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Memória

Pensamentos e versos de Marighella confrontam-se com momento político brasileiro

Livro lançado na Ocupação 9 de Julho, centro de São Paulo, reúne textos e poemas do ativista assassinado em 1969. Para Vladimir Safatle, é uma resposta contra o retorno do que há "de mais vil e obscuro na história brasileira"
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
15:21
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Reprodução

Centenas de pessoas foram à Ocupação 9 de Julho, onde foi lançado livro que reúne pensamento de Marighella

Não ficarei tão só no campo da arte,

e, ânimo firme, sobranceiro e forte,

tudo farei por ti para exaltar-te,

serenamente, alheio à própria sorte

 

Para que eu possa um dia contemplar-te

dominadora, em férvido transporte,

direi que és bela e pura em toda parte,

por maior risco em que essa audácia importe.

 

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma

que não exista força humana alguma

que esta paixão embriagadora dome.

 

E que eu por ti, se torturado for,

possa feliz, indiferente à dor,

morrer sorrindo a murmurar teu nome.

 

São Paulo –Como já observou o jornalista e pesquisador Mário Magalhães, autor de biografia publicada em 2012, durante muito tempo a historiografia oficial tratou de excluir Carlos Marighella, morto em 4 de novembro de 1969 em emboscada organizada pela ditadura. O próprio ativista viveu décadas na clandestinidade. Nos últimos anos, apesar das resistências, como a do filme cujos autores encontram dificuldades para distribuir nos cinemas, Marighella tem sido recolocado na narrativa política do país e vem sendo conhecido inclusive por aspectos inesperados, como o de poeta. O soneto acima, por exemplo, foi escrito há 80 anos, em 1939, quando ele estava preso em São Paulo.  Um ato realizado ontem (12) à noite na Ocupação 9 de Julho, região central da capital paulista, lançou livro organizado pelo professor e filósofo Vladimir Safatle com escritos e reflexões do guerrilheiro.

Chamamento ao Povo Brasileiro e Outros Escritos – Carlos Marighella (Ubu Editora, 320 páginas) é uma espécie de “resposta” ao momento brasileiro, afirmou Safatle durante o evento, que teve também performances artísticas e reuniu centenas de pessoas na ocupação em um antigo prédio do INSS onde ficam 124 famílias, segundo o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto do Centro (MSTC). “Não é um livro memorialista, não é um documento. É, na realidade, um livro de intervenção”, disse o pensador na abertura do ato, que contou ainda com a presença de Clara Charf e de Carlos Augusto Marighella, companheira e filho do ativista.

Safatle leu trecho do livro em que Marighella, em pronunciamento público, fala em liberdade de criação e religiosa, fim da polícia política e confisco de fortunas. “Todos os personagens dos quais Marighella fala voltaram.” O livro traz textos de Antonio Candido e Jorge Amado, ambos de 1994, e é dividido em três tópicos, basicamente: “Por que resisti à prisão” (que dá nome a um outro livro), “A análise política do país e a ruptura com o PCB” e “A luta armada”.

Para Bruno Kassabian, do Levante Popular da Juventude, “este é um momento em que a juventude tem a chance de inflamar a chama da esperança”. Ele defende mais presença na rua do que em reuniões. “Ele (Marighella) nos ensina a combater o imperialismo como inimigo número 1 da humanidade”, afirmou Bruno, para quem as ações do ativista também mostram que é possível “viver poesia, amar, lutar”. Também se manifestaram representantes da Uneafro (União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora) e da Liga dos Camponeses Pobres.

A cantora Juçara Marcal também faz leitura de trechos do livro, como aquele em que Marighella descreve sua prisão, pelo Dops, em pleno cinema na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, durante exibição do filme Rififi no Sáfari, em 1964 – ele chegou a ser baleado por um agente. Ele escreve, por exemplo, que “liberdade não se defende senão resistindo” e “o conformismo é a morte”.

Em seguida, integrantes do Coletivo Comum e do grupo Cabaré Feminista se apresentam. Elas leem a carta em que Marighella anuncia seu rompimento com o Partido Comunista, em 1966, com críticas à “capitulação à burguesia”, a acordos eleitorais, à Frente Ampla e ao MDB, criado naquele ano. Ele passa a organizar o grupo que receberia o nome de Ação Libertadora Nacional (ALN).

As cantoras do Cabaré interpretam quatro canções: Estado de Exceção, A Nova Aurora ainda Brilhará, composições de Elaine Guimarães, e duas adaptações de poemas de Marighella, Liberdade e País de uma Nota Só. Este segundo, pelo ritmo, guarda alguma semelhança com José, de Carlos Drummond de Andrade.

A passagem subiu,

o leite acabou,

a criança morreu,

a carne sumiu,

o IPM prendeu,

o Dops torturou,

o deputado cedeu,

a linha dura vetou,

a censura proibiu,

o governo entregou,

o desemprego cresceu

a carestia aumentou,

o Nordeste encolheu,

o país resvalou.

O advogado Carlos Augusto Marighella, que assina o posfácio, lembrou que veio pela primeira vez a São Paulo justamente quando seu pai foi assassinado pela repressão, na Alameda Casa Branca, nos Jardins, cinco décadas atrás. “Lá na Bahia, o Comando Militar queria impedir a família de prantear o seu morto”, recordou. “Nestes 50 anos, todas essas mentiras propaladas contra meu pai, que visavam ofendê-lo, foram completamente desmentidas. De ‘criminoso’, Marighella foi conquistando corações e mentes, transparecendo aquilo que ele realmente é. Poeta, patriota, preocupado com aquela parcela da população desassistida”, disse ainda, acrescentando que o livro mostra “a atualidade do pensamento” do ativista, cujos textos e declarações falam de problemas que o Brasil ainda vive.

“Um país que tem capacidade de construir uma realidade totalmente diferente, fazer um país feliz”, emendou Carlos, que foi à Ocupação com Maria, uma de suas filhas, que nasceu enquanto ele estava preso, nos anos 1970. “Ninguém lembra o nome do homem que apertou o gatilho e ceifou a vida do meu pai, que está cada vez mais vivo.”

Safatle encerra o ato com nova menção ao passado e ao presente. “Neste momento brasileiro, em que todos os dias somos ameaçados com o retorno do que há de mais vil e obscuro na história brasileira, esta é a nossa resposta. A essas pessoas que fingem nos governar, que já tentaram nos apagar, física e simbolicamente, eles perderam.”