impeachment?

‘Governo Bolsonaro precisa ter um fim’, diz Rogério Correia

Para deputado, Bolsonaro será o responsável pela expansão da pandemia, com muitas mortes. “Antes que ele acabe com o Brasil precisamos tirá-lo imediatamente”

Cleia Viana/Câmara dos Deputados
Crise no Ministério da Saúde vai fazer pandemia de covid-19 sair de controle, acredita parlamentar

São Paulo – Nesta quarta-feira (15), a Mesa Diretora da Câmara Federal acatou requerimento do deputado Rogério Correia (PT-MG), para que a Secretaria-Geral da Presidência da República informe os resultados dos exames para covid-19 realizados pelo presidente da República, Jair Bolsonaro. O requerimento foi acatado pelo 1º vice da Mesa, Marcos Pereira (Republicanos-SP), e pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

A Presidência da República tem 30 dias para responder. Bolsonaro nega fornecer a informação, mesmo ao ser evocada a Lei de Acesso à Informação (LAI). Ele alega que os exames são “sigilosos”.  

No início de março, o chefe do Executivo brasileiro viajou aos Estados Unidos com sua comitiva e, em seu retorno, ao menos 23 pessoas do grupo estavam infectadas pelo coronavírus, entre elas o secretário de Comunicação da Presidênci, Fábio Wajngarten.

Bolsonaro sempre negou que tivesse sido contaminado, mas nunca mostrou resultados de seu teste. Seja pela recusa em fornecer a informação, seja por supostamente mentir ao dizer que não se contaminou, caso tenha se infectado, Bolsonaro é passível de impeachment, diz Rogério Correia.

Para o parlamentar, “é bem provável” que o presidente tenha mentido. “Mais de 20 pessoas que estavam com ele na comitiva estavam infectadas, e o hospital negou o laudo de duas pessoas. Desconfia-se que sejam dele e da esposa”, afirma.

O petista lembra que inúmeros dirigentes do mundo e dois governadores brasileiros, Helder Barbalho (Pará) e Wilson Witzel (Rio de Janeiro),  revelaram os resultados positivos de seus testes.

Para o deputado, o país está à deriva e não haverá solução enquanto Bolsonaro for presidente. “Esse governo precisa ter um fim”, diz. “Acho que o impeachment é uma das saídas e, a partir do impeachment, temos que ver politicamente como as forças democráticas trabalham para mais rápido restabelecer a democracia no Brasil.”

Na opinião de Correia, a iminente queda do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, vai “ampliar o drama da pandemia no país”. “Vai ser o caos no Brasil e Bolsonaro é o grande responsável por isso.”

Qual o significado político e as consequências de a Câmara ter aceitado seu requerimento?

Bolsonaro tem 30 dias para enviar o teste à Câmara. Se não enviar, estará omitindo, o que é crime de responsabilidade e passível de impeachment. Se o teste revelar que ele mentiu e deu positivo, também. Isso é bem provável, afinal mais de 20 pessoas que estavam com ele na comitiva estavam infectadas, e o hospital negou o laudo de duas pessoas. Desconfia-se que dele e da esposa. Ele tem que remeter esse teste, senão estará omitindo ou mentindo, e ambos os casos configuram crime de responsabilidade.

Não adianta ele dizer que isso é de foro pessoal, porque é um homem público e isso é de interesse público, na medida em que contesta a Organização Mundial de Saúde, sai pessoalmente e chama manifestações. Todos os dirigentes do mundo fazem o teste e revelam o resultado.

Dois governadores no Brasil revelaram testes positivos, o presidente dos Estados Unidos (Donald Trump) teve que mostrar o dele, o primeiro-ministro britânico (Boris Johnson) idem. Só ele que atua escondendo do povo. Isso ele não pode fazer.

Alguns analistas e lideranças políticas acham que um impeachment, no atual quadro de caos do país, é politicamente inviável. O que acha que Rodrigo Maia fará nessa situação?

Se Bolsonaro não enviar o teste ou se mentiu, ele (Maia) não tem outra saída. Teremos que estabelecer um pedido de impeachment. Pode-se politicamente fazer um processo de redemocratização, marcar novas eleições. O que não podemos é continuar com Bolsonaro no Brasil.

Ele vai agudizar a pandemia, como já está fazendo. Agora, inclusive, a nau está à deriva, praticamente sem Ministério da Saúde, então ele vai ampliar a pandemia, e, depois, ele não tem projeto para a saída econômica dessa crise. Bolsonaro perdeu as condições de governabilidade. Esse governo dele precisa ter um fim. Temos que imediatamente agir.

Acho que o impeachment é uma das saídas e a partir do impeachment temos que ver politicamente como as forças democráticas trabalham isso para mais rápido restabelecer a democracia no Brasil. O governo Bolsonaro, na minha opinião, acabou.

“Acabou” mas ele continua no poder e destruindo a vida das pessoas. Quem está governando o país, Bolsonaro ou o general Braga Netto?

Eu acho que o país está à deriva, sinceramente. Ele dá uma ordem, o Ministério da Saúde outra; o Congresso, através do Senado, fala uma coisa, a Câmara tenta fazer outra; os governadores dão outra ordem. Enfim, o país está à deriva. Não há condições de Bolsonaro ficar. O Braga Netto faz parte do governo.

Braga Netto montou um grupo para coordenar ações do governo, por meio de resolução publicada no Diário Oficial, e parece que ele de fato é o “presidente operacional”. Como vê a situação?

Mas não tem legitimidade para tocar o sistema democrático, com o Senado, com o Congresso. Esse governo tem que terminar.

E o ministro Mandetta já caiu, praticamente…

Acho que ele não tem mais sustentabilidade. Praticamente caiu, não tem mais condições. Desautorizado, a equipe não consegue trabalhar. Então o Mandetta não consegue mais ter controle sobre a pandemia.

Como a queda dele repercutirá no Brasil, no combate à pandemia?

Primeiro, o drama da pandemia vai se ampliar. Sem alguém para coordenar o processo de reclusão social, de ter aqui a voz da Organização Mundial de Saúde, acaba prevalecendo o obscurantismo contra a ciência do Bolsonaro. Isso quebra o combate à pandemia.

Então, o primeiro sintoma que vamos ter é descambar completamente, sair de controle qualquer medida de retração da pandemia. Vai expandir a pandemia, com muitas mortes, muitos doentes. Vai ser o caos no Brasil e Bolsonaro é o grande responsável por isso. Esse é o primeiro problema. Então, a partir do fim do governo dele, vamos ter que restabelecer a relação entre os poderes para enfrentamento da pandemia e a garantia do  processo democrático até podermos rapidamente realizar outras eleições.

Então, na sua opinião, o governo não tem como de fato prosseguir…

Bolsonaro acabou. Antes que ele acabe com o Brasil precisamos tirá-lo, imediatamente.