Home Política Governo está ‘desabando’, mas oposição precisa ir além da esquerda
Rui Costa

Governo está ‘desabando’, mas oposição precisa ir além da esquerda

Governador da Bahia defende diálogo com outras forças e considera gestão Bolsonaro um 'vazio de ideias'. Para ele, esquerda deve dar mais atenção à segurança. E modelo de capitalização seria 'desastroso'
Publicado por Vitor Nuzzi, da RBA
07:52
Compartilhar:   
Revista Fórum
Rui Costa governador

O governador da Bahia, Rui Costa: governo Bolsonaro representa ‘vazio completo de ideias’

São Paulo – O governo Bolsonaro está “desabando”, até antes do que se previa, mas a oposição, se quiser se fortalecer, precisa ir além da esquerda e – particularmente no caso do PT – se reaproximar de sua base social, afirma o governador da Bahia, Rui Costa. Reeleito em 2018 com 75% dos votos, ele só perdeu em três dos 417 municípios baianos. Para Costa, isso é consequência do contato direto com a população.

O governante brinca dizendo que é até difícil fazer oposição, diante do “vazio completo de ideias” no Planalto. “É a ausência absoluta, vai criticar o quê?”, ironiza, depois de observar que nos primeiros meses de governo o bom senso determina à oposição recolher seu trem de pouso. Mas, passado esse primeiro momento, para encorpar a resistência, é preciso mais. “Temos de construir além do chamado campo de esquerda’, afirma.

“Esse é um trabalho que nós, governadores, estamos fazendo, conversando com quem pensa diferente”, diz Costa, que participou ontem (25) à noite de entrevista coletiva no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, na região central de São Paulo, onde no mês passado esteve o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). “Construir hegemonia política é tarefa difícil. É ter capacidade de dialogar com quem pensa diferente de você.”

Sobre a relação com o governo Bolsonaro, ele respondeu que não mudou em relação a Temer. “O tratamento é idêntico. Era ruim, continua do mesmo jeito.” Segundo Costa, o governo federal deve R$ 180 milhões à Bahia relativos a custos com obras do metrô.

Pé na lama

Quase no encerramento, ele driblou uma pergunta sobre candidatura presidencial, argumentando que a discussão deve ser feita de baixo para cima, sem imposição. “Não vamos começar pelo fim. Em vez de estar brigando pra ver quem junta mais crachá na convenção, vá botar o pé na lama, vá se misturar com o povo. Precisamos voltar a fazer convencimento. Subir o morro, descer a baixada.”

reproduçãoRui Costa no Barão
Rui Costa, durante coletiva no Barão de Itararé, em São Paulo

Para o governador petista, não só seu partido, mas a esquerda em geral muitas vezes rendeu-se a interesses corporativos “que nem sempre representavam uma visão social”, com certa “captura” do Estado por corporações. Ele defendeu um reencontro da legenda com sua base social. Contou ter feito mais de 500 visitas institucionais – “Um a cada três dias no interior” – e ido 400 vezes a escolas. “Para ouvir muitas vezes desaforos dos meninos. É isso que pregávamos na fundação do PT”, afirma.

Isso também significa mexer em temas espinhosos. Costa falou longamente sobre a questão da violência, revelando inclusive que há um debate entre governadores sobre a criação de uma força regional da segurança pública. “Pretendemos ter uma estrutura regional, que possa ser compartilhada.”

Crime organizado

“Nós da esquerda em geral estamos dando pouca atenção à violência competida pelo crime organizado”, diz o governador, referindo-se às jovens vítimas das disputas do tráfico. “Os nossos governos não enfrentaram isso. (…) Eu não defendo aumento da pena, defendo o cumprimento da pena”, afirma, lamentando a soltura precoce de condenados por homicídios, que segundo ele são estatisticamente reincidentes.

“Não vamos conseguir representar essas famílias (de vítimas de assassinatos) se não conseguirmos dar uma resposta a elas. Não vão nos ouvir. Em alguns pontos, não somos majoritários na nossa forma de pensar.” De acordo com o governador, na Bahia foram criados núcleos para que, em casos de delitos mais leves, o condenado possa cumprir penas alternativas com garantia de acompanhamento pelo governo estadual.

Ele falou também sobre o consórcio de governadores da região Nordeste e a busca de uma “sintonia” para realizar ações concretas, compartilhar “boas práticas” e conseguir “algum nível de enfrentamento contra a retirada de direitos”. Há um debate engatilhado sobre a formação de uma “Rede Nordeste”, de comunicação compartilhada, usando a estrutura das TVs educativas, presentes em seis do nove estados da região.

Ainda segundo o governador, existe em curso uma articulação com os sete estados do Norte. Costa lembrou que, somadas, as duas regiões têm maioria no Senado: 48 de um total de 81 cadeiras.

O baiano também considera possível e necessário influenciar na questão da “reforma” da Previdência, no sentido de “não empobrecer a já pobre população rural do Nordeste, quem já vive com limite mínimo de renda”. Para ele, insistir na capitalização, como quer o ministro Paulo Guedes, é desastroso, inclusive para as contas públicas. O governador afirma que nenhum país de ponta, economicamente falando, adotou esse modelo. “Não é aceitável para o Braisl, isso vai empobrecer ainda as pessoas idosas. Além do que, quebra o conceito de solidariedade inter-geracional.”

Costa reservou a fala final para um comentário sobre a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “É a a maior injustiça que já vi acontecer na minha existência enquanto ser humano”, afirmou.