eleições 2018

Vitor Marchetti: ‘Papel do vice se tornou mais importante do que deveria’

Cientista político aborda as dificuldades de composição de chapa para os presidenciáveis e analisa diretrizes do programa de governo do PT, que chama de 'agenda pós-materialista'

Ricardo Stuckert
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Vitor elogia papel de Haddad dentro do PT: ‘Programa de governo petista flerta com a mudança mais estruturante’

São Paulo – A menos de um mês para o prazo final de registro dos candidatos à Presidência da República, um dos principais problemas das legendas tem sido a escolha do vice. Para o cientista político e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Vitor Marchetti, a dificuldade de cada partido é distinta, variando entre o isolamento político, como é o caso de Jair Bolsonaro (PSL), e a preservação da candidatura presidencial, como acontece com o PT. “Desde a redemocratização, o papel do vice se tornou mais importante do que deveria”, lamenta ele, em entrevista ao jornalista Glauco Faria, na Rádio Brasil Atual, nesta quinta-feira (26).

De acordo com Marchetti, a discussão do vice da chapa petista passa pela candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “porque a partir do momento que o PT apresentasse um nome para vice, toda a grande imprensa iria dizer: ‘definiram o plano B’. Isso passa pela estratégia de preservar a candidatura Lula”, afirma.

Ele destaca ainda a renovação da agenda petista para as eleições, incluindo pontos como a regulação dos meios de comunicação e um destaque maior para a questão ambiental, conforme comentou o coordenador do programa de governo presidencial Fernando Haddad ao jornal El País. “O que ele (Haddad) representou, do ponto de vista das políticas públicas, na cidade de São Paulo, é bem isso, o que a gente pode colocar como uma agenda pós-materialista. Quando você olha para os governos europeus mais recentes, percebe que há agendas de políticas públicas que vão além da agenda tradicional, com questões identitárias e ambientais. O programa flerta com essa mudança mais estruturante do Partido dos Trabalhadores”, afirma.

Se por um lado o PT evita apontar um vice em sua chapa, o cientista político destaca a dificuldade de Jair Bolsonaro para nomear alguém. O deputado federal de extrema-direita já ouviu a recusa do senador Magno Malta (PR-ES) e do general Augusto Heleno (PRP).

“A reação do sistema partidário ao Bolsonaro me surpreendeu. Ele não foi isolado por qualquer outro movimento a não ser pelo próprio sistema político, que é conservador, reacionário, mas reagiu. Arriscaria dizer que, ainda que ele tenha algum apelo diante do eleitorado, este isolamento vai produzir efeitos bastante sérios, e a dificuldade de conseguir um vice é bastante simbólica disso”, explica.

Para o candidato do PDT, Ciro Gomes, as dificuldades são de outra ordem. “O Ciro flertou à esquerda e à direita e ficou sozinho. Agora, tem que se redefinir, reencontrar o seu caminho, e vai investir bastante do lado do PSB”, pondera. “Ele flertou com o Centrão para aumentar o tempo de televisão, ampliar o leque de apoios, não conseguiu e deixou de flertar com uma possibilidade de atrair mais os partidos de esquerda.”

Outro que pode ter problemas é o pré-candidato Geraldo Alckmin (PSDB), aponta Marchetti. Nesta quarta-feira (25), o empresário Josué Gomes (PR), filho do ex-vice-presidente da República José Alencar, recusou a nomeação. 

“Ele (Alckmin) vai ter o maior tempo de televisão, mas pode significar mais tempo de exposição do que de fato ele representa. Alckmin representa de alguma maneira o governo atual, a política econômica atual, tudo o que há de mais tradicional na política brasileira e um estilo de gestão que os paulistas conhecem bem. O vice dele deve servir para tentar maquiar sua candidatura representando alguma novidade, oxigenação na campanha”, diz Marchetti.

Intimidação na UFABC

O professor da instituição também comentou a investigação da Comissão de Sindicância em relação a professores da UFABC por lançarem o livro A Verdade Vencerá, sobre a prisão do ex-presidente Lula. Para ele, a ação é um reflexo clima policialesco do país.

“A Universidade Federal do ABC tem um histórico de lutas e representa a expansão de universidades pelo governo Lula, é muito simbólica, por isso é alvo de uma série de denuncismos. Esse caso não é único e está no contexto do Escola Sem Partido, de transformar a universidade num espaço de não-reflexão”, critica.

“O clima na universidade é de medo. As pessoas têm receio de tomar decisões e serem denunciadas. O resultado disso é o travamento da administração pública e o esvaziamento do papel do Estado”, acrescenta.

Ouça a íntegra da entrevista: