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Criticada até por aliados, educação é calcanhar-de-aquiles de Cabral

por Maurício Thuswohl, especial para a Rede Brasil Atual publicado , última modificação 09/09/2010 19h15

Cabral em campanha no Museu de Ciência e Vida, em Duque de Caxias. Educação é alvo até de aliados do PT(Foto: Marcos Michael / Divulgação)

Rio de Janeiro – A educação vem sendo o tema mais abordado na campanha eleitoral no Rio de Janeiro. O tema é um flanco vulnerável aos ataques dos adversários do governador Sérgio Cabral (PMDB) e até mesmo da parte mais à esquerda de sua base aliada. Beneficiado eleitoralmente pelos bons resultados obtidos na política de segurança pública e nas parcerias com o governo federal para obras de habitação e infraestrutura, o governador aparece virtualmente reeleito no primeiro turno segundo as pesquisas de opinião.

Apesar do discurso de campanha procurar apresentar números positivos na educação, Cabral não tem como fugir de seu calcanhar-de-aquiles: o Rio de Janeiro teve péssimo desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2009 e ficou em penúltimo lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) divulgado este ano. Para completar o quadro, o mais recente Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) mostra que, de 2006 a 2009, o Rio teve a maior queda do país no número de alunos matriculados na rede pública estadual de ensino médio.

"A educação no governo Cabral foi muito precária", ataca o deputado federal Chico Alencar (PSOL). "O discurso do governo se choca com a realidade e nada mais contundente do que a posição que a educação do Rio de Janeiro ocupa no ranking nacional, lá na rabeira", completa. Para ele, a falta de investimento na área compromete "o nosso futuro" e prejudica a população.

Candidato ao Senado pelo DEM, o ex-prefeito Cesar Maia publicou parte dos resultados do Inep e do Ideb em seu "ex-blog" na internet e qualificou como "tragédia" a política do governo Cabral para a educação. Maia afirma pretender unir as diversas forças políticas para reverter o quadro da educação no Estado. "Tal tarefa exigirá um esforço suprapartidário dos senadores e deputados eleitos, do Ministério da Educação e do governo do estado. Esforço com máxima urgência e prioridade", diz o candidato.

Durante a propaganda eleitoral da TV, o candidato da oposição, Fernando Gabeira (PV), adversário mais próximo de Cabral nas pesquisas, também centrou sua artilharia nos problemas da educação no estado. Gabeira visitou o Colégio Estadual Santa Tereza, no município de Belford Roxo, onde algumas salas de aula não têm telhado. Na telinha, o candidato verde entrevista uma aluna que diz: “Quando chove não tem aula, quando está sol não tem aula, se estiver ventando muito não tem aula”.

 

PT crítico


Na base de partidos que apoia Cabral, é no PT que ecoam mais fortes às críticas à política de educação do governo estadual. Diretor do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe) e candidato a deputado estadual, o professor Túlio Paolino é taxativo: "A realidade é que alguns candidatos do partido estão incomodados com a aliança realizada pelo PT do Rio de Janeiro com o governador Cabral na defesa de sua reeleição", resume.

Paolino sustenta que no relacionamento com os servidores públicos, a relação com o governo Cabral foi "a pior possível". O mesmo teria ocorrido nas políticas de educação em geral. Foi um governo que não negociou com as entidades dos servidores públicos e não teve uma política de valorização e respeito aos servidores públicos”, afirma.

Outro candidato petista da categoria, Robson Leite, afirma que o PT "tem muitas críticas" às políticas de educação do governo Cabral. "É evidente que o PT apoia o governo Cabral muito em função da construção política que se faz buscando a eleição da Dilma Rousseff para presidente e de um projeto político maior para o Brasil", diz.

Leite afirma que "a segunda metade do governo Cabral teve algumas melhoras relacionadas à política de da segurança pública". E ressalta ainda que o PT apresentou uma pauta mais ampla para o programa do segundo mandato. "Pautamos um maior respeito com relação aos sindicatos, aos movimentos sociais e movimentos populares. O governador recebeu essas nossas propostas e, evidentemente, a gente agora espera eleger uma grande bancada de deputados estaduais para ter a força política necessária para puxar no segundo governo uma relação muito melhor do que aconteceu no primeiro governo em relação à educação", projeta.
 

Ensino médio

No ensino médio, que é responsabilidade do governo estadual, o Rio perdeu 87.244 matrículas em três anos. Túlio Paolino avalia que o governo do estado não deu ao ensino médio à atenção exigida pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB). "Teve muito investimento em tecnologia, equipando as escolas com ar-condicionado e distribuindo laptops para os professores, mas isso não se transformou em uma melhora efetiva da qualidade na educação”, afirma o petista, citando pontos da propaganda eleitoral de Cabral.

Chico Alencar aponta na mesma linha. "Os compromissos que o governador, quando candidato há quatro anos, assumiu com os professores em boa parte não foram cumpridos. Ele acha que resolve (a situação) só com melhorias pontuais e materiais – algumas a preços estratosféricos, como ar-refrigerado e laptop na mão de um professor que não tem um salário decente nem atualização permanente", critica.

O deputado do PSOL qualifica a visão como produtivista e exibicionista da educação. Como proposta de mudança, Alencar fala em reorientar recursos, administrá-los melhor, democratizar as escolas com gestão sob o controle da própria comunidade e estimular a participação de pais, alunos, professores e servidores nessa gestão.