Desigualdade mata

Atila Iamarino: pandemia deve ter avanço contínuo e prolongado nas periferias

Para o biólogo, “pico” pode já ter ocorrido em áreas ricas. Populações periféricas foram deixadas “à própria sorte”, segundo Lúcia Xavier, da ONG Criola

Fernando Crispim/Amazonia Real
Com a realidade da subnotificação, ainda não existe consenso científico de quando a situação deve melhorar no Brasil

São Paulo – Em debate virtual promovido pela Oxfam Brasil, nesta quinta-feira (7), o biólogo Atila Iamarino, doutor em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP), destaca mudança no perfil demográfico em relação ao avanço da pandemia de coronavírus no Brasil. Ele afirma que as regiões mais bem estruturadas das cidades “provavelmente” já passaram pelo “pico” da disseminação, e as taxas de contaminação devem decair. Do outro lado, nas favelas e bairros periféricos, o contágio “tende a não parar, virando um problema muito mais sério”, em função das desigualdades no país.

“Por algum período, vamos ter a impressão de que a doença está estacionando. Mas, na verdade, o que está acontecendo é um declínio nas regiões mais ricas e uma subida que tende a ir muito mais longe nas regiões mais pobres”, afirmou.

A grande diferença, segundo Atila Iamarino, é que os bairros onde é mais favorável o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH, um cálculo que considera a renda, a expectativa de vida e o nível de escolaridade da população), os moradores têm condições financeiras e materiais para cumprir um “modelo europeu” de distanciamento social. Além de contarem com o que há de melhor em termos de assistência em saúde.

Já nos bairros pobres, onde alguns sequer têm acesso à água potável, essencial para os cuidados de prevenção, as pessoas não têm condições nem sequer de trabalharem remotamente. Na maioria, são informais, que precisam sair às ruas para garantir o sustento da família.

Contam ainda com situações precárias de moradia, com diversas pessoas dividindo a mesma habitação, e encontram dificuldades em acessar o sistema público de saúde, já que os doentes graves de covid-19 necessitam de assistência de alta complexidade, que são os leitos de UTIs com respiradores, escassos ou inexistentes nessas regiões.

Dilema do isolamento

Já a assistente social Lúcia Xavier, fundadora e coordenadora da ONG Criola, afirma que os mais pobres – entre eles, os negros são maioria, foram deixados “à própria sorte”, para enfrentar a pandemia. Além das dificuldades no acesso ao auxílio emergencial, com longas filas nas agências bancárias, o limite de R$ 1.200 não supre as necessidades das famílias mais numerosas.

“Para essas pessoas, o isolamento social é um dilema. ‘Ou morro de fome ou morro de covid'”, afirmou Lúcia. Tida inicialmente como uma “doença de rico”, as empregadas domésticas foram o primeiro “elo” de contaminação, levando a doença para as periferias. Ela criticou a falta de qualquer plano de contenção da doença para evitar que chegasse nessas regiões.

Essas populações, segundo ela, são afetadas pela precarização das condições de trabalho e a paulatina redução dos gastos sociais, que vem desde o governo Temer. É preciso lidar, ainda, as orientações contraditórias das autoridades. Enquanto a maioria dos governadores apela para o isolamento, o presidente Jair Bolsonaro sabota esses esforços.

“Uma frase que tenho ouvido muito é ‘Deus proverá’, como se a força divina fosse a única capaz de manter essas pessoas vivas. A pandemia revela que essas populações estão a muitos anos por sua própria conta. E as medidas de isolamento não serão exitosas enquanto as autoridades não organizarem suas falas e ações, garantindo a essas pessoas o mínimo de condições de vida”, afirmou.

Desgoverno

A diretora executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia, também criticou a atuação de Bolsonaro. “É nesse momento que a população precisa de mensagens muito assertivas e diretas por parte das lideranças políticas. Não pode ter um falando uma coisa e outro falando outra. Se não, fica muito confuso para a população.” Ela também apontou a lentidão e a insuficiência das medidas voltadas a atender a população carente, enquanto foi ágil no socorro aos “poderes econômicos”.

“Temos mais de 100 milhões de pessoas com renda inferior a um salário mínimo. E alguns milhares que compõem o 1% mais rico. O setor financeiro, em qualquer crise, nunca sofre. É impressionante. A gente tem uma minoria que tem que entender que precisa fazer mais, e contribuir para o conjunto da sociedade”, afirmou ainda Katia.

Confira o debate na íntegra: