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Democracia abalada

Boulos: 'Hoje, falar em governar para todos é mentir para alguém'

Ao lado de parlamentares europeus, pré-candidato do Psol segue na Europa denunciando a prisão política de Lula e o golpe contra a democracia. "Nossa resistência precisa vir com um projeto de futuro"
por Redação RBA publicado 13/04/2018 16h34
Ao lado de parlamentares europeus, pré-candidato do Psol segue na Europa denunciando a prisão política de Lula e o golpe contra a democracia. "Nossa resistência precisa vir com um projeto de futuro"
Mídia Ninja
Guilherme Boulos

Para Guilherme Boulos, esquerda brasileira precisa se unir e aprender as lições com o golpe em curso no Brasil

São Paulo – Em seu segundo compromisso em Portugal para denunciar a prisão política do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o pré-candidato pelo Psol à presidência da República Guilherme Boulos resumiu em dois os principais desafios da esquerda no Brasil: resistir à escalada de ódio e à retirada de direitos, e aprender com o golpe sobre como construir soluções para a crise econômica e social. Destacando que o Brasil de 2018 não é mesmo de 2003, disse não ser mais possível reeditar alianças em uma situação onde ganham “os de baixo, e os de cima”.

“Quando o cobertor fica curto, tem que fazer escolha e esse é o momento atual. A esquerda precisa tomar lado de maneira categórica. Hoje, falar em governar para todos é mentir para alguém”, sentenciou Guilherme Boulos, durante debate com a participação de Rafa Mayoral (deputado do Podemos, da Espanha) e Joana Mortágua (deputada do Bloco de Esquerda, de Portugal), em evento organizado pelo Mídia Ninja e Coletivo Andorinha - Frente Democrática Brasileira de Lisboa e Casa do Alentejo. “Nossa resistência precisa vir com um projeto de futuro”, afirmou.

Para Boulos, é definitivamente necessário fazer a reforma tributária e política, a taxação das grandes fortunas, e promover a regulação do sistema financeiro e da mídia. “Com esse sistema político não se governa para fazer transformações”, disse, destacando que é preciso haver um governo que coloque o MDB na oposição, ao contrário das últimas décadas, em que o partido de Michel Temer sempre esteve no governo, independentemente do presidente da República.

Recordando a trajetória de fatos desde o impeachment até a prisão de Lula – o que inclui a mudança da legislação trabalhista, o congelamento do orçamento da União por 20 anos, a mudança na regra de exploração do pré-sal e os tiros contra a caravana de Lula no Sul do país –, o pré-candidato à presidência da República enfatizou que a esquerda brasileira precisa esquecer as “alianças falidas” e construir uma ampla unidade do campo progressista.  “Sabemos das diferenças no campo da esquerda, mas elas são saudáveis, devem permitir um debate amplo e democrático. Nossas diferenças não vão nos impedir de estarmos juntos para barrar a onda de retrocessos”, afirmou Boulos. “É preciso aprender com o golpe para ser capaz de apontar soluções e disputar novamente o poder.”

Sobre a prisão política do ex-presidente Lula, Boulos afirmou ser preciso romper o bloqueio da mídia brasileira “de fora para dentro”, citando para isso a importância de denunciar a situação no exterior. “Lula não está acima da lei, mas não pode estar abaixo. E ele tem sido tratado abaixo da lei, sem garantias legais. O cenário é grave e impõe desafios importantes para enfrentar a crise democrática e pensar no futuro”, ponderou, destacando a necessidade da criação de uma ampla campanha internacional pela democracia no Brasil.

Mais democracia

A deputada portuguesa Joana Mortágua, integrante do Bloco de Esquerda, união de partidos progressistas que governa Portugal, colocou a prisão de Lula no contexto do avanço da direita e da extrema-direita no mundo, citando como exemplos a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e Maurice Macron na França. Para ela, esses avanços são consequência da reorganização do capital financeiro em esfera mundial após a crise econômica de 2008.

A deputada portuguesa enfatizou que o campo progressista internacional precisa aprender com os erros de modo a não permitir que a direita e extrema-direita sigam crescendo. “Se não construirmos esse projeto político, não há como salvar a democracia”, afirmou.

Já o deputado espanhol Rafa Mayoral (Podemos) ponderou que a prisão de Lula deve servir de alerta não só para o Brasil, mas para o campo da esquerda em todo o mundo. Mayoral enfatizou que a retirada de direitos civis e políticos vistos no Brasil também têm acontecido em outros países, incluindo o uso das forças policiais para criminalizar movimentos sociais. “Nosso objetivo deve ser construir uma força política que seja útil para a maioria da população. Temos que escolher entre aprofundar a democracia ou assistir a vitória dos milionários”, afirmou.

O deputado espanhol insistiu na ideia do fortalecimento democrático, com ampliação da participação social e a construção de um projeto popular de governo, para enfrentar a onda conservadora mundial. “A prisão de Lula representa não só a criminalização dele, mas também de todos os movimentos sociais.”