Câmara dos Deputados

Após tumulto provocado por autoritarismo de Lira, lideranças chegam a acordo sobre Mesa Diretora

“Bolsonaro não sabe com quem está mexendo”, diz diretor do Diap. “Autorizou Lira a fazer uma série de acordos mas, se não cumprir sua parte, vai começar a ter problemas”

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Lira fala em reunião de colégio de líderes, após ato autoritário que excluiu oposição da Mesa Diretora da Câmara

São Paulo – A reunião do colégio de líderes, que seria realizada na tarde desta terça-feira (2) para a eleição da Mesa Diretora da Câmara, foi adiada para amanhã às 10h. A primeira medida, de cunho autoritário, do novo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), foi anular a composição da Mesa, excluindo a oposição e membros do bloco de Baleia Rossi (MDB-SP). Seu argumento foi o de que o bloco que ele venceu foi registrado depois do prazo. A tarde de hoje foi repleta de reuniões em Brasília.

Lira recuou. No encontro com os líderes “se retomaram os espaços dos partidos que Arthur Lira havia derrubado”, disse à RBA o líder do PT, Enio Verri (PR). “Lira disse que entende o nosso tamanho, que teria que fazer o rearranjo, e com isso o PT ficou com a Segunda Secretaria.”

O presidente da Câmara falou à imprensa logo após a reunião, dizendo que chegou-se a uma “pacificação”, em relação ao impasse provocado por ele mesmo. “Isso deve ajudar a construção do entendimento da Casa. Sempre trataremos por maioria da Casa e nada de decisões isoladas”, prometeu.

Pelo acordo fechado na reunião, a composição da Mesa seria a seguinte:

  • Primeira vice-presidência: PL – Marcelo Ramos (AM);
  • Segunda vice-presidência: PSD – André de Paula (PE);
  • Primeira secretaria: PSL – Luciano Bivar (PE) – na composição anterior, este cargo seria do PT;
  • Segunda secretaria: PT – Marília Arraes (PE);
  • Terceira secretaria: PSB – Marcelo Nilo (BA);
  • Quarta secretaria: Republicanos – Rosângela Go;
  • Suplentes: PDT, DEM, PV e PSC.

Mais cedo, o PDT entrou com mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a decisão de Lira. A legenda argumenta que a medida fere o princípio da colegialidade e da proporcionalidade partidária. O PT, maior partido do grupo, foi excluído do terceiro cargo mais importante, a poderosa Primeira Secretaria, responsável pela gestão administrativa e financeira da casa, e, pelo acordo, foi “contemplado” com a Segunda.

Bolsonaro que se cuide”

Se Bolsonaro tem motivos para comemorar a vitória contra Baleia Rossi, mas principalmente sobre Rodrigo Maia (DEM-RJ), sua situação não é tão confortável como parece, no médio prazo. Primeiro, porque o modus operandi do Centrão, que Arthur Lira lidera, é conhecido. Seu apoio tem invariavelmente enorme custo, em cargos no governo e verbas. “O Centrão venceu a eleição, agora vai disputar o governo”, escreveu o deputado Marcelo Freixo (Psol-RJ) no Twitter. Segundo, porque o estilo de Lira é considerado “barra pesada”.

Para Antônio Augusto de Queiroz, o Toninho, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), com o início tempestuoso de sua gestão, o novo presidente da Câmara quis mandar recados, especialmente ao presidente da República. “Bolsonaro não sabe com quem está mexendo. Ele autorizou Lira a fazer uma série de acordos mas, se Bolsonaro, daqui a pouco, não cumprir a parte dele, vai começar a ter problemas”, avalia.

Impeachment

Para a presidenta do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), a decisão do presidente da Casa contra o bloco derrotado foi “o primeiro golpe” de Lira, e “mostrou a ofensiva de Bolsonaro e a sua articulação com o Centrão e com parte da direita liberal”. Ela afirmou, em vídeo divulgado nas redes sociais, que “a luta política mais importante continua sendo o impeachment”, embora reconheça que, com a eleição de Lira, a situação vai ser de “mais dificuldade”. Lutar no Congresso pelo auxílio emergencial e mobilizar a população pelo impeachment são as prioridades da oposição, disse.

No Twitter, o cientista político Vitor Marchetti comparou os ex-presidentes Fernando Henrique e Luiz Inácio Lula da Silva a Bolsonaro. “FHC e Lula jogaram com o sistema. Cumpriram dois mandatos inteiros. Bolsonaro pode fazer o que quiser em praça pública. Se jogar por dentro do sistema, como vem fazendo, vai sobreviver. E não estou falando apenas de se defender de um impeachment”, escreveu. “O presidencialismo de coalizão se transformou no principal seguro de vida do Centrão. Por razão diferentes, Collor e Dilma tentaram conduzir o jogo por fora. Caíram”, acrescentou o analista.