Falta de projeto

Ford ‘foge’ do Brasil após se beneficiar, mas decisão também mostra ‘total incapacidade do governo’

Sindicalistas criticam postura da empresa, mas afirmam que decisão de sair do país reflete ausência de um projeto para a economia brasileira

Sind. Met. Camaçari
Assembleia em Camaçari na manhã desta terça: resultado de 'guerra fiscal', fábrica da Ford na Bahia completaria 20 anos em outubro

São Paulo – Então governador do Rio Grande do Sul, em 1999 Olívio Dutra considerou inaceitáveis os termos negociados por seu antecessor, Antônio Britto, para instalação de fábricas da Ford e da GM no estado. Ele considerava que as empresas se isentavam não só de impostos, mas de riscos, que ficavam todos com o governo. Com a GM, houve acordo, e a montadora inaugurou a fábrica de Gravataí em 20 de julho de 2000.

Já a Ford rumou do Sul para o Nordeste, atraído por um mar de incentivos – incluindo uma medida provisória do então presidente Fernando Henrique Cardoso – e montou fábrica em Camaçari, na região metropolitana de Salvador. Os 20 anos da unidade seriam comemorados no próximo 12 de outubro. Mas a empresa, que em 2019 já havia fechado a fábrica de São Bernardo, anunciou ontem o fim de sua produção no Brasil. Hoje pela manhã, o Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari realizou assembleia para discutir o que fazer diante dessa decisão. Tentar resistir ou negociar uma “indenização justa”.

Recursos bilionários

Nota de protesto divulgada pela CTB e pela Federação Interestadual de Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil (Fitmetal) faz referência a esse processo de incentivos, de difícil mensuração. “As justificativas usadas pela direção da Ford não levam em conta os bilionários recursos que a montadora recebeu, na forma de renúncia fiscal, em especial no complexo de Camaçari”, afirmam as entidades. “Ainda que governos como os de Michel Temer e Jair Bolsonaro não tenham investido à altura na indústria, levantamento da Receita Federal estima que os incentivos para a Ford, entre 1999 e 2020, foram de aproximadamente R$ 20 bilhões”, acrescentam.

Segundo os dirigentes, além dos trabalhadores, “os mais afetados com a acelerada desindustrialização do País”, uma saída para crises como essa precisa envolver poder público (instâncias federal, estadual e municipal) e empresários de diversos setores. Ainda ontem, o governo da Bahia anunciou a formação de um grupo de trabalho para discutir o futuro da fábrica de Camaçari e a manutenção dos empregos, que podem chegar a 12 mil, entre diretos e os chamados sistemistas. Ou a até 50 mil, considerando a cadeia produtiva.

Ausência de projeto

Para o IndustriALL Brasil, formado por sindicatos da CUT e da Força Sindical, a ação da Ford “é conseqüência da completa ausência de um projeto de retomada da economia brasileira, que contemple a reindustrialização do país”. Se é verdade que por um lado a empresa se beneficiou e agora “foge” do Brasil, por outro o “governo despreparado e inepto de Bolsonaro e Guedes finge ignorar a importância da indústria como motor do desenvolvimento nacional, não apresenta qualquer estratégia para a atuação do setor no Brasil e condena o país a uma rota de desindustrialização e desinvestimento, como vínhamos alertando há tempos”.

A entidade lembra que os sindicatos não só alertaram, como apresentaram propostas, caso do Inovar-Auto. “É incontestável a desconfiança interna e internacional e o descrédito quanto aos rumos da economia brasileira com este governo que aí está; não se toma uma decisão empresarial como essa sem considerar a total incapacidade do governo Bolsonaro”, afirmam, em nota, dirigentes da CUT e da Força (leia íntegra no final do texto).

Omissão criminosa

“No momento em que a indústria automobilística global passa por uma das mais intensas ondas de transformação, orientada pela eletrificação e pela conectividade, assistimos à criminosa omissão, e até boicote, do subserviente governo brasileiro à indústria, com consequências nefastas para a classe trabalhadora, ante um presidente incapaz de conduzir qualquer diálogo sobre a inserção do país no cenário que se configura rapidamente.”

