A mamata acabou?

Ao fazer ‘toma lá da cá’ com Congresso, Bolsonaro comete quase um ‘estelionato eleitoral’, diz professora

Governo tem negociado liberação de verbas para garantir votações no Legislativo. Cientista política destaca que postura do presidente é contrária ao seu discurso de campanha

José Cruz/EBC
Manobra do governo repete barganha para aprovação da "reforma" da Previdência

São Paulo – Até o final deste ano, o governo de Jair Bolsonaro deve liberar cerca de R$ 1,2 bilhão em emendas aos parlamentares para garantir vitória em votações no Congresso Nacional. De acordo com informações do jornal Folha de S. Paulo, desta terça-feira (3), deputados e senadores foram informados que o governo prometeu uma execução semanal de R$ 300 milhões. O compromisso com a liberação foi firmado ainda no primeiro semestre do ano como moeda de troca para apoio às medidas do Executivo.

Agora, o governo espera aprovar até o dia 17 o orçamento para 2020, e pretende destravar essa pauta com a execução de emendas que já foram anunciadas aos presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), respectivamente, e ao líder do governo no Congresso, o senador Eduardo Gomes (MDB-TO).

Na prática, Bolsonaro repete o “toma lá, dá cá”, que ficou caracterizado também no processo de aprovação da “reforma” da Previdência, quando recursos do programa Mais Médicos foram desviados para a compra de apoio, como analisa a cientista política e professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Maria do Socorro Sousa Braga em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Cosmo Silva, da Rádio Brasil Atual.

“Ele (Bolsonaro) acabou, digamos assim, cometendo quase que um estelionato eleitoral para o eleitorado, porque ele se vendeu praticamente durante a campanha dizendo que não ia fazer o que chamou de ‘jogo das velhas raposas’, dos partidos que a gente começa a considerar tradicionais”, ressalta Maria do Socorro. “Ele se elege falando que não ia entrar pela velha política, não ia ficar nessas negociações a varejo e ele não tem como não fazer isso, porque é um governo de minoria e governo de minoria vai ter que negociar cada pleito porque não tem aquela base parlamentar que ele devia ter trabalhado desde o começo do governo.”

“Ele terá maiores dificuldades e ficará refém do Congresso. Porque o Congresso hoje tem condições de mostrar para a sociedade que ele é capaz de garantir a governabilidade. Não é pensar que o Congresso está negociando questões particulares, claro que tem uma continuidade dessa política, de negociar e fazer essa barganha, mas tem uma outra parte do Congresso que está mostrando também para o Executivo que não concorda com a sua pauta, com os seus projetos de lei”, avalia a docente.

Perto das eleições municipais que ocorrem em 2020, os parlamentares aproveitam das emendas para utilizá-las no fortalecimento de suas bases eleitorais. Por enquanto, se as regras legislativas forem mantidas, o novo partido do presidente seguirá fora da disputa A cientista política destaca que o cenário é “complicado para a família Bolsonaro”, que nesta semana teve já o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), suspenso pela direção do seu partido.

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