Tudo em "famiglia"

‘Rachadinha’: filha de Queiroz mandava ao pai quase todo salário como assessora de Bolsonaro

Nathália Queiroz transferiu R$ 150,5 mil para a conta do pai, no período em que atuava no gabinete do então deputado, hoje presidente. Repasses só foram interrompidos após investigação vazar para Flávio Bolsonaro

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Nome da filha de Queiroz já era citado em repasses "atípicos" de 2016, quando Nathalia era também assessora no gabinete de Flávio Bolsonaro, investigado pelo MP

São Paulo – Dados da quebra de sigilo bancário da personal trainer Nathalia Queiroz, filha do ex-assessor de Flávio Bolsonaro Fabrício Queiroz, revelam que ela repassava ao pai a maior parte do salário que recebia quando ainda estava lotada no gabinete do então deputado federal e hoje presidente Jair Bolsonaro. Entre janeiro de 2017 e setembro de 2018, Nathalia transferiu R$ 150,5 mil para a conta do policial militar aposentado. O equivalente a 77% do que recebeu da Câmara dos Deputados. 

De acordo com reportagem do jornal Folha de S. Paulo, a dinâmica dos repasses é a mesma descrita pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) sobre o esquema conhecido como “rachadinha” no gabinete do então deputado estadual, hoje senador, Flávio Bolsonaro(Republicanos), na Assembleia Legislativa fluminense. Segundo as investigações do órgão, Queiroz era quem comandava a operação, em que funcionários são coagidos a devolver parte de seus salários para o parlamentar que o emprega.

As suspeitas foram levantadas após relatório do antigo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O órgão indicava movimentações “atípicas” no valor de R$ 1,2 milhão na conta bancária do assessor do filho do presidente.

Nome “conhecido

Para abastecer as “rachadinhas”, Nathalia também devolvia parte de seu salário, no gabinete de Bolsonaro, ao seu pai. Os repasses, no entanto, foram interrompidos em setembro de 2018. Nesta quinta-feira (13), o jornal levantou que o período do fim das transferências coincide com a data em que a Polícia Federal teria vazado a Flávio Bolsonaro que Queiroz seria alvo de uma operação – a chamada Furna da Onça – o que poderia prejudicar a campanha de Jair Bolsonaro à presidência. 

Os salários de outubro e novembro daquele ano não foram repassados por Nathalia, suspendendo a transferência bancária que fazia há mais de um ano. O nome de Nathalia também já era citado no relatório inicial do Coaf, quando um total de R$ R$ 97,6 mil, ao longo de 2016, foi identificado como repasses a Queiroz. Na época, além de personal trainner, ela era assessora de Flávio na Assembleia. 

O envolvimento de Bolsonaro

Pelo Twitter, o deputado federal Ivan Valente (Psol-SP) ironizou a situação chamando de “tudo em famiglia” – em referência às máfias italianas. “O clã Bolsonaro e os Queiroz se lambuzaram com a rachadinha, tanto no gabinete do Flávio como no de Jair, como aponta a quebra de sigilo da filha do ex-assessor miliciano. São bandidos mentirosos e perigosos que precisam ser tratados como tal!”, descreveu o parlamentar. O deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) usou o mesmo termo, ao reforçar as denúncias: “a máfia corre solta na trupe do ‘capitão'”.

A oposição reafirma que Bolsonaro também está envolvido nas denúncias que envolvem atos criminosos cometidos pelos seus filhos, que o presidente sempre tenta se desassociar. Nas redes sociais, o senador Humberto Costa (PT-PE) observou ser esse o intuito de quando Bolsonaro entrou na disputa para ter “tanto o controle da PF”. “Para saber, com antecedência, sobre investigações e poder orientar melhor a quadrilha”, aponta o senador. 

Em nota à Folha, a defesa de Queiroz – que cumpre prisão domiciliar com a mulher, também investigada, Márcia Aguiar – alega que os repasses da filha seguiam uma lógica de “centralização das despesas familiares na figura do pai”.  

A deputada federal Talíria Petrone (Psol-RJ), contudo, define as denúncias no Twitter como um “poço” que, “de tão fundo, chega até o topo do poder”. Além da filha de Queiroz e dos filhos do presidente, as esposas de Bolsonaro, incluindo a atual, Michelle Bolsonaro, e uma de suas ex, Ana Cristina Valle, também são citadas em movimentações suspeitas nos gabinetes dos Bolsonaro.

Redação: Clara Assunção

Edição: Fábio M. Michel