Em várias frentes

No Rio, luta de Benedita da Silva é conquistar evangélicos e voto útil da esquerda

Candidata do PT, Benedita da Silva busca votos entre os evangélicos insatisfeitos com Crivella e acredita em união das forças progressistas para chegar ao segundo turno

Divulgação
Benedita da Silva cresce dentre o eleitorado carioca e defende unidade da esquerda para chegar ao segundo turno

Rio de Janeiro – Em situação de empate técnico no segundo lugar, de acordo com as pesquisas eleitorais, com viés de crescimento e chances palpáveis de chegar ao segundo turno da eleição para a Prefeitura do Rio de Janeiro, a candidata Benedita da Silva (PT), tenta conquistar dois públicos distintos nesta reta final de campanha. Um deles é o eleitorado evangélico, o outro é o eleitorado não petista da esquerda carioca. No primeiro grupo, Benedita, que é evangélica, disputa votos com o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), candidato à reeleição e pastor da Igreja Universal do Reino de Deus. No segundo, a disputa é pelo voto útil, pelo qual disputa a preferência com Martha Rocha (PDT).

De acordo com a mais recente pesquisa feita pelo Datafolha, publicada há quatro dias, o ex-prefeito Eduardo Paes, candidato do DEM, aparece em primeiro lugar com 28% das intenções de voto. Crivella e Martha surgem empatados em segundo lugar, com 13%, seguidos por Benedita, com 10%.

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Na disputa com Crivella, a petista busca colher os votos daqueles eleitores insatisfeitos com a gestão do prefeito, que sofre considerável rejeição mesmo entre os evangélicos. Mas, para expandir seu eleitorado neste setor, Benedita precisa ela própria vencer algumas barreiras: “Eu sofro resistência. O segmento evangélico de esquerda sofre resistência. Mas nós não vamos misturar o púlpito e a tribuna”, afirma a candidata, que ontem (26) à noite participou de uma live com doze jornalistas de mídias independentes.

Com fé

Benedita disse perceber uma redução na rejeição ao PT entre os evangélicos de um modo geral e aposta nas propostas de cunho social do partido para conquistar os votos que precisa: “Não vou ter o número de evangélicos que poderiam estar votando conosco pelas questões de ordem social. Mas, estamos fazendo um esforço enquanto evangélicos de esquerda para poder alcançar esse público. Já na eleição do Haddad nós conseguimos e tem muitos evangélicos que não são de partido nenhum e que votam conosco. Não só com a Benedita, mas com a esquerda, porque entendem de alguma forma que é a esquerda quem cuida mais da parte social e que tem coincidência com os mandamentos de Jesus quanto à questão da solidariedade e de matar a fome de quem tem fome.”

A candidata chama a atenção para a falta de diálogo que a esquerda passou a ter com a Igreja, tratada como “ópio do povo”: “Por conseguinte, a direita se apoderou dessa nossa abordagem. Nós usamos e abusamos em dizer que a sociedade organizada é a que está nos sindicatos, é a que está nas associações. Mas, a sociedade brasileira tem também total interesse em se organizar em torno daquilo que dá segurança para ela. E a Igreja dá segurança, dá muita segurança”, afirmou.

Diálogos

O uso da “máquina de propaganda” de grande parte das denominações evangélicas em favor de Crivella, entretanto, é reconhecido por Benedita: “É claro que, dentro da igreja, você vai encontrar muitos políticos. Porque não pensem que essas lideranças evangélicas que hoje se tornaram grandes empresários da fé não tenham interesses políticos. O interesse é o poder. E, realmente, as pessoas são catequisadas a se submeterem a suas orientações que, de espirituais, passem a ser orientações políticas.”.

Ela aposta no diálogo individual com os fiéis: “Tem que se fazer o enfrentamento político dentro, e não usando o púlpito. A gente tem outras formas de dialogar sobre política com os irmãos e irmãs fora do púlpito da igreja. E os pastores não. A maioria deles fala de política no púlpito da igreja”.

União da esquerda

Já na busca pelo voto útil do eleitorado de esquerda, a tática de Benedita, que tem o apoio do PCdoB, é não criticar potenciais aliados, mesmo quando o assunto é a inconclusa união de toda a esquerda em torno da chapa que traria a petista como vice do deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL: “Nós tentamos no Rio fazer uma aliança. O Partido dos Trabalhadores é o maior partido de esquerda do Brasil e da América Latina e se propôs a estar, como nós sabemos, na posição de vice em uma aliança com o PSOL para que a gente pudesse atrair também os outros partidos. Isso não foi possível”, diz.

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Benedita evita especular sobre os motivos que levaram o PSOL a rejeitar a aliança, o que provocou a desistência de Freixo: “Talvez a cláusula de barreira tenha influenciado esse quadro porque limita as alianças na eleição proporcional e todos querem ter sua representação na Câmara dos Vereadores. Mas, eu acredito que nós vamos nos somar no segundo turno. Agora, para eu chegar ao segundo turno é preciso que votem em mim no primeiro”.

Voto não petista

Futuras alianças à parte, o objetivo de Benedita é ampliar seus votos na esquerda não petista para com isso ultrapassar a pedetista Martha Rocha, ex-chefe de polícia no governo de Sérgio Cabral que sofre resistência em diversos setores. A petista diz acreditar que esse processo já possa ter se iniciado, e cita o manifesto lançado por artistas e intelectuais em defesa de sua candidatura: “Estou muito animada com esse manifesto espontâneo sendo assinado por pessoas que não são do PT, pessoas de outros partidos, mas que sabem o que significa deixar Crivella continuar a governar ou Eduardo Paes voltar para governar a cidade do Rio de Janeiro”, disse aos jornalisas.

“Nós sabemos que ser prefeita do Rio é um desafio muito grande, tem que ter muita responsabilidade para assumir esta cidade do jeito que ela está. Eu acho que sozinho ninguém faz nada, e eu estou muito contente porque estou vendo que não estamos sozinhos enquanto PT e PCdoB. Temos também o povo que está chegando junto com a gente, e isso para mim é muito importante”, afirmou a candidata.

Em caso de disputa com Paes no segundo turno, Benedita da Silva pretende intensificar a apresentação de suas propostas ao eleitorado, sobretudo no que diz respeito aos mais pobres: “Não mudarei o discurso, pois o que pretendo é transformar profundamente o Rio, fazer inclusão social e desenvolver diversidade cultural. É isso que faz essa cidade ser maravilhosa. Cumprir esse imenso desafio só é possível com a participação direta do povo. É muito mais do que consertar uma ou outra coisa que não esteja funcionando, é atingir o coração das pessoas para motivá-las a tirar o Rio desse pandemônio criado por Crivella”.