Para a maioria

Em São Paulo, Bancada Feminista do Psol promete projeto de esquerda aliado à coletividade

“O mandato coletivo, na nossa opinião, é mais horizontal, democrático e participativo. E ele quer quebrar com esse personalismo que existe tradicionalmente na política brasileira”, destaca Silvia Ferraro, uma das cinco co-vereadoras

Divulgação
Da esquerda para a direta, Carolina Iara, Silvia Ferrano, Paula Nunes, Natália Chaves e Dafne Sena compõem a Bancada Feminista

São Paulo – Pela primeira vez, a Câmara de São Paulo terá mandatos coletivos. A Bancada Feminista do Psol foi eleita com 46.267 votos – a 7ª maior votação da cidade – para ocupar uma cadeira no Legislativo paulistano. O fato inédito levará ao mandato cinco co-vereadoras que irão dividir as atribuições do cargo. São elas: Silvia Ferraro, Carolina Iara, Paula Nunes, Dafne Sena e Natália Chaves. 

Juntas, elas farão estreia no Legislativo que, para o próximo ano, terá ao todo, oficialmente, 13 vereadoras. E como a mais votada parlamentar entra também uma mulher negra e trans, Erika Hilton, eleita com a sexta maior votação, com 50.508 votos. Além da Bancada Feminista do Psol, o partido também elegeu outro mandato coletivo, o Quilombo Periférico , formado por seis integrantes e representado pela geógrafa e arte educadora Elaine Mineiro.

Pela legislação, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reconhece apenas um candidato para ter o registro. No caso da Bancada Feminista, é a professora de História da rede municipal de ensino Silvia Ferraro, que também é mãe e ativista da frente Povo Sem Medo e do movimento feminista.

Nova forma de fazer política

A jornalista Marilu Cabañas, do Jornal Brasil Atual, conversou com a co-vereadora nesta terça-feira (17), que garantiu um mandato em nome da coletividade. “Nós queremos mudar a própria forma oficial de se fazer política. O mandato coletivo, na nossa opinião, é mais horizontal, democrático e participativo. E ele quer quebrar com esse personalismo que existe tradicionalmente na política brasileira. Temos resquícios da época do coronelismo e do patriarcado. A política reproduz o machismo. Além de ser muito vertical, messiânica, com ‘o salvador da pátria’. Tudo centralizado numa figura só”, explica Silvia.

“Nós não gostamos deste perfil, queremos um perfil que tenha mais a ver com o que nós acreditamos que é o feminismo. E, para nós, o feminismo é coletividade”, ressalta. 

Representatividade 

A eleição inédita de duas chapas coletivas também marca a chegada de Carolina Iara. Eleita co-vereadora pela Bancada Feminista, ela é a primeira pessoa intersexo a ocupar o cargo. Ao lado dela, também foram eleitos Samara Santana (Psol), co-vereadora pelo Quilombo Periférico, e Thammy Miranda (PL). O candidato levou o cargo como o 9º mais bem votado. Os três, ao lado de Erika Hilton, fazem parte do conjunto de 25 pessoas trans eleitas à vereança em diversas cidades, de acordo com levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O número é também um marco no país que mais mata essa população e que, nas eleições municipais de 2016, elegeu 8 pessoas trans. 

Travesti, intersexo – uma pessoa que nasceu com aspectos biológicos dos dois sexos, masculino e feminino –, assistente de políticas públicas da secretaria municipal de Saúde e mestranda em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC), onde pesquisa sobre a empregabilidade de pessoas negras que vivem com HIV, Carolina também garante que defenderá todas essas bandeiras na Câmara. 

“São várias as questões que existem na mesma existência. E eu procuro, junto com as meninas da Bancada Feminista do Psol, aliar tudo isso que existe não só na minha existência, mas nas delas também, a um projeto político de esquerda, progressista. E que garanta direitos para estas coletividades e as demais que fazem parte do conjunto da classe trabalhadora que é diversa, concreta, tem cor, trajetória e status de saúde”, afirma a co-vereadora na Rádio Brasil Atual.  

As pautas da Bancada Feminista

Cria da Fazenda da Juta, em Sapopemba, extremo leste de São Paulo, que a levou ao caminho da militância, primeiro pela luta de mulheres negras por moradia e, depois, pelos coletivos LGBTQIA+, ela também afirma que defenderá a voz dos movimentos sociais no Legislativo, onde também pautará a segurança pública. 

“Que tipo de proteção é essa que damos para a população trans, travesti, LGBTQIA+, população negra, em que a polícia acaba sendo um instrumento de mais violência e até de morte?”, questiona. “A gente precisa repensar todo esse modelo. E a GCM (Guarda Civil Metropolitana) também tem o quinhão em tudo isso. E mais que isso, a prefeitura pode ajudar nas outras áreas que garantem segurança pública. Que é a cultura, lazer, saúde e educação, zeladoria, iluminação pública.”

Educação e trabalho 

Silvia, que começou militando nas comunidades eclesiais de base e construiu sua trajetória na luta pela defesa da educação pública, acrescenta que uma das prioridades do mandato será também a educação. Hoje, como comenta, a área é atacada pelo avanço dos projetos de privatização, que repassam a gestão da educação infantil e dos Centros Educacionais Unificados (CEUs) à entidades privadas. “Muitas com suspeitas de fraudes e esquemas de desvios de verbas”, contesta. 

“Então nós queremos verba pública para uma educação pública. Fortalecer a rede direta da educação na cidade de São Paulo. Para nós, essa é a prioridade e o que faz com que a educação pública possa ser uma educação de qualidade para os filhos das mães que necessitam de creche e dos trabalhadores e trabalhadoras da cidade”, frisa. 

A pauta de luta também será marcada pelas vozes da ativista do movimento negro Afronte, Paula Nunes. Assim como a trabalhadora de aplicativos e militante ecossocialista Dafne Sena e a militante pelo veganismo Natália Chaves. As cinco, juntas, querem construir pela Bancada Feminista um projeto que garanta uma São Paulo para a maioria. 

Confira a entrevista na íntegra 

Redação: Clara Assunção. Edição: Glauco Faria