Educação e família

Na Câmara, Weintraub ouve da oposição que é ministro ‘da baboseira ideológica’ e que argumenta com fake news

Em audiência na Comissão de Educação, estudantes da UNE foram impedidos de se manifestar e xingados de "maconheiros" por deputados

Cleia Viana/Câmara dos Deputados
Pedido de investigação contra negligência de Weintraub no Enem foi arquivado pelo STF, mas ministro da Educação será notificado a se manifestar sobre ataques a universidades federais

São Paulo –  A Comissão de Educação da Câmara dos Deputados recebeu nesta quarta-feira (11) o ministro da Educação, Abraham Weintraub, convocado para dar explicações sobre suas declarações de que há significativas plantações de maconha nas universidades federais e que os laboratórios de química das instituições são usados para a síntese de drogas. Os estudantes foram impedidos de se manifestar no colegiado, ofendidos e xingados por deputados da base do governo para o qual Weintraub trabalha, denunciou o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Iago Montalvão.

“Tentamos nos manifestar e fomos impedidos. Os deputados da base foram pra cima, agrediram, nos xingaram de maconheiros, vagabundos, nos mandando trabalhar, essas coisas”, contou. Ele apontou os deputados federais Filipe Barros (PSL-PA) e (Delegado) Éder Mauro (PSD-PA) como dois dos que xingaram os estudantes.

Segundo Montalvão, o ministro da Educação de Jair Bolsonaro “dá justificativas fantasiosas, sustenta que teria maconha nas universidades e justifica isso através de jornais sensacionalistas, tentando reafirmar um discurso ideológico para desqualificar o ambiente das universidades”.

“Ele tenta se esquivar das críticas, não assume equívocos, parece que está tudo bem com a educação.”  Montalvão observa que Weintraub, em seu depoimento, se vangloriou, por exemplo, de que o MEC foi eficiente na realização do Enem e na devolução das verbas contingenciadas das universidades federais. “São algumas obrigações mínimas do MEC. Mas ele não aponta nada de concreto para a educação.”

O ministro foi duramente criticado por deputados da oposição, como Maria do Rosário (PT-RS) e Alessandro Molon (PSB-RJ). “O MEC está acéfalo, não há política pública, o Plano Nacional de Educação (PNE) não está sendo cumprido, as diretrizes e metas aprovadas na Câmara estão sendo desconsideradas”, afirmou a deputada gaúcha.

Segundo ela, Weintraub desconsidera as instituições e não faz planejamento. “O PNE não pertence a um governo ou outro, é constitucional. Devemos cobrar que seja cumprido, assim como a Constituição.”

A deputada lembrou que o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), por lei, só vigora até 2020, e não há iniciativas do governo para evitar sua extinção, apenas do Legislativo. O Fundeb corresponde a 63% do financiamento de toda educação básica do país. Em outubro, o vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários da Educação (Consed), Frederico Amancio, afirmou, em audiência na Câmara, que se o fundo acabar a educação básica no Brasil será inviabilizada.

Maria do Rosário enumerou problemas da gestão do MEC sob o atual governo, como cortes de R$ 2,4 bilhões previstos para investimentos em educação infantil e média e os cortes de bolsas de mestrado e doutorado. “E aqui ouvimos uma baboseira ideológica. É o ministro da baboseira ideológica. Uma ideologia de péssima qualidade”, disse a parlamentar. “O ministro não traz números, trouxe fake news e mentiras.”

Molon dirigiu-se ao ministro para criticar suas afirmações de que representa valores os quais serão ensinados nas universidades e escolas. “Não cabe ao senhor dizer o que vai ser ensinado. O senhor não é bedel, não é censor, é ministro da Educação, e a primeira tarefa que deveria assumir seria garantir liberdade de cátedra dos professores”, disse Molon. “O papel do sr. não é o papel de polícia.”

Segundo o deputado, Weintraub “está desmoralizando as universidades que levaram décadas para ser construídas”. “O sr. não pode fazer isso. Ninguém lhe deu esse direito. Sua obrigação é cumprir a Constituição, não implantar os valores que o sr. quer nas universidades. Parece que os ataques escondem a intenção de fazer com que elas se tornem centros de doutrinação daquilo que o governo quer”, acrescentou Molon.

O deputado Tiago Dimas (Solidariedade-TO) cobrou mais recursos para as escolas. “Enquanto estamos discutindo  balelas, alunos e professores não têm condições (de ensinar e aprender).”

“Eu tô aqui para defender a família”

Já Weintraub falou de reportagem da TV Record para ilustrar que há uma plantação de maconha encontrada pela polícia no campus da Universidade de Brasília (UnB).

Molon contra-argumentou: “a única coisa que o sr. fez (na comissão) foi atacar as universidades públicas, e com notícias falsas. O inquérito sobre esse caso da UnB mostrou que as plantas não foram encontradas em terreno da UnB”.

Weintraub se defendeu dizendo que “esse governo foi eleito para resgatar os valores brasileiros e dizer a verdade, que a bíblia profana de Karl Marx é contra a família”. Ele acrescentou que a ideologia marxista “quer destruir a família e eu tô aqui para defender a família e transformar o Brasil num país de classe média” (sic).

Também comentou a questão das drogas reafirmando que o problema é real. “Existe gente que defende as drogas. Mujica (ex-presidente uruguaio) liberou a maconha e agora defende a liberação de cocaína.”

Usando uma bravata, definiu o que quer deixar como “legado” de sua gestão: “quero que, quando  olhem  para o passado, vejam 2018 (como) o último ano da Dilma-Temer como o fundo do poço. O fundo do poço ficou pra trás e vai começar a inflexão”, prometeu.

Sobre o Fundeb, o ministro declarou que o governo pretende enviar uma “proposta própria”. “Gostaríamos que fosse uma iniciativa do Congresso, mas não conseguimos caminhar, e vamos enviar uma PEC.”