Raposa no galinheiro

‘Musa do veneno’, Tereza Cristina será ministra da Agricultura de Bolsonaro

Liderança dos ruralistas, deputada federal do DEM-MS comandou manobras na Câmara para aprovar o 'Pacote do Veneno'. E deverá dar as cartas também no Meio Ambiente, em caso de fusão das duas pastas

Reprodução/Youtube
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Tereza Cristina, do Democratas, visitou Bolsonaro no começo de outubro, quando foi reiterar o apoio da sua bancada ao então candidato

São Paulo – O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) anunciou na noite de ontem (7) a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS) como ministra da Agricultura. Primeira mulher escolhida para compor o primeiro escalão do governo que toma posse em 1º de janeiro, ela recebeu o apelido de Musa do Veneno pelos próprios ruralistas quando em maio, promoveu festa para comemorar a aprovação, em comissão especial, do chamado Pacote do Veneno, projeto que revoga a atual Lei dos Agrotóxicos.

Como presidente da comissão, ela comandou as manobras e “tratoradas” que deixaram o conjunto de leis pronto para votação em plenário, apesar de protestos das mais importantes entidades nacionais e estrangeiras. Até a ONU pediu ao governo brasileiro que arquivasse o projeto que facilita ainda mais as regras do país para o registro, importação, produção, comercialização e utilização desses venenos.

A ruralista, reeleita deputada estadual, preside a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), da qual faz parte o futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (PP-RS) e terá papel-chave no comando de políticas que, pelo que tudo indica, vão atender plenamente apenas os interesses do agronegócio que ela representa. 

Se o presidente eleito mantiver a proposta, até agora indefinida, de transformar o Ministério da Agricultura em um superministério que incorporará o Ministério do Meio Ambiente, Tereza Cristina será, na prática, “a raposa que toma conta do galinheiro”. 

O desmatamento, que já devorou grande parte do Cerrado, e que avança sobre a floresta Amazônica, serve aos objetivos do agronegócio: ampliar as pastagens e as já extensas áreas de monocultivo de soja, cana e eucalipto. Uma produção que não combina com a preservação da natureza e que passa por cima de direitos de populações indígenas e quilombolas, entre outros povos tradicionais.

    Quem financia a Musa?

    Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, o partido Democratas injetou R$ 1,35 milhão na campanha para a reeleição de Tereza Cristina nas eleições de 2018. Na sequência de maiores financiadores aparecem empresários do agronegócio, como Osmar Martignano Junior, que sozinho doou R$ 200 mil. Entre seus negócios está a Elo Agrícola, que tem entre os parceiros a Basf e a Arysta, fabricantes de agrotóxicos e plantas transgênicas, que estão no centro dos interesses pela aprovação do Pacote do Veneno.  

    Outro parceiro é Marcos Marinho Lutz, do conselho de administração da Raíz Energia – Raízen, ex-Cosan, que oficialmente doou R$ 100 mil. Maior produtora individual de açúcar e de etanol do país, produz também o biocombustível distribuído nos postos Shell de todo o Brasil. A empresa está entre os maiores financiadores de campanha da ruralista em 2014, conforme o quadro a seguir. 

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    O presidente do conselho da Raízen e sócio de Lutz em alguns negócios, Rubens Ometto Silveira Mello também é doador de Tereza: R$ 50 mil declarados ao TSE. A cana está entre as culturas com maiores áreas plantadas no país e uma das maiores consumidoras de agrotóxicos. Uma cana transgênica já foi aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).

    A lista inclui ainda outros nomes fortes do setor, como Aluísio de Aguiar, do setor algodoeiro, Celso Griesang, com mais de 30 empresas agropecuárias, e Alexandre Pedro Schenkel, que também atua na produção algodoeira, entre outras.

    Schenkel é autor de artigo em que pede ao novo presidente prioridade na revogação dos decretos de demarcação de terras indígenas, quilombolas e de reforma agrária editados no final do Governo Dilma Rousseff, cujo impeachment foi aprovado em massa pela bancada ruralista.

    Chama atenção também o patrimônio da nova ministra. Conforme o TSE, os bens declarados em 2018 totalizam R$ 5.160.215,34, um valor 498 vezes maior que o declarado na eleição de 2014, que foi de 10.360,98. Entre seus bens estão terrenos, casas, participação em empresas, títulos de capitalização e outros investimentos. 

    O nome mais esperado para ocupar o possível superministério era o também ruralista Jerônimo Goergen (PP-RS), integrante da Frente Parlamentar da Agropecuária e que também integrou a comissão especial do Pacote do Veneno. Indicado pelo presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antonio Nabhan Garcia, Goergen chegou a anunciar que aceitaria o cargo.

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    O agrônomo Xico Graziano, outro nome especulado para o posto, também elogiou a escolha por sua conta nas redes sociais. “Adorei! Tereza Cristina é minha colega engenheira agrônoma, competente, educada, pessoa do bem, querida. Nota 10 para Jair Bolsonaro”. 

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