CRIMES

Fala de Bolsonaro sobre TCU é cortina de fumaça para denúncia sobre primeira-dama

Advogado criminalista José Carlos Portella Junior afirma que presidente quer esconder vinculação pela Polícia Federal de Michelle Bolsonaro em uso de contas falsas para disseminação de mensagens

Carolina Antunes/PR
Michelle Bolsonaro está em inquérito da PF sobre atos antidemocráticos

São Paulo – O advogado criminalista José Carlos Portella Junior considera que a fala do presidente Jair Bolsonaro sobre um falso relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), com informações de morte pela covid-19, teve como um dos objetivos tirar de foco denúncias sobre Michelle Bolsonaro, mulher do mandatário. Segundo notícias desta terça-feira (8), a Polícia Federal (PF) vinculou a primeira-dama a contas falsas usadas para disseminar mensagens, em inquérito sobre atos antidemocráticos de abril do ano passado.

“Surge essa acusação contra a Michelle Bolsonaro e ao mesmo tempo já vem uma cortina de fumaça do Bolsonaro falando sobre a supernotificação de pessoas com covid, baseando essa afirmação em um documento falso. Depois foi provado que foi um apoiador, um auditor do TCU, indicação de sua família, que produziu esse documento que serviu para Bolsonaro fazer de cortina de fumaça”, afirmou Portella Junior para o jornalista Rafael Garcia, no Jornal Brasil Atual (confira abaixo a íntegra da entrevista).

O advogado acrescentou que essa é uma tática já conhecida do presidente para esconder questões de relevância nacional, como a pandemia ou a crise econômica. “Ele acaba escondendo a sua inabilidade de governar, falta de projeto para o povo”, além de escamotear denúncias contra a família. “Pode ver que não se fala quase mais do envolvimento de Bolsonaro com as milícias, o Queiroz sumiu do mapa, o Flávio Bolsonaro está sem ser incomodado.”

Atenção na PF

Portella Junior afirmou ver uma movimentação no noticiário envolvendo a Polícia Federal (PF). “Muitas notícias falando da Polícia Federal contra pessoal ligado ao Bolsonaro”, diz. “Se anuncia algo interessante agora com esse volume de investigações surgindo, novas, (que) nos dão uma visão um pouco diferente. Existe alguma coisa acontecendo dentro das instituições. Não está havendo um conluio total para manter o Bolsonaro no poder.”

O advogado destaca fato recente onde a PF optou por manter investigação sobre os chamados atos antidemocráticos, realizados por bolsonaristas, mesmo após decisão de arquivamento tomada pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, “o vassalo do Bolsonaro”, segundo o advogado. “Há um conflito de interesses entre a Polícia Federal e outros apoiadores do Bolsonaro”, segue Portella, que completa dizendo que vai ficando um pouco mais difícil para o presidente conduzir as coisas como ele pretende.

Para o especialista, aos poucos um cerco começa a ser formado, mas ele ressalta que não é simples determinar se isso terá alguma efetividade. “Vai depender de articulação, sobretudo com a população. Que insista nos movimentos de rua, como aconteceu no 29 de maio e se anuncia no 19 de junho”, para que esse movimento de enfraquecimento leve o governo para a lona. “Colocar uma pá de cal de vez nessa família de criminosos capitaneada pelo presidente Bolsonaro.”

‘Governo de bandidos’

Portella Junior entende que se Bolsonaro realmente for à lona, “vai carregar junto as instituições, causar um grande terremoto brasileiro na frágil democracia brasileira”. “O bolsonarismo sequestrou uma boa parte dos órgãos que compõem essas instituições.” Para ilustrar, citou casos de compra de deputados do centrão pelo chamado orçamento paralelo. “O que acontece ali é propina, através de meios institucionais, ou fora, comprando apoio dos congressistas.”

“É um governo de bandidos, o Ricardo Salles é um bandido declarado, nem esconde os crimes que comete. O (Ernesto) Araújo, do Itamaraty, outro bandido que veio para destruir qualquer laço de diplomacia, de cooperação com outros países, inclusive causando extremo dano para a população brasileira com a questão das vacinas. A família Bolsonaro, toda criminosa, o próprio Jair Bolsonaro. O Guedes, já envolvido com fraudes antes mesmo de assumir o posto de ministro da Economia. Não faltam nomes para citar e ilustrar a desgraça que é esse governo para a população.”

“Aqueles que ainda o apoiam se identificam com o fascismo encalacrado na figura do Bolsonaro, nos seus discursos e nas suas propostas. Infelizmente existe isso no Brasil. Não vai vir nada de bom desse governo, só destruição e morte”, acrescenta Portella Junior.

Assista à íntegra da entrevista