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Dilma: golpe admitido por Temer no ‘Roda Viva’ foi ponte para Bolsonaro

Ex-presidente usou duas vezes em um minuto o termo "golpe" para definir o impeachment de Dilma Rousseff. "Tentou se esquivar, mas projeto econômico o entrega", diz Dilma
Publicado por Gabriel Valery, da RBA
17:22
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reprodução/tv cultura

Temer: "Jamais apoiei e fiz empenho pelo golpe"

São Paulo – A participação do ex-presidente Michel Temer (MDB) no programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite de ontem (17), ganhou as redes e rodas de discussões políticas em todo o país. O destaque foi o momento em que chama o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), em 2016, de “golpe”. O reconhecimento veio junto de uma tentativa dele de se desvincular da articulação golpista.

Dilma afirmou que a fala de Temer foi um “sincericídio”. “Admitiu que eu sofri um golpe de Estado e disse que se Lula tivesse ido para o meu governo não teria havido o impeachment”, completou a ex-presidenta, ao mencionar a continuação da fala de Temer de que se Lula não tivesse sido impedido pela Justiça de assumir a Casa Civil naquele ano, o golpe fracassaria.

O impedimento de Lula veio na esteira de uma jogada do ex-juiz Sergio Moro e da força-tarefa da Lava Jato, que vazaram conversas entre Lula e Dilma. Dos 22 áudios grampeados ilegalmente por Moro, o ex-juiz vazou apenas um, fora de contexto, com objetivo de manipular a movimentação e causar a impressão de que Lula estaria em busca de foro privilegiado.

Moro foi premiado por sua ação contra os petista e nomeado ministro da Justiça e da Segurança Pública pelo maior beneficiado com a ausência de Lula na eleição, Jair Bolsonaro (PSL). A narrativa contou com a conivência do Judiciário. Tais manobras ficaram às claras após a série de matérias conhecida como Vaza Jato começar a circular, com trabalho de jornalistas do The Intercept Brasil e outros parceiros.

Temer e o golpe

Vice de Dilma, Temer tentou se esquivar do protagonismo no golpe. “Jamais apoiei e fiz empenho pelo golpe. Aliás, muito recentemente, o jornal Folha detectou um telefonema que o ex-presidente Lula me deu, onde ele pleiteava, e depois esteve comigo, para trazer o PMDB para impedir o impedimento. Eu tentei. Mas a essa altura, eu confesso que a movimentação popular era tão grande e tão intensa que os partidos já estavam vocacionados, digamos assim, pela ideia do impedimento (…) Esse telefonema do Lula revela que eu não era adepto do golpe“, disse.

Dilma discorda e relaciona o programa político implementado por Temer em seu curto período como presidente com o subsequente, de Bolsonaro. “Temer não disse, contudo, que o Golpe de 2016 foi para enquadrar o Brasil no neoliberalismo. E, claro, negou ter participado diretamente do golpe. Nenhuma menção dele a seus dois auxiliares mais próximos: Moreira Franco e e Eliseu Padilha. A Ponte para o Futuro é a matriz do programa de governo de Bolsonaro.”

Reações

“O impeachment de Dilma – além de ser uma piada óbvia (gangsters [Cunha/Aécio] fingindo ser moralmente ofendidos por *pedaladas*) – está finalmente sendo reconhecido como a 1ª tentativa de alcançar objetivos fora da democracia. Era a 1ª pedra que construiu o caminho para Bolsonaro”, postou Glenn Greenwald, um dos jornalistas responsáveis pela Vaza Jato.

Dilma caiu, teoricamente, pela assinatura de decretos de créditos suplementares, que ficaram conhecidos como “pedaladas fiscais”. Temer mesmo utilizou dos recursos, presidentes anteriores e governadores costumeiramente recorrem a tal tipo de manobra contábil para fechar as contas.

Mesmo uma das autoras do pedido de impeachment, hoje deputada Janaína Paschoal (PSL-SP), reconheceu a farsa no processo.

Peso histórico

O jornalista Kennedy Alencar considera haver alto “peso histórico” nas palavras de Temer. “Fica claro que houve, sim, golpe parlamentar, expressão que sempre usei em relação ao impedimento e que foi negada por parcela do país. Torna-se evidente o papel de Moro e da Lava Jato na derrubada de Dilma, o que foi uma interferência política ilegal do Judiciário no Executivo (…) Numa democracia plena, isso não poderia ter ocorrido. O relato de Temer tem forte peso histórico. Ele diz que o motivo de Lula para virar ministro era evitar o impeachment, o que derruba o argumento da Lava Jato e do STF para impedir a ida do petista para Casa Civil.”

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