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Censura

O filme que não consegue estrear: ‘Marighella’ tem exibição cancelada por restrições da Ancine 

Em nota, produção do filme disse que "não conseguiu cumprir a tempo todos os trâmites exigidos pela agência". Nas redes, escritores, políticos e artistas falam em censura
Publicado por Clara Assunção
14:52
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Divulgação

"É esta a história que não querem que seja conhecida.  É este o personagem que pretendem condenar ao esquecimento", afirma autor da biografia sobre Marighella

São Paulo – Para o jornalista e escritor Mário Magalhães, a vida do militante comunista Carlos Marighella é a história que uma parte da sociedade não quer que seja conhecida. A prova disso são os constantes atropelos à exibição do filme Marighella que, nesta quinta-feira (12), teve sua estreia cancelada por seus produtores. Em nota à imprensa, a O2 Filmes afirmou não ter “conseguido cumprir a tempo todos os trâmites exigidos pela Ancine (Agência Nacional do Cinema)”.

O longa-metragem que entraria em cartaz no Brasil no dia 20 de novembro, para marcar os 50 anos da morte de Marighella e o Dia da Consciência Negra, ainda não tem nova data prevista de estreia. Para escritores, políticos e artistas, a situação só confirma as suspeitas de censura e boicote por parte da agência em meio ao governo de Jair Bolsonaro. “É esta a história que não querem que seja conhecida. É este o personagem que pretendem condenar ao esquecimento. O esquecimento é amigo da barbárie”, avalia pelo Twitter Magalhães, que é autor do livro biográfico Marighella – O homem que incendiou o mundo, usado como base para a produção da obra cinematográfica.

Em agosto, o filme, que marca a estreia do ator Wagner Moura na direção, teve dois recursos negados pela agência, que indeferiu uma análise de ressarcimento de despesas pagas pela produtora no valor de mais de R$ 1 milhão pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), além de também ter negado o recurso que questionava se a verba para comercialização do filme poderia ser liberada antes da assinatura do contrato com FSA que, de acordo com a O2 ao jornal Folha de S. Paulo, estaria demorando para ser acordado. Ao impedir a liberação, a produtora precisou adiar a estreiacomo anunciado nesta quinta.

Para a deputada federal Margarida Salomão (PT-MG) as imposições da Ancine sobre o longa-metragem não deixa de ser uma consequência da gestão de Bolsonaro sobre a agência, que tenta controlá-la por critérios quase que próprios. “O ‘não cumprir os trâmites exigidos’ deve ser compreendido como cristalina perseguição do governo Bolsonaro”, avalia a parlamentar.

Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Frente Povo Sem Medo, Guilherme Boulos, também por meio do Twitter, lembrou da declaração do presidente que, em julho, chegou a dizer que “se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine”. “O filtro tem outro nome: censura!”, ironiza Boulos. O ex-deputado federal Chico Alencar apontou o cancelamento como “um ataque à cultura e à economia brasileira”. “Bolsonaro cortou 43% do fundo audiovisual. Ele tá destruindo um setor q movimenta R$ 20 bilhões ao ano e gera mais de 400 mil empregos”, explica o ex-parlamentar em referência às recentes medidas promovidas pelo governo.

O filme Marighella segue sendo exibido em festivais de cinema no mundo, além de já ter sido aplaudido no Festival de Berlim. A produtora O2 afirma que agora o objetivo principal é garantir a estreia no Brasil, mas o que se especula é que a obra seja lançada só após abril de 2020. “As pessoas precisam saber q no Brasil tem gente resistindo. E que essa luta é justa”, escreveu a professora universitária, blogueira feminista e pedagoga Lola Aronovich, referindo-se à frase destacada no trailler do filme . “Qualquer semelhança com os tempos atuais não é mera coincidência”.

A vez do Chico 

A coluna do jornalista Ancelmo Gois, do Jornal O Globo, divulgou ainda nesta sexta-feira (13) que o filme Chico: Artista Brasileiro foi censurado pela Embaixada brasileira em Montevidéu. Em nota enviada ao diretor da obra Miguel Faria Junior, a JBM Producciones do Uruguai disse que o filme foi proibido de integrar a mostra do Festival Cine de Brasil 2019 por decisão da Embaixada.