diz Zeca Baleiro a Eduardo Gudin. “A última vez que isso aconteceu, o Paul McCartney fez Yesterday“, brinca. O comentário era uma resposta à revelação feita por Gudin de que parte do samba Velho Ateu, parceria dele com Roberto Riberti, surgiu a partir de um sonho.

“Eu compus duas músicas maravilhosas em sonho”, conta Zeca. “Esqueci”, emenda.

É a vez de Gudin contar que certa vez sonhou com Milton Nascimento passando-lhe uma música – da qual ele também não lembrava ao acordar. Depois veio a dúvida: se recordasse, quem seria o autor?

As histórias vão aparecendo durante encontro realizado na última quarta-feira (31) entre os compositores paulista e maranhense, em uma série chamada Música e Letra: como é que faz?, promovida pelo Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, em São Paulo.

Gudin é o “anfitrião” dos encontros, que buscam discutir, com participação da plateia, os desafios da composição. Nessa última conversa, estavam presentes aproximadamente 50 pessoas, das mais diferentes formações – muitos músicos, mas também advogados, professores, gente de publicidade, marketing e finanças, consultores, estudantes e até alguns “indecisos”. Antes de começar a falar, Zeca Baleiro quis conhecer cada participante. Um, pelo menos, era bem conhecido, o mítico Edy Star, 82 anos.

A ideia da canção

No começo da conversa, Gudin busca enfatizar a importância da melodia. Conta que, em um curso, leu a letra de uma canção, Pergunte ao João, de Helena Silvia e Milton Costa.

Quem quiser ver é só subir no morro
O samba mora no meu barracão

“Todo mundo achou ruim”, lembra. Mas em seguida tocou a música, cantada por Clementina de Jesus – e lembrou que a conheceu na voz de Ed Lincoln, uma gravação de 50 anos atrás. No curso, ao ouvir a mesma letra, agora com melodia, todo mundo achou bom. “Essa é a ideia da canção”, diz o compositor, de 68 anos, que lançou seu primeiro compacto em 1969 e o primeiro LP em 1973. E pergunta a Zeca o que ele faz primeiro, letra ou melodia, ou se vem tudo junto.

“Com o passar do tempo, acabei desenvolvendo várias formas de fazer. Às vezes algo manda, melodia ou letra”, responde Zeca, 53 anos, com pouco mais de duas décadas de carreira profissional. Em seguida, ele acrescenta: “Eu preciso da palavra para me orientar na melodia”. E diz sempre confiar no formato “mistura e manda” de composição. “Às vezes o cara é um super músico e não é habilitado para fazer canção.”

Beatles e Tom Jobim

Ele lembra que surgiu na geração imediatamente posterior ao chamado rock brasileiro dos anos 1980, “o que fez toda a diferença”. Para Zeca, “os Beatles são tão geniais quanto Tom Jobim, inclusive harmonicamente”. O compositor também absorveu informações do que se chamou Vanguarda Paulistana – Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Premeditando o Breque, Rumo e outros. Mas conta que desde sempre ouviu de tudo em casa. Os irmãos, que se tornaram bancários, tocavam violão. Com 13, 14 anos, foi aprender violão. “Quando toquei Lígia, de Tom Jobim, foi um acontecimento na minha vida.” O Brasil não tem paralelo no mundo em termos de diversidade musical, acredita. “Acho que esse manancial não tem em país nenhum.”

O autor recorda da primeira obra que se tornou conhecida, À Flor da Pele, cantada em 1997 por Zeca ao  lado de Gal Costa e emendada com Vapor Barato (Waly Salomão/Jards Macalé), que Gal havia gravado em 1971. O Vapor integra a trilha sonora, com destaque, do filme Terra Estrangeira, dirigido por Walter Salles.

Ando tão à flor da pele
Que qualquer beijo de novela me faz chorar
Ando tão à flor da pele
Que teu olhar flor na janela me faz morrer

“Eu acho ela imatura, mas eu gosto”, diz Zeca, que conta ter se inspirado, basicamente, na “atmosfera” de Vapor Barato. Além disso, estava apaixonado na época em que criou a composição. “Essa eu senti que as pessoas poderiam ouvir.”

Os dois conversam sobre plágios. Afirmam que pode acontecer mesmo involuntariamente. “São sete notas, uma hora elas vão se encontrar”, diz Zeca, ao que Gudin emenda uma frase, segundo ele, de Elton Medeiros, sambista carioca que em julho completou 89 anos: “Depois a gente desencosta…”.

Dedo cortado

E outras vezes a canção pode surgir por caminhos inusitados. Em 1991, Zeca sofreu um acidente doméstico, sofrendo “um corte profundo” em um dos dedos da mão esquerda. Teve rompimento de tendão e ficou seis meses sem tocar violão. Chegou a correr risco de perder o dedo, conta. Nessa época, hospedou-se na casa de uma amiga, que tinha um piano, instrumento do qual ele nunca se aproximou. Começou a tocar, criou canções e transpôs com uma só mão, a direita. Alguém pede um exemplo de música composta nesse período. Ele dedilha e canta:

Eu não quero ver você cuspindo ódio
Eu não quero ver você fumando ópio
Pra sarar a dor
Eu não quero ver você chorar veneno
Não quero beber o teu café pequeno
Eu não quero isso seja lá o que isso for

“Graças a um dedo cortado”, brinca, depois de cantar Bandeira.

Eles falam de Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Renato Braz, Caetano Veloso, Sebastião Biano (criador e remanescente da Banda de Pífanos de Caruaru), Dorival Caymmi, Aldir Blanc, instrumentos, trilhas sonoras e até futebol. Zeca é autor de música sobre Canhoteiro, célebre ponta-esquerda do São Paulo nos anos 1950, maranhense como ele e seu xará (ambos são José Ribamar). Gudin surpreende ao recitar de cabeça a escalação do tricolor paulista de 1957 – mas não deixa de lembrar que é corintiano.

Um anjo torto
Um canhoteiro
Um São José de Ribamar
Um bailarino
Um brasileiro
Um Paraíba
Um Ceará

Canhoteiro, de 2003, é parceria de Zeca Baleiro com Fagner, Fausto Nilo e Celso Borges. Homenagem a um futebol de outros tempos.

Poesia e música

O encontro vai chegando perto do fim, mas há tempo ainda para falar sobre tecnologias. Zeca gosta de imaginar um disco como um roteiro de viagem. “Para mim, isso ainda é muito caro. Acho importante lutar pela narrativa do álbum”, afirma. “Mas também ponho nas redes, porque não quero ser um dinossauro”, emenda o artista.

Leitor voraz de poesia, ele tem Hilda Hilst entre seus autores preferidos. Lembra de ter ganhado Com os Meus Olhos de Cão, aos 19, 20 anos. Na segunda metade dos anos 1990, jantou com Edson Duarte, escritor e secretário de Hilda. Pediu para que ele entregasse um disco à escritora. Dias depois, recebeu um telefonema. Achou que era trote, mas era mesmo Hilda do outro lado da linha, já propondo parceria. Dali surgiu o álbum Ode Descontínua e Remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio, resultado de três anos de trabalho, em que Zeca musicou 10  poemas de Hilda. “Sem mexer em nada. E ela ainda reprovou duas métricas. E estava certa.

Cada faixa é interpretada por uma cantora. Nessa ordem, Rita Benneditto, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Angela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olivia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria.

Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático jazigo

Antes de terminar, Zeca pede a Gudin: “Toca um Velho Ateu pra gente!”.