“É lamentável que Bolsonaro, em especial, se cale e se omita diante de mais um retrocesso para a indústria brasileira. Mas, infelizmente, é cada vez menos surpreendente que uma empresa do porte da Ford prefira manter seus negócios em países de economia de menor porte, como a Argentina e o Uruguai, transferido para lá empregos qualificados e decentes”, afirmam, por sua vez, os presidentes da CTB, Adilson Araújo, e da FitMetal, Marcelino da Rocha.

Pária mundial

Para o presidente da UGT, Ricardo Patah, uma “mistura de ignorância e obscurantismo” tornou o Brasil um “pária” mundial. “Pelo menos 5 mil pessoas vão perder o emprego. Mas o desastre econômico é muito maior. A centenária empresa – que nos últimos cinco anos pegou R$ 7,5 bilhões em subsídios, segundo o governo – vai prejudicar o comércio, em geral, e os usuários de seus produtos”, afirmou.

“Os estados atingidos – São Paulo, Bahia e Ceará – não terão força para fazer nada”, acrescenta o sindicalista. “A tragédia social no Brasil vai aumentar, com mais desemprego e o crescimento da informalidade. O caos social virá com o fim do auxílio emergencial, já valendo a partir deste mês.”

Confra a nota da IndustriALL.

Ford foge do Brasil e de Bolsonaro e deixa rastro de desemprego

BRASIL SEM RUMO, SEM INDÚSTRIA, SEM EMPREGO, SEM GOVERNO, SEM FUTURO

O anuncio de fechamento de todas as fábricas da Ford no Brasil (a planta de SBC já havia sido fechada, em 2019) confirma as piores previsões e avisos do movimento sindical sobre os rumos da economia nacional. Novamente de forma unilateral, a Ford informa que irá encerrar suas atividades no país, com o fechamento das plantas de Camaçari-BA, Taubaté-SP e Horizonte-CE. A ação da empresa global é conseqüência da completa ausência de um projeto de retomada da economia brasileira, que contemple a reindustrialização do país.

O governo despreparado e inepto de Bolsonaro e Guedes finge ignorar a importância da indústria como motor do desenvolvimento nacional, não apresenta qualquer estratégia para a atuação da indústria no Brasil e condena o país a uma rota de desindustrialização e desinvestimento, como vínhamos alertando há tempos. Não só alertamos como fizemos propostas, como o Inovar-Auto.

É incontestável a desconfiança interna e internacional e o descrédito quanto aos rumos da economia brasileira com este governo que aí está; não se toma uma decisão empresarial como essa sem considerar a total incapacidade do governo Bolsonaro.

No momento em que a indústria automobilística global passa por uma das mais intensas ondas de transformação, orientada pela eletrificação e pela conectividade, assistimos à criminosa omissão, e até boicote, do subserviente governo brasileiro à indústria, com consequências nefastas para a classe trabalhadora, ante um presidente incapaz de conduzir qualquer diálogo sobre a inserção do país no cenário que se configura rapidamente.

A Ford “foge” do Brasil deixando um rastro de desemprego e desamparo, após ter se valido durante muitos anos de benefícios e isenções tributárias dos regimes automotivos vigentes desde 2001, e que definiram a instalação da empresa em Camaçari, bem como a permanência das suas atividades no Ceará.

A decisão da empresa significa cerca de 50 mil empregos na cadeia produtiva em torno das três plantas desativadas, mas a ausência de compromisso e respeito aos trabalhadores e à sociedade por parte da Ford não é surpresa.

A tragédia é ainda evidentemente maior considerando o conjunto de plantas fechadas ou com anúncio de fechamento desde 2019, e o impacto sobre os diferentes setores da indústria brasileira, que rebaixam nossa posição econômica no cenário global de forma acelerada e dramática.

O desgoverno afunda ainda mais nossa população no roteiro de precarização, desemprego, desalento e pobreza. O desastre na condução da economia se casa e se completa, tragicamente, com a crise sanitária.

Reverter esse descaminho é mais do que urgente. É nossa luta.

Toda solidariedade aos trabalhadores/as e famílias afetados.

Estamos juntos nessa luta!!!!!!!!

Aroaldo Oliveira da Silva, presidente da INDUSTRIALL Brasil

Paulo Cayres, presidente da CNM-CUT Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT

Miguel Torres, presidente da CNTM-Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos da Forca Sindical e da Força