Amistoso

Lula inaugura campo Doutor Sócrates com time de Chico Buarque em dezembro

Em entrevista a emissora de rádio, ex-presidente menciona entre os 'sonhos' para o ano que vem ser convocado por Tite para a Copa e ouvir Bonner pedir desculpas. O primeiro é menos difícil

Ricardo Stuckert
Lula e Chico

Ex-presidente diz que pode ir à Copa, mas não acredita que Chico possa: está de casamento novo

São Paulo – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que estará na partida de inauguração do campo Doutor Sócrates, do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). O campo foi construído junto à Escola Nacional Florestan Fernandes, espaço de formação do movimento em Guararema, município da região metropolitana de São Paulo.

O jogo de estreia vinha sendo planejado desde o início do semestre, e buscava-se uma data compatível com as agendas dos “atletas” mais esperados para a disputa: o ex-presidente, que terá completado três etapas da caravana Lula pelo Brasil no próximo mês, e o compositor Chico Buarque, às voltas com lançamento do novo álbum, Caravanas, e temporada de shows.

Em entrevista nesta quarta-feira (29) para a Rádio Capital de Mato Grosso do Sul, Lula anunciou o evento para 23 de dezembro. “Ainda sou um meia-armador de qualidade e quem sabe eu possa ser convocado para a Copa da Rússia. O Chico já acho que não pode, já que está de casamento novo…”, brincou o entrevistado.

Durante a conversa de 40 minutos com o radialista Joel Silva, o ex-presidente falou sobre os interesses externos que moveram a campanha que desencadeou o golpe de 2016, política de alianças, a piora das condições da economia – “Tem lugares em que um botijão de gás de cozinha está custando mais de R$ 90 reais, 10% de um salário mínimo” –, os ataques a direitos trabalhistas e sociais e a percepção a “olho nu” da volta da fome e da miséria no país – “conseguimos tirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU e agora o país está voltando; espero que as pessoas que apoiaram o golpe sintam vergonha ao ver um pobre dormindo na ruas”.

Lula mencionou a perseguição judicial sofrida por ele e sua família, com cumplicidade sistemática da imprensa comercial. Reiterou que os integrantes da Operação Lava Jato – Polícia Federal e Ministério Público – mentiram sobre ele, e agora estão reféns das mentiras. E que o juiz de primeira instância Sérgio Moro promove uma “condução política” da operação. “Não terão como absolver porque estão comprometidos com essa condução política”, afirma o ex-presidente. “O que está em jogo é não deixar eu ser candidato. Se deram o golpe na Dilma, não vão querer deixar eu voltar. Vão querer confusão, e eu vou enfrentar a confusão.”

O tom de voz sobe quando Lula cita o “massacre” sofrido por ele e sua família por três anos. “Reviraram minha vida, colchão, gavetas, abriram meu fogão, o exaustor do fogão, e até a televisão, não encontraram um centavo criminoso na minha vida”, criticou, afirmando esperar que Moro, o Ministério Público, a Polícia Federal e a Rede Globo um dia peçam desculpas. “Sonho um dia ligar o Jornal Nacional e ver o (apresentador William) Bonner dizendo: ‘Boa noite, eu quero pedir desculpas ao ex-presidente Lula…”, ironizou. “Estão acostumados a lidar com ladrões, que ainda ficam com metade do que roubaram para fazer delações.”

Lula na Rádio Capital

Vou encaminhar  um projeto de regulação dos meios de comunicação. Não a de Cuba ou da China. Mas a dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Alemanha, para que o controle não fique nas mãos de nove famílias

Os interesses internacionais no petróleo também estariam por trás dessa “armação”, avalia o ex-presidente, lembrando a importância da descoberta do pré-sal durante seu governo para a soberania e a emancipação econômica do país. “Queriam tirar do Estado brasileiro o controle sobre os recursos do pré-sal, destruíram a política de conteúdo nacional, destruíram a nossa engenharia, quebraram as empresas. Se algum dono de empresa roubou, que se prenda o dono, mas não se destruam empresas. O dono da Samsung está preso e a Samsung está em pleno funcionamento.”

Ao ser questionado por que a política brasileira “anda muito rancorosa”, Lula afirmou que os movimentos que levaram ao desencanto com a política vinham sendo “calculados a partir de interesses de fora do país” desde 2013 – lembrando as manifestações de rua infladas pela Rede Globo – e passaram pelas eleições de 2014. “O Aécio Neves (PSDB) usou a campanha para disseminar ódio e preconceito, plantou vento em 2014 e colheu tempestade este ano.” O “arranjo”, segundo ele, prosseguiu após a eleição de Dilma Rousseff tendo como objetivo tirá-la do poder.

O ex-presidente observou, porém, que a campanha travada com “raiva, ódio e preconceitos” resultou neste “Congresso que está aí”, e que mudar a composição do Legislativo também é tarefa das eleições do ano que vem. Disse que é necessário se criar um clima de disputa em que as pessoas sejam adversárias, mas não inimigas e se debatam projetos que definam o futuro do país. “Não se coloca raiva e preconceito na urna, se coloca esperança”, definiu.

Lula voltou a associar setores da elite brasileira ao complexo de vira-latas e reafirmou sua capacidade de unir e pacificar o país baseado em sua própria experiência. Disse que durante seus oito anos de governo “usineiros, fazendeiros e banqueiros ganharam muito”, e que nenhum estado ou município foi discriminado pelo governo federal.

“O Mato Grosso recebeu o maior volume de recursos da história do estado. A capital, Campo Grande, mesmo com prefeito do PTB, teve grande parte das obras realizadas com recursos federais”, afirmou, reiterando a necessidade de o processo eleitoral proporcionar um debate civilizado. “Não gosta de mim e não quer votar em mim, não vote. Mas não minta.”

Perguntado se a reedição da política de alianças seria um erro que não repetiria, o ex-presidente afirmou não ser possível não haver alianças políticas no Brasil para se governar. “A menos que um partido eleja 350 deputados e 58 senadores, ele não consegue governar sozinho”, simplificou.

Recordou que depois de sucessivos anos de crescimento com distribuição de renda, mesmo enfrentando crise internacional, sua sucessora chegou ao segundo ano de mandato, em 2012, com aprovação de 75%, maior do que a dele próprio no mesmo período. Foi a partir dali, segundo Lula, que começariam as armações que levariam ao que aconteceu em 2013, em 2014, à eleição do atual Congresso, ao respectivo boicote legislativo. “Estava sendo preparado o esquema para darem o golpe.”

Hoje, ele reitera, a desqualificação do debate político tem como principal objetivo barrar seu retorno. “Não querem que eu volte porque vou aprovar um referendo revogatório para reverter o desmonte que estão promovendo”, anuncia. “E porque vou encaminhar ao Congresso um projeto de regulação dos meios de comunicação. Não uma regulação como em Cuba ou na China. Mas como a dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Alemanha”, compara, explicando como objetivo evitar que o direito a produzir informação seja privilégio de “nove famílias”.

A íntegra da entrevista tem 39 minutos: