8,5 milhões de votos

Lula e Bolsonaro disputarão eleitores de Ciro e Simone no segundo turno

Para Vitor Marchetti, Simone parece disposta a fazer um movimento em direção a Lula. Na opinião de Alberto Carlos Almeida, ex-presidente se mantém favorito

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“Eu tenho lado e vou me pronunciar", promete Simone. Ciro afirmou que precisa "falar com o partido"

São Paulo – Neste primeiro dia de campanha pelo segundo turno das eleições 2022, considerar para onde irão os votos dados no domingo (2) para Simone Tebet (MDB) e Ciro Gomes (PDT) está entre os principais ponto de discussão. Isso porque as perspectivas para o segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro têm sido abordadas sob pontos de vista que consideram aspectos diferentes. O político e o estatístico, por exemplo.

Logo após a confirmação do resultado do primeiro turno, Simone disse enfaticamente que não vai se omitir e cobrou uma posição dos presidentes das legendas de sua coligação (MDB, Podemos, Cidadania e PSDB) para que se manifestassem em até 48 horas. “Eu tenho lado e vou me pronunciar no momento certo”, afirmou. “A palavra agora está com os presidentes dos partidos. É a hora de se posicionarem e se pronunciarem.”

A senadora acrescentou: “Eu espero que o façam e o façam rapidamente para que depois eu, como candidata à presidência que fui, nesse momento tão complexo (…), possa me posicionar”.

Já Ciro Gomes se declarou “profundamente preocupado com o que estou assistindo acontecer no Brasil”. “Nunca vi uma situação tão complexa, tão desafiadora, tão potencialmente ameaçadora sobre a nossa sorte como nação”, declarou ainda. A votação de Ciro, de apenas 3,04% do total dos votos válidos, foi sua pior da história. Ele nunca tinha obtido menos do que 10% dos votos em disputa pela presidência.

O pedetista afirmou que precisa “falar com o partido” para “acharmos o melhor caminho para servir a nação brasileira”. O vice-presidente do PDT, o deputado federal Pompeo de Mattos (RS), por sua vez, afirmou que a decisão da sigla será tomada em reunião da Executiva. “Temos que avaliar de maneira coletiva. Mas o PDT sempre esteve com o PT no segundo turno. Essa decisão, contudo, vai ser tomada coletivamente no início desta semana”, prometeu Pompeo.

Ciro implodiu pontes

Para o cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Federal do ABC, pela movimentação após o primeiro turno, Simone está aparentemente disposta  a fazer um gesto em direção a Lula, “mas precisa combinar com o partido”. “No caso de Ciro parece o contrário: o partido demonstra disposição de conversar com Lula, mas, pelo comportamento dele, o candidato nas últimas semanas implodiu diversas pontes”, diz à RBA.

Na opinião de Marchetti, uma parcela do eleitorado de Ciro já se movimentou na direção de Bolsonaro. “E o que sobrou dos votos dele devem migrar para Lula independentemente do próprio Ciro. Mas é difícil saber como o eleitor vai se comportar.”

As perspectivas, como lembra o professor da UFABC, são de que a campanha será “suja” no segundo turno. Dos 8,5 milhões de votos que Simone e Ciro obtiveram, uma parcela significativa rejeita fortemente Bolsonaro, embora uma parte também rejeite Lula, lembra o analista.

Estatísticas e pesquisas

Por sua vez, o também cientista político Alberto Carlos Almeida, que trabalha com estatísticas e pesquisas, avalia que “uma superestimação de Ciro e Simone e uma subestimação de Bolsonaro” pelas pesquisas levaram o atual presidente a sair-se como “o vitorioso em primeiro turno, apesar de ficar 5 pontos atrás”. Mas, pondera o analista, “Lula a (apenas) 1,59 ponto de vencer no primeiro turno.”

De acordo com ele, sem contar a exceção de 2006 (quando Geraldo Alckmin, então tucano, teve mais votos no primeiro do que segundo turno), em 2022 o patamar mínimo de votos de Lula e Bolsonaro no turno decisivo, “a princípio”, será o que já obtiveram – Lula recebeu 57,2 milhões de votos e Bolsonaro, 51 milhões.

Para uma perspectiva das próximas semanas, Almeida lembra que ambos disputam agora os 8,37% de eleitores que não votaram nem Lula nem Bolsonaro. “São eles que irão definir o vencedor. Lula precisa de 1,59% destes 8,37% para vencer. Bolsonaro precisa de 6,8%. A tarefa de Bolsonaro é dificílima”, avalia.

Para Almeida, Lula permanece sendo favorito, embora não mais “o franco favorito” que as pesquisas apontavam até a semana passada, com uma dianteira de 8 a 10 pontos para Bolsonaro. Ele destaca que, dos votos de Ciro no Nordeste, a maioria certamente vai para Lula.

Cercadinho

Enquanto isso, Bolsonaro continua sendo Bolsonaro. Precisando de votos, ele se referiu às agora ex-candidatas Simone Tebet e Soraya Thronicke (União Brasil) respectivamente como “estepe” e “trambique”. Ele falava sobre o resultado do primeiro turno a apoiadores, no chamado cercadinho do Palácio da Alvorada ontem à noite. “Vocês têm eu, Lula, Ciro, a ‘estepe’, a ‘trambique’, que é decoradora sabe daquilo, né? A decoradora. E acabou, não adianta procurar. É o que está ali, pô”, afirmou o chefe de governo.

